In partnership with

Biografia do Dia   Biografia do Dia
ED 083
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

Virgínia Bicudo e a angústia falada no rádio

Socióloga e psicanalista, ela estudou o preconceito de cor em São Paulo e levou a angústia ao microfone nos anos 1950.

Mulher negra dos anos 1950 diante de um microfone de rádio antigo, em São Paulo.

São Paulo, anos 1950: a psicanálise no rádio

▼
 

Aos 34 anos, a socióloga paulistana Virgínia Leone Bicudo entregou em 1945, na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, uma dissertação de título seco: Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo.

A escola funcionava no centro da cidade e tinha nascido em 1933, criada por empresários e intelectuais paulistas, com professores trazidos dos Estados Unidos. Formava gente para pesquisar a sociedade com entrevista, questionário e caderno de campo.

O orientador era o americano Donald Pierson, sociólogo formado na Universidade de Chicago, que tinha passado anos em Salvador estudando a convivência entre brancos e negros na Bahia.

Virgínia escolheu a própria cidade. Foi atrás de famílias negras de São Paulo, de associações recreativas e de jornais feitos por negros, e perguntou a cada pessoa como sentia a cor na escola, no emprego e na rua.

Entre os entrevistados havia trabalhadores, estudantes e antigos militantes da Frente Negra Brasileira, associação fundada em 1931 que chegou a se registrar como partido político e foi fechada pelo Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, em 1937.

O que ela anotou contrariava a ideia, comum nos livros da época, de um país sem preconceito de cor. Os entrevistados descreviam portas fechadas, apelidos, vagas recusadas e o esforço de subir na vida para escapar do estigma.

A dissertação foi a primeira defendida no Brasil sobre relações raciais, segundo o historiador Marcos Chor Maio, da Fundação Oswaldo Cruz, que organizou a publicação do texto em livro em 2010. Até lá, ficou 65 anos guardada na biblioteca da escola.

A autora era mulher, negra e filha de imigrante, num corredor de professores brancos e estrangeiros. Poucos anos depois, a mesma pesquisadora estaria diante de um microfone, falando de medo, ciúme e angústia para ouvintes de todo o estado.

O caminho entre a tese e o rádio começa numa casa de São Paulo, com um pai negro, uma mãe italiana e uma menina que aprendeu cedo a medir os olhares da rua.

Continue lendo ↓

 

Quem banca a edição de hoje

You built the audience. Can you reach them?

You can have thousands of people following your work and still need an algorithm’s permission to reach them. Creators know the drill: you post, you pray, you check the numbers, you try again tomorrow.

A newsletter changes that relationship. On beehiiv, you can build a subscriber list you own, reach readers directly, and turn their attention into a sustainable business with subscriptions, sponsors, a global ad network, and more.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

I  A Vida de Hoje

A menina do Instituto de Higiene

A resposta de ontem

Qual escola desfilou o minueto de Mercedes em 1963?

Foi o Acadêmicos do Salgueiro, com o enredo Xica da Silva, dos carnavalescos Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Mercedes ensaiou uma ala de passistas para dançar o minueto em trajes de corte, e o Salgueiro saiu campeão do carnaval carioca daquele ano.

Virgínia Leone Bicudo nasceu em 21 de novembro de 1910, em São Paulo. O pai, Teófilo Bicudo, era um homem negro, descendente de escravizados. A mãe, Giovanna Leone, era imigrante italiana.

A família morava num bairro de operários e imigrantes. Na escola, Virgínia ouvia apelidos por causa da cor e sentia a distância das colegas brancas. Mais tarde, em entrevistas, contou que passou a infância tentando ser a melhor aluna da sala para não ser rejeitada.

Formou-se professora na Escola Normal, caminho comum para a moça de família modesta que queria trabalhar. Em 1932, concluiu o curso de educadora sanitária (profissional que ensinava higiene e prevenção de doenças nas escolas e nas casas) no Instituto de Higiene de São Paulo.

O cargo a levou para dentro dos grupos escolares, as escolas primárias públicas da época. Ela pesava crianças, examinava cadernos de vacina, visitava famílias e ouvia professoras falando de alunos agressivos, tristes ou calados.

As dúvidas do serviço não cabiam no manual de higiene: o motivo da criança que mordia a colega, o do menino que parava de falar. Para procurar respostas, Virgínia se matriculou em 1936 na Escola Livre de Sociologia e Política.

Formou-se em 1938, uma das poucas mulheres da turma e a única negra. Ficou na escola como pesquisadora e seguiu para o mestrado, sob a orientação de Pierson.

Na sociologia, Virgínia buscava também uma explicação para a própria dor de ser discriminada pela cor.

A sociologia explicava o preconceito pelo lado de fora: a escravidão, a economia, a hierarquia das classes. Virgínia queria entender o lado de dentro, o que a rejeição faz com a pessoa que a sofre.

Foi assim que, em 1937, ela bateu à porta de Adelheid Koch, médica alemã de família judia que tinha fugido do nazismo e chegado a São Paulo no ano anterior. Koch vinha formada pelo Instituto Psicanalítico de Berlim, escola fundada por discípulos de Sigmund Freud.

Virgínia virou a primeira pessoa analisada por Koch no Brasil. A análise (o tratamento psicanalítico pela fala, com o paciente deitado no divã, várias vezes por semana) durou anos e serviu ao mesmo tempo de terapia e de formação.

Em paralelo, ela fazia as entrevistas da dissertação. De dia, perguntava a famílias negras como viviam a cor; à tarde, deitava no divã e falava da própria.

 
 

II  O Momento que Virou

Um microfone para a angústia

A dissertação de 1945 separou o que muita gente misturava. Os entrevistados que se diziam mulatos tendiam a se afastar dos que se diziam pretos, buscando aceitação entre os brancos. Os que se diziam pretos se organizavam mais em associações próprias.

O achado central incomodou. Virgínia registrou que subir de classe não apagava o preconceito: quanto mais a pessoa negra subia, mais esbarrava em portas fechadas pela cor, e não pelo bolso.

Com a formação terminada, Virgínia passou a atender pacientes. Foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, reconhecida pela associação internacional em 1951.

Não era médica, e o diploma faltante pesou. Médicos paulistas defendiam que só quem tinha diploma de medicina podia tratar a mente, e a atacaram em jornais e reuniões. Ela continuou atendendo, apoiada por Koch.

Nos anos 1950, Virgínia Bicudo levou a psicanálise para fora do consultório, pelo rádio.

O programa se chamava Nosso Mundo Mental. Uma vez por semana, ela lia cartas de ouvintes e respondia ao vivo: mães aflitas com birras, maridos ciumentos, moças com medo de sair de casa.

O tema mais frequente era a angústia, que a psicanálise descreve como medo sem objeto claro, um aperto que a pessoa sente sem saber de onde vem. Virgínia explicava o termo com exemplos da cozinha, do bonde e da sala de aula.

Falava como professora. Não dava diagnóstico pelo microfone; sugeria conversa, paciência com os filhos e procura de ajuda quando o sofrimento travava a vida.

Na mesma época, voltou à pesquisa racial. O Projeto Unesco, estudo sobre relações raciais no Brasil encomendado pela agência da ONU para educação e cultura, tinha em São Paulo a coordenação do francês Roger Bastide e de Florestan Fernandes.

Virgínia ficou com as crianças. Pesquisou alunos de grupos escolares e perguntou com quem cada um queria sentar, brincar e fazer dupla. O texto saiu em 1955 no livro Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo, organizado por Bastide e Fernandes.

As respostas mostravam escolhas pela cor já na infância. O rádio e a pesquisa falavam do mesmo assunto por caminhos diferentes: o que se aprende cedo e pesa por dentro.

As cartas chegavam em quantidade, escritas à mão, muitas sem assinatura. Para boa parte daquelas ouvintes, o programa foi o primeiro contato com a ideia de que o sofrimento psíquico tinha nome e tratamento.

As palestras do programa foram reunidas em livro, também com o título Nosso Mundo Mental, publicado em São Paulo em 1956.

 

Quem banca a edição de hoje

Introducing Fair Game from Vanity Fair

Join Mark Guiducci for a series of in-depth and far-reaching conversations with the most interesting characters from the worlds of Hollywood, Politics, Style, Silicon Valley, and beyond. It's all Fair Game.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Que Ficou

Londres, Brasília e o livro de 2010

Em 1955, Virgínia embarcou para Londres. Passou quatro anos estudando na Clínica Tavistock, centro britânico de atendimento psicológico, e acompanhando seminários do círculo de Melanie Klein, psicanalista austríaca que estudava a mente das crianças pequenas.

Voltou em 1959 com a bagagem kleiniana, então a corrente mais influente da psicanálise inglesa. Passou a dar aulas e supervisão (o acompanhamento dos casos de analistas em formação) na sociedade de São Paulo.

Dirigiu o Instituto de Psicanálise da sociedade paulista e formou dezenas de analistas. Nos anos 1970, mudou-se para Brasília e ajudou a criar o grupo que deu origem à Sociedade de Psicanálise de Brasília.

Em Brasília, atendia em consultório próprio, dava seminários a médicos e psicólogos da capital nova e viajava a São Paulo para supervisionar alunos antigos. Seguiu trabalhando até a velhice.

A tese de 1945 ficou na gaveta enquanto a psicanalista ganhava nome.

Virgínia raramente voltava ao tema racial em público. Pesquisadores que a entrevistaram nos anos 1990 contam que ela falava pouco da dissertação e muito dos pacientes.

O silêncio tem uma explicação provável, mas não comprovada: a sociologia da época passou a creditar o estudo do preconceito a nomes como Florestan Fernandes, e o trabalho pioneiro dela sumiu das bibliografias. Ela nunca deixou registro escrito do motivo, e a causa segue em aberto.

Virgínia Leone Bicudo viveu até dezembro de 2003, em São Paulo, aos 93 anos.

Sete anos depois, Marcos Chor Maio publicou a dissertação em livro, pela Editora Sociologia e Política, com o título original. Foi a primeira vez que o texto de 1945 chegou às livrarias.

A partir daí, a pesquisadora Janaína Damaceno, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e outros estudiosos passaram a escrever sobre ela, e o nome de Virgínia entrou em cursos de sociologia e de psicanálise pelo país.

Hoje ela aparece como pioneira duas vezes: no estudo das relações raciais e na psicanálise feita por quem não era médico. As duas pontas nasceram da mesma pergunta, feita por uma menina que ouvia apelidos no grupo escolar.

Bicudo deu ao programa de rádio e ao livro o nome do assunto de toda a vida dela: “Nosso Mundo Mental”.

 
 
Quiz da edição

Quantos anos a dissertação de Virgínia Bicudo ficou guardada na biblioteca da Escola Livre de Sociologia e Política antes de virar livro?

A45 anos
B55 anos
C65 anos
D75 anos

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🖋️🖋️🖋️🖋️🖋️  ótima 🖋️🖋️🖋️🖋️  boa 🖋️🖋️🖋️  ok 🖋️🖋️  ruim 🖋️  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual edição você quer ver amanhã?

Voto aberto até 29/10, 15h30

A Hanaoka Seishu →
B Qiu Jin →
C Marian Rejewski →
D Taytu Betul →
 
Recomendação de Newsletter
Crime Aberto

Crime Aberto

Toda noite, às 20:20, um caso brasileiro que ficou em aberto. O que os autos dizem, o que os autos silenciam e onde o sistema falhou.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →
 
Clímax da temporada

Maratona dos 7 dias finais

◆◆◆◆293031

Dia 5 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

{{maratona_dias | 0}}
dias feitos
{{maratona_faltam | 6}}
pra fechar

Presença por clique, voto ou quiz. Sem folga na maratona: o seguro do mês cobre 1 dia.

Acompanhar minha ofensiva →

 
 
 

Três minutos. Um nome novo pro dia.

Biografia do Dia

BIOGRAFIA DO DIA

Uma vida por dia, e o que ficou dela

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter