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Tupaia e o mapa das 74 ilhas do Pacífico

Navegador de Raiatea, ele embarcou no Endeavour em 1769 e ditou a bordo a carta de um oceano que os ingleses mal conheciam.

Navegador polinésio desenhando ilhas num mapa a bordo de um veleiro inglês do século 18.

Taiti, 1769: Tupaia a bordo do Endeavour

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Aos 44 anos presumidos, o sacerdote e navegador Tupaia subiu a bordo do Endeavour em julho de 1769, no Taiti. Levava junto Taiata, um menino de uns 12 anos que o servia.

O navio inglês tinha chegado à ilha em abril, comandado pelo tenente James Cook. A missão oficial era observar a passagem de Vênus diante do Sol, medição encomendada pela Royal Society de Londres para calcular a distância entre a Terra e o Sol.

Cook não queria passageiro. Quem insistiu foi Joseph Banks, o naturalista rico de 26 anos que pagava do próprio bolso a equipe de cientistas e desenhistas da viagem.

Banks anotou o motivo no diário, sem rodeio. Escreveu que não via por que não pudesse manter Tupaia “como uma curiosidade, como alguns vizinhos meus mantêm leões e tigres”.

Em poucas semanas, a curiosidade virou piloto. Tupaia levou o navio pelas ilhas a oeste do Taiti, Huahine, Raiatea e Taha'a, apontando as passagens nos recifes e os portos com água funda o bastante para a âncora.

Não usava bússola nem instrumento. Lia o rumo pelo nascer e pelo pôr das estrelas, pela direção das ondas longas do oceano e pelo voo das aves que voltam para terra no fim da tarde.

Em agosto, a bordo, ele ditou aos ingleses uma carta náutica (o mapa usado para navegar). Ao centro, o Taiti. Em volta, dezenas de ilhas, várias a semanas de viagem, que nenhum europeu daquele navio tinha visto.

A cópia que sobreviveu, guardada hoje na British Library, em Londres, traz 74 ilhas. Algumas ficam a mais de 2 mil quilômetros do Taiti, no rumo das Marquesas, de Samoa e de Tonga.

Para entender como um homem sem papel e sem escrita guardava aquele oceano na cabeça, é preciso voltar a Raiatea, a ilha sagrada onde ele aprendeu o ofício, e à guerra que o tirou de lá.

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I  A Vida de Hoje

O sacerdote da ilha sagrada

A resposta de ontem

Quem levou os versos de Patativa ao primeiro livro?

Foi o filólogo e latinista José Arraes de Alencar. Ele ouviu Patativa recitar na Rádio Araripe, do Crato, juntou os poemas que o lavrador sabia de cor e cuidou da edição de Inspiração Nordestina, impressa no Rio pela editora Borsoi em 1956. Sem esse primeiro livro, os versos teriam ficado só na memória da serra.

Ninguém registrou a data em que Tupaia nasceu. A biógrafa neozelandesa Joan Druett, no livro Tupaia, de 2011, calcula que ele nasceu perto de 1725 em Raiatea, nas Ilhas da Sociedade.

Raiatea era o centro religioso da região. Em Taputapuatea, o grande marae (templo de pedra a céu aberto) da ilha, os sacerdotes cultuavam 'Oro, o deus da guerra e da fertilidade, e recebiam canoas de arquipélagos distantes.

Tupaia vinha de família de chefes e foi educado para ser tahu'a (sacerdote especialista, guardião de um saber). O saber dele era o mar: as rotas, os nomes das ilhas, as genealogias dos chefes e os cantos que ensinavam o caminho.

Também pertencia aos arioi, uma confraria de sacerdotes, atores e dançarinos que viajava entre as ilhas em honra de 'Oro. A confraria abria as portas de todas as ilhas onde o deus tinha templo.

O ofício passava de mestre para aprendiz, de memória. O navegador decorava os pontos do horizonte onde cada estrela nasce e se põe, e sabia qual delas seguir para cada ilha conhecida.

Lia também as ondulações. Uma onda que bate numa ilha volta alterada, e o piloto sentia a mudança no balanço da canoa muito antes de enxergar terra.

Nessa escola, uma ilha a cinco dias de canoa era um endereço conhecido, guardado num canto e na memória do sacerdote.

A vida dele mudou com a guerra. Guerreiros de Bora Bora, a ilha vizinha, invadiram Raiatea na década de 1760, e Tupaia, ferido em combate, fugiu de canoa para o Taiti.

No Taiti, virou conselheiro de Purea, a chefe do distrito de Papara. Ajudou a erguer o marae de Mahaiatea, o maior templo de pedra da ilha, com degraus que os ingleses comparariam a uma pirâmide.

Em 1767, viu chegar o primeiro navio europeu ao Taiti, o HMS Dolphin, do capitão Samuel Wallis. Depois dos tiros de canhão contra as canoas taitianas, Purea e Tupaia negociaram a paz com os ingleses e receberam presentes.

Pouco depois, uma guerra entre chefes taitianos derrubou Purea. Quando Cook ancorou em abril de 1769, Tupaia tinha perdido o lugar na corte e procurava um jeito de voltar a Raiatea, ainda ocupada por Bora Bora.

Um navio com canhões servia ao plano. Ele se ofereceu a Banks como guia, intérprete e conhecedor das ilhas, e pediu para levar Taiata.

 
 

II  O Momento que Virou

, A carta ditada no convés

O Endeavour deixou o Taiti em 13 de julho de 1769. Nas semanas seguintes, Tupaia guiou o navio pelas ilhas de Sotavento (o grupo a oeste, mais protegido do vento) e mostrou a passagem no recife de Raiatea.

Cook desceu em Raiatea e tomou posse do arquipélago em nome do rei Jorge III. Tupaia voltou a pisar na ilha onde estudou, ainda sob o domínio dos chefes de Bora Bora.

Depois, apontou para o sul. Levou o navio a Rurutu, nas Ilhas Austrais, que não constava de nenhum mapa europeu. Dali Cook seguiu a ordem secreta do Almirantado: procurar o continente que os geógrafos imaginavam no fundo do Pacífico.

Durante esses dias, os ingleses perguntavam e Tupaia respondia com nomes. Cook registrou no diário uma lista de mais de 130 ilhas que o sacerdote dizia conhecer, umas por viagem própria, outras pelos cantos de navegação.

Com os oficiais do navio, Tupaia montou a carta. Cada ilha foi posta numa direção em torno do Taiti, com a distância contada em dias de canoa, e os nomes saíram escritos em taitiano com letras inglesas.

A carta punha no papel, em nomes taitianos, um oceano que a Europa conhecia só em pedaços.

Por dois séculos, os estudiosos acharam a carta confusa. Ilhas pareciam fora do lugar, e as direções não batiam com as das cartas inglesas.

Em 2019, os pesquisadores alemães Lars Eckstein e Anja Schwarz propuseram uma leitura nova no Journal of Pacific History. Para eles, o ponto fixo da carta é o sol do meio-dia, marcado com a palavra avatea (meio-dia, em taitiano), e cada rumo parte da ilha de onde se sai.

Lida assim, a carta acerta a maior parte das direções. Tupaia tinha traduzido o jeito polinésio de navegar, de ilha em ilha, para o papel quadriculado dos ingleses.

O original desenhado a bordo se perdeu. A versão de Londres é uma cópia feita por um oficial do Endeavour, e os erros de algumas ilhas podem ter nascido nessa passagem de uma folha para outra.

Em outubro de 1769, o Endeavour chegou à Nova Zelândia. Na baía de Tūranganui, depois de um primeiro encontro com tiros e mortos, Tupaia falou com os guerreiros maori na praia e foi entendido.

A língua deles e a de Raiatea vinham da mesma raiz, a dos navegadores que tinham povoado a Nova Zelândia séculos antes. Os maori reconheciam nele um tohunga (sacerdote sábio, na língua maori).

Dali em diante, os chefes maori conversavam com Tupaia e mal olhavam para Cook. Muitos acharam que o chefe da expedição era ele, o homem que sabia as genealogias e os deuses.

 

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III  O Que Ficou

I, O nome que os maori guardaram

O Endeavour passou seis meses contornando as duas ilhas da Nova Zelândia. Em Uawa, a baía que os ingleses chamaram de Tolaga, Tupaia passou dias conversando com sacerdotes locais.

A tradição de Uawa liga o nome dele a uma caverna da baía, onde ele teria desenhado na rocha. Gerações de crianças maori da região receberam o nome Tupaia.

Em abril de 1770, o navio chegou à costa leste da Austrália. Lá, Tupaia não entendeu a língua dos aborígines: o mundo que ele conhecia terminava onde terminava a Polinésia.

Em junho, o Endeavour bateu num recife da Grande Barreira e quase afundou. Depois do conserto, seguiu para Batávia, hoje Jacarta, o porto holandês na ilha de Java, onde chegou em outubro de 1770.

Tupaia já sofria de escorbuto (a doença da falta de vitamina C, que sangra a gengiva). Em Batávia, pegou também a febre do porto, que matou dezenas de homens da tripulação.

Taiata adoeceu primeiro e não resistiu. Tupaia sobreviveu ao menino por poucos dias e morreu no fim de 1770, enterrado numa ilha da baía de Batávia, longe de qualquer marae.

Os maori não esqueceram o sacerdote. Em 1773, na segunda viagem de Cook, chefes da Nova Zelândia perguntaram por Tupaia e choraram ao saber da morte dele.

O saber que ele levava também sobreviveu. Em 1976, a canoa dupla Hōkūle'a foi do Havaí ao Taiti sem bússola, guiada pelo navegador Mau Piailug, pelas estrelas, pelas ondas e pelas aves.

A viagem derrubou a tese de que os polinésios tinham povoado o Pacífico por acaso, levados pelo vento. A carta de Tupaia virou documento de prova nesse debate.

Em Raiatea, o marae de Taputapuatea, onde o menino Tupaia aprendeu as estrelas, entrou em 2017 na lista de Patrimônio Mundial da Unesco, com o mar em volta que os navegadores cruzavam.

Cook, que não queria o passageiro, deixou no diário o retrato do homem que guiou o navio dele. Chamou Tupaia de “um homem astuto, sensato e engenhoso, mas orgulhoso e obstinado”.

Entre os papéis de Banks ficaram também aquarelas sem assinatura: músicos taitianos, um chefe enlutado, um maori trocando uma lagosta por um pano com um inglês. Por dois séculos, o autor foi chamado só de Artista do Chefe Enlutado.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem descobriu, em 1997, que as aquarelas do Artista do Chefe Enlutado eram obra de Tupaia?

 
 
Quiz da edição

Quantas ilhas aparecem na carta náutica de Tupaia, na cópia sobrevivente guardada hoje na British Library?

A44 ilhas
B94 ilhas
C74 ilhas
D130 ilhas

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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