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A dissertação de 1945 separou o que muita gente misturava. Os entrevistados que se diziam mulatos tendiam a se afastar dos que se diziam pretos, buscando aceitação entre os brancos. Os que se diziam pretos se organizavam mais em associações próprias.
O achado central incomodou. Virgínia registrou que subir de classe não apagava o preconceito: quanto mais a pessoa negra subia, mais esbarrava em portas fechadas pela cor, e não pelo bolso.
Com a formação terminada, Virgínia passou a atender pacientes. Foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, reconhecida pela associação internacional em 1951.
Não era médica, e o diploma faltante pesou. Médicos paulistas defendiam que só quem tinha diploma de medicina podia tratar a mente, e a atacaram em jornais e reuniões. Ela continuou atendendo, apoiada por Koch.
Nos anos 1950, Virgínia Bicudo levou a psicanálise para fora do consultório, pelo rádio.
O programa se chamava Nosso Mundo Mental. Uma vez por semana, ela lia cartas de ouvintes e respondia ao vivo: mães aflitas com birras, maridos ciumentos, moças com medo de sair de casa.
O tema mais frequente era a angústia, que a psicanálise descreve como medo sem objeto claro, um aperto que a pessoa sente sem saber de onde vem. Virgínia explicava o termo com exemplos da cozinha, do bonde e da sala de aula.
Falava como professora. Não dava diagnóstico pelo microfone; sugeria conversa, paciência com os filhos e procura de ajuda quando o sofrimento travava a vida.
Na mesma época, voltou à pesquisa racial. O Projeto Unesco, estudo sobre relações raciais no Brasil encomendado pela agência da ONU para educação e cultura, tinha em São Paulo a coordenação do francês Roger Bastide e de Florestan Fernandes.
Virgínia ficou com as crianças. Pesquisou alunos de grupos escolares e perguntou com quem cada um queria sentar, brincar e fazer dupla. O texto saiu em 1955 no livro Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo, organizado por Bastide e Fernandes.
As respostas mostravam escolhas pela cor já na infância. O rádio e a pesquisa falavam do mesmo assunto por caminhos diferentes: o que se aprende cedo e pesa por dentro.
As cartas chegavam em quantidade, escritas à mão, muitas sem assinatura. Para boa parte daquelas ouvintes, o programa foi o primeiro contato com a ideia de que o sofrimento psíquico tinha nome e tratamento.
As palestras do programa foram reunidas em livro, também com o título Nosso Mundo Mental, publicado em São Paulo em 1956.
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