|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
Zilda Arns e o soro caseiro de Florestópolis
A pediatra de Curitiba trocou o consultório por vizinhas treinadas e uma balança de gancho no norte do Paraná.
|
Florestópolis, 1983: a balança de gancho
|
| ▼ |
| |
|
Aos 49 anos, a pediatra Zilda Arns Neumann desceu do carro em Florestópolis, no norte do Paraná, com uma balança de gancho e um saco de pano. Era setembro de 1983, e a cidade vivia do corte de cana.
Os boias-frias (trabalhadores rurais contratados por dia, que levam a marmita fria para a roça) saíam de madrugada nos caminhões. As crianças ficavam com irmãos mais velhos ou com avós. Diarreia era a doença mais comum da infância, e o enterro de bebê fazia parte da rotina do cemitério local.
Zilda não chegou para abrir posto de saúde nem para atender em consultório. Chegou para ensinar mães da própria cidade a cuidar das crianças da rua onde moravam.
O plano cabia numa folha. Cada voluntária acompanharia um grupo de famílias vizinhas. Todo mês, pesaria as crianças, anotaria o peso num cartão e conversaria com a mãe sobre amamentação, vacina e comida.
Para a diarreia, a arma era barata. Água fervida, açúcar e sal, na medida certa, viravam soro caseiro, a mistura que repõe o líquido que o corpo perde e impede a desidratação. A medida vinha numa colher de plástico com duas pontas: a maior para o açúcar, a menor para o sal.
As primeiras voluntárias foram recrutadas na paróquia. Eram costureiras, donas de casa, uma professora, mulheres que conheciam cada família pelo apelido. Nenhuma tinha formação em saúde.
Zilda passou dias com elas numa sala da igreja. Ensinou a ler a curva de peso no cartão, a reconhecer a moleira funda e a boca seca da criança desidratada, e a preparar o soro diante da mãe, para que a mãe aprendesse a fazer sozinha.
O padre da cidade ajudou a abrir as portas. A prefeitura emprestou o salão. Os médicos da região olharam com desconfiança: aquilo parecia pouco para um problema tão grande.
A ideia, porém, não tinha nascido em Florestópolis. Tinha nascido numa conversa em Genebra, entre um americano do UNICEF e o irmão mais velho da pediatra, e chegou a ela por telefone.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Vida de Hoje
A décima segunda de treze filhos
|
|
Zilda Arns nasceu em Forquilhinha, no sul de Santa Catarina, em 25 de agosto de 1934. Era a décima segunda dos treze filhos de Gabriel Arns e Helena Steiner, colonos de origem alemã que plantavam e criavam animais.
Na casa, falava-se alemão e rezava-se em voz baixa antes das refeições. Os irmãos mais velhos foram para seminários e conventos. Um deles, Paulo Evaristo Arns, viraria cardeal arcebispo de São Paulo.
A menina queria ser médica desde cedo. Contava que se impressionava com as crianças doentes da vizinhança, levadas de carroça até a cidade quando já era tarde.
A família se mudou para Curitiba, e Zilda entrou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná. Formou-se em 1959, numa turma em que as mulheres eram minoria.
Escolheu a pediatria e, em seguida, a saúde pública. Virou sanitarista, a médica que cuida da saúde de uma população inteira, e não só do paciente sentado na sua frente.
Trabalhou no Hospital de Crianças César Pernetta, em Curitiba, e depois na Secretaria de Saúde do Paraná. Ali dirigiu a área de saúde materno-infantil e organizou campanhas de vacinação pelo interior do estado.
Em 1959 casou com Aloísio Bruno Neumann, comerciante de Curitiba. Tiveram seis filhos; um deles morreu ainda bebê. Em 1978, Aloísio morreu afogado numa praia do litoral paranaense, ao tentar salvar uma criança que se debatia no mar.
Zilda ficou viúva aos 43 anos, com cinco filhos para criar e um emprego público. Continuou no serviço de saúde e passou a juntar o que via nas campanhas: a criança que morria no interior quase nunca morria de doença rara.
Morria de diarreia, de pneumonia, de desnutrição e de doença que vacina evita. Faltava pouco dinheiro e muita gente perto da família, no momento em que a criança começava a piorar.
Em 1982, Paulo Evaristo Arns foi a Genebra, na Suíça, para uma reunião sobre paz. Lá encontrou James Grant, diretor-executivo do UNICEF, o fundo das Nações Unidas para a infância.
Grant contou ao cardeal que o soro oral salvaria milhões de crianças pobres se alguém o ensinasse às mães, e perguntou se a Igreja Católica, com paróquia em quase toda cidade, podia fazer a tarefa.
O cardeal voltou ao Brasil, chamou a irmã e repetiu a pergunta. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, aprovou o projeto. Zilda escolheu Florestópolis, uma das cidades do Paraná onde mais morriam bebês.
|
|
|
|
|
II O Momento que Virou
A colher de duas pontas
|
|
O trabalho em Florestópolis começou com um punhado de voluntárias, que receberam o apelido de líderes. Cada líder cuidava de dez a quinze famílias na própria rua, e cada família recebia um cartão de peso para cada filho pequeno.
Zilda montou o método a partir de uma passagem do Evangelho, a multiplicação dos pães e peixes. Explicava às líderes que ninguém ia receber um pacote pronto de fora: o que a comunidade sabia seria repartido até alcançar todas as mães.
A visita era simples. A líder chegava, pendurava a balança de gancho num caibro da casa, punha a criança no saco de pano e lia o ponteiro. Se a curva no cartão subia, havia elogio. Se descia ou parava, havia conversa e retorno na semana seguinte.
As líderes não davam remédio. Mandavam ao posto quem precisava de médico, ensinavam a preparar o soro, incentivavam o peito até os seis meses e cobravam a carteira de vacinação em dia.
O Dia de Celebração da Vida era a reunião mensal da comunidade. As mães levavam os filhos para a pesagem coletiva, trocavam receitas e viam, no cartão das vizinhas, crianças que ganhavam peso com a mesma comida.
Para as famílias mais pobres, a Pastoral passou a ensinar a multimistura, um pó feito de farelo de trigo, folha de mandioca seca, casca de ovo moída e semente torrada, misturado ao feijão e ao arroz. A eficácia dela virou debate entre nutricionistas nos anos seguintes, e a Pastoral acabou dando mais peso ao aleitamento e à comida comum da casa.
Os registros da própria Pastoral da Criança, de 1984, apontaram, ao fim do primeiro ano em Florestópolis, que a mortalidade de bebês na cidade tinha caído de 127 para 28 a cada mil nascidos vivos.
A notícia correu entre os bispos. Dioceses do Paraná e de Santa Catarina pediram o método. Zilda escreveu um guia para as líderes, com desenhos e frases curtas, para ser lido por quem tinha estudado poucos anos.
A expansão seguiu a lógica da paróquia. Um padre ou uma freira chamava as primeiras líderes, a coordenação treinava, e as líderes treinadas formavam as seguintes. Nenhuma recebia salário.
Zilda viajava sem parar. Dormia em casa de família, falava em salão de igreja, carregava na bolsa a colher de duas pontas e um cartão de peso para mostrar como se lia a curva.
O UNICEF passou a apresentar a experiência em reuniões com outros governos. Nos anos 1990, a Pastoral chegou à América Latina, à África e à Ásia, e a pediatra virou convidada frequente de conferências internacionais sobre saúde da criança.
Em 2004, já perto dos 70 anos, Zilda fundou a Pastoral da Pessoa Idosa, com o mesmo desenho de líderes voluntárias visitando vizinhos, agora com a pressão arterial e a solidão no lugar da balança.
|
| |
|