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Tsuda Umeko e os 11 anos longe do japonês

Enviada aos Estados Unidos com seis anos em 1871, ela voltou sem ler a própria língua e fundou em Tóquio um instituto de inglês para mulheres.

Menina japonesa de quimono no convés de um navio a vapor em 1871.

Yokohama, 1871: a partida do vapor America

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Aos 17 anos, a professora sem diploma Tsuda Umeko desceu do navio no porto de Yokohama, em novembro de 1882, e mal conseguia conversar com a família que a esperava.

Tinha saído dali com seis anos. Voltava depois de onze anos nos Estados Unidos, falando inglês com sotaque de Washington, tocando piano e lendo Shakespeare, e esquecida do japonês quase inteiro.

A família tinha preparado a recepção. Os irmãos menores olhavam a moça de vestido ocidental e chapéu como quem olha uma estrangeira, e ela, nas cartas daquele mês, descrevia a casa do pai como um lugar onde precisava de intérprete.

Sentar no chão doía nos joelhos. A comida tinha gosto estranho. As cortesias de reverência (as inclinações do corpo que marcam respeito no Japão) saíam erradas, e ela pedia desculpas em inglês.

O governo que a tinha mandado ao estrangeiro, em 1871, prometera que as meninas voltariam para educar as mulheres do país. Na volta, ninguém no governo sabia o que fazer com ela.

Não havia cargo, não havia escola pública para moças que pagasse uma professora com aquela formação, e nenhum ministério respondeu às cartas em que ela oferecia o próprio trabalho.

A colega de viagem Yamakawa Sutematsu, que voltou no mesmo navio, resolveu o impasse casando com um general. Tsuda recusou os pretendentes que a família apresentou e escreveu que preferia trabalhar.

Por meses, ela estudou japonês com um professor particular, de manhã, como uma aluna estrangeira. À tarde, escrevia longas cartas em inglês para a mulher que a tinha criado em Washington.

Aquelas cartas, guardadas por mais de um século, contam o que aconteceu nos dezoito anos seguintes: a menina sem lugar no Japão acabou abrindo, em Tóquio, uma escola que existe até hoje.

A história começa num porto, numa manhã fria de 1871, quando um pai entregou a filha caçula a um navio a vapor.

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I  A Vida de Hoje

A caçula do navio America

A resposta de ontem

Em qual igreja do Tejuco Chica da Silva foi sepultada?

Na igreja de São Francisco de Assis, a da Ordem Terceira franciscana do Tejuco, uma irmandade das elites brancas. Segundo a historiadora Júnia Ferreira Furtado, no livro de 2003, ser enterrada ali era um privilégio de gente branca, e uma ex-escravizada só chegava àquele chão como irmã reconhecida.

Tsuda Ume nasceu em Edo, a cidade que depois se chamou Tóquio, no último dia de 1864. O pai, Tsuda Sen, era intérprete do governo do xogum (o chefe militar que mandava no Japão antes de 1868) e tinha visitado os Estados Unidos em 1867.

Sen voltou dessa viagem convencido de que o país precisava aprender com o Ocidente. Plantava hortaliças americanas no quintal, fundou depois uma escola agrícola e acreditava que meninas também deviam estudar.

Em 1871, o governo da era Meiji (o período de modernização aberto em 1868) anunciou uma missão diplomática à América e à Europa, chefiada por Iwakura Tomomi. Mais de cem pessoas embarcariam, entre embaixadores e estudantes.

Kuroda Kiyotaka, responsável pela colonização da ilha de Hokkaido, tinha voltado da América impressionado com as mulheres educadas que viu lá. Propôs mandar meninas japonesas para estudar dez anos, com despesas pagas pelo governo.

Quase nenhuma família quis. Apareceram cinco candidatas, todas de famílias de samurais que tinham perdido prestígio com a queda do xogum. Tsuda Sen inscreveu a filha mais nova.

Ume tinha seis anos quando subiu, na antevéspera do Natal de 1871, no vapor America, rumo a São Francisco. Era a mais nova da missão inteira.

A imperatriz Haruko recebeu as cinco meninas antes da partida e lhes disse que, ao voltar, deviam servir de exemplo para as mulheres do Japão. Ume não entendeu quase nada da audiência.

A travessia do Pacífico levou mais de três semanas. Em Washington, o diplomata Mori Arinori, que chefiava a representação japonesa, distribuiu as meninas por famílias americanas.

Ume foi morar em Georgetown com Charles Lanman, secretário da legação, escritor e pintor, e com a mulher dele, Adeline. O casal não tinha filhos e tratou a menina como filha.

A casa dos Lanman tinha biblioteca grande, quadros nas paredes e visitas de escritores. A menina passava as tardes lendo romances ingleses e, nas férias, viajava com o casal pelas praias e montanhas da costa leste.

As duas meninas mais velhas adoeceram e voltaram ao Japão no primeiro ano. Ficaram três: Ume, Yamakawa Sutematsu e Nagai Shige.

Em poucos meses, Ume falava inglês melhor que japonês. Em 1873, aos oito anos, pediu para ser batizada e entrou para a igreja cristã, decisão que tomou sozinha e que o pai aceitou por carta.

Estudou na escola primária de Georgetown e depois no Archer Institute, um colégio para moças de Washington, onde aprendeu latim, francês, matemática, física e piano.

Os dez anos previstos viraram onze. Quando o governo chamou as estudantes de volta, em 1882, Ume tinha 17 anos e lia o japonês com a dificuldade de uma criança de primeira série.

 
 

II  O Momento que Virou

Os anos no colégio das nobres

O primeiro trabalho apareceu por acaso. Em 1883, num jantar, ela conheceu Ito Hirobumi, o político que viria a ser o primeiro primeiro-ministro do Japão, e ele a contratou para ensinar inglês às filhas e à mulher.

Ito gostou do resultado. Em 1885, indicou Tsuda para professora de inglês na Kazoku Jogakko, a Escola para Filhas da Nobreza, fundada naquele ano em Tóquio.

O salário era bom e o prestígio, alto. O ensino, porém, decepcionou a professora. As alunas aprendiam inglês como enfeite, para conversar em recepções, e saíam da escola direto para o casamento arranjado.

Tsuda escreveu a Adeline Lanman que as moças eram educadas para agradar, não para pensar. Queria formar professoras, mulheres capazes de viver do próprio trabalho.

Em 1889, pediu licença e voltou aos Estados Unidos. Foi estudar biologia no Bryn Mawr College, na Pensilvânia, uma faculdade só para mulheres aberta em 1885.

Ali, trabalhou com o biólogo Thomas Hunt Morgan, que ganharia o Nobel de Medicina em 1933, e assinou com ele um artigo sobre a orientação do ovo de rã, publicado em 1894 no Quarterly Journal of Microscopical Science.

Foi a primeira japonesa a assinar um artigo científico numa revista ocidental. Morgan ofereceu a ela uma vaga para seguir pesquisando, e ela recusou.

O motivo estava em Tóquio. Nas cartas a Adeline Lanman, ela repetia que tinha voltado à América para preparar a escola, e a escola ficava no Japão.

Antes de voltar, percorreu igrejas e salões de Filadélfia pedindo dinheiro. Com a ajuda de mulheres americanas, montou uma bolsa para que outras japonesas estudassem nos Estados Unidos.

Voltou ao colégio das nobres em 1892 e ficou mais oito anos. Nesse tempo, juntou economias, mandou bolsistas para a América e conversou com as amigas de viagem, Sutematsu e Shige, sobre uma escola própria.

A americana Alice Mabel Bacon, que tinha hospedado Sutematsu em Connecticut na infância, aceitou vir ao Japão para ensinar de graça.

Em julho de 1900, Tsuda pediu demissão da Escola para Filhas da Nobreza. Tinha 35 anos e nenhum patrocínio do governo.

Abria mão do salário mais alto que uma mulher podia receber como professora no Japão daquela época. Os conhecidos acharam a decisão imprudente, e alguns diplomatas americanos tentaram convencê-la a ficar no cargo seguro.

 

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III  O Que Ficou

A casa alugada em Kojimachi

A escola abriu em 14 de setembro de 1900, numa casa alugada no bairro de Kojimachi, em Tóquio. O nome era Joshi Eigaku Juku (Instituto de Estudos Ingleses para Mulheres).

Eram dez alunas na primeira turma. Bacon dava aulas sem salário, Sutematsu presidia o conselho e Shige ajudava a manter as contas.

As turmas seriam pequenas de propósito. A fundadora queria conhecer cada aluna pelo nome e pelo jeito de pensar, e o curso formaria professoras de inglês, não moças de salão.

A escola preparava alunas para o exame oficial de professora de inglês. Em 1905, o governo passou a dar o certificado às formadas sem exame, a primeira escola particular para mulheres com esse direito.

O dinheiro vinha das bolsas americanas e das mensalidades. Tsuda morava na própria escola e dormia num quarto no andar de cima das salas.

Ela dava aula de leitura e de conversação, corrigia as redações à noite e escolhia os livros, quase todos ingleses e americanos, que as alunas liam em voz alta na sala.

Em 1903, a escola mudou para um prédio maior, e as turmas cresceram. Formadas de Tsuda passaram a dar aula de inglês em escolas de moças de todo o Japão.

A saúde cedeu antes da obra. Em 1919, doente, ela deixou a direção. Viveu os últimos anos em Kamakura, à beira-mar, e faleceu ali em 16 de agosto de 1929, aos 64 anos.

O terremoto de Kanto, em 1923, destruiu o prédio da escola. As alunas estudaram em barracas até a reconstrução, em Kodaira, nos arredores de Tóquio.

Em 1948, a escola recebeu o título de universidade e passou a se chamar Tsuda College, hoje Tsuda University. O túmulo da fundadora fica no campus.

Em julho de 2024, o Banco do Japão pôs o rosto de Tsuda Umeko na nova cédula de 5.000 ienes, a primeira com uma educadora.

As cartas para Adeline Lanman, encontradas no sótão da escola em 1984, foram publicadas em 1991 nos Estados Unidos como The Attic Letters (As Cartas do Sótão).

“Qual porta você abriu para quem chegou depois, quando a porta que prometeram para você não abriu?”

No discurso de abertura, diante das dez alunas, Tsuda Umeko resumiu o plano: “A verdadeira educação precisa olhar para as diferenças de cada aluna.”

 
 
Quiz da edição

Na edição, com qual cientista Tsuda Umeko assinou um artigo sobre a orientação do ovo de rã, publicado em 1894, enquanto estudava biologia no Bryn Mawr College?

ACharles Lanman
BMori Arinori
CThomas Hunt Morgan
DIto Hirobumi

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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