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Rachel de Queiroz e os 80 anos sem mulher na Academia

Aos 19 anos, ela publicou O Quinze no Ceará. Aos 66, venceu a votação que abriu a Academia Brasileira de Letras às mulheres.

Escritora de cabelos grisalhos, de fardão verde bordado, num salão antigo da Academia no Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, 1977: Rachel toma posse na ABL

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Aos 19 anos, a professora normalista Rachel de Queiroz (formada na Escola Normal, o curso que preparava professoras primárias) publicou em Fortaleza um romance sobre a seca. Era 1930, e o livro se chamava O Quinze.

O título vinha do ano de 1915, quando a estiagem secou os açudes do sertão cearense e empurrou milhares de famílias para a capital. Rachel tinha 4 anos naquele verão e guardou a lembrança dos retirantes, as famílias que deixavam a roça a pé atrás de comida.

A primeira edição saiu com mil exemplares, paga pelo pai dela, Daniel de Queiroz. Não havia editora interessada em romance de moça do interior.

Os exemplares desceram de navio até o Rio de Janeiro e chegaram às redações dos jornais. Os críticos leram, gostaram e desconfiaram da assinatura.

Em 1931, o livro ganhou o prêmio da Fundação Graça Aranha, um dos mais disputados do país. A autora ainda não tinha completado 21 anos.

A carreira que começou ali durou mais de sete décadas, com romances, peças de teatro e milhares de crônicas em jornal e revista.

Durante quase todo esse tempo, uma porta ficou fechada para ela. A Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 no Rio de Janeiro, tinha 40 cadeiras vitalícias, e nenhuma delas tinha sido ocupada por uma mulher.

Os acadêmicos são chamados de imortais, porque a cadeira só fica vaga quando o ocupante falece. Em oito décadas, a casa elegeu juristas, diplomatas, médicos, generais e poetas. Escritora, nenhuma.

Em 4 de agosto de 1977, os imortais votaram, e a cearense de 66 anos venceu. Foi a primeira mulher eleita para a Academia, oitenta anos depois da fundação.

Para entender como a autora de um livro pago pelo pai chegou à cadeira 5, é preciso voltar à fazenda da família em Quixadá, onde ela escreveu o romance à noite.

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I  A Vida de Hoje

A moça que escreveu a seca

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza em 17 de novembro de 1910. A mãe, Clotilde Franklin de Queiroz, era parente distante de José de Alencar, o autor de Iracema, e mantinha em casa uma biblioteca que a filha leu cedo.

O pai, Daniel, era juiz e fazendeiro. A família dividia o ano entre a capital e as terras de Quixadá, no sertão central do Ceará, onde ficava a fazenda do Junco.

Perto dali ficava o açude do Cedro, a represa que o governo imperial começou a erguer depois da grande seca de 1877. A menina cresceu ouvindo os adultos medirem o ano pela altura da água.

Em 1917, fugindo dos efeitos da seca, os Queiroz se mudaram para o Rio de Janeiro e, pouco tempo depois, para Belém do Pará. Voltaram ao Ceará em 1919.

Rachel estudou no Colégio Imaculada Conceição, em Fortaleza, e se formou professora em 1925, aos 15 anos. Foi a única formação escolar que teve.

Dois anos mais tarde, começou a escrever para o jornal O Ceará. Assinava como Rita de Queluz, um pseudônimo (nome inventado para esconder a autoria), e publicava crônicas e poemas.

O romance veio na fazenda. Em 1929, convalescendo de uma suspeita de tuberculose, ela escrevia à noite, à luz de lampião, em cadernos escolares.

O Quinze conta duas histórias: a da professora Conceição, que recusa o casamento para seguir sozinha, e a da família do vaqueiro Chico Bento, que atravessa o sertão a pé fugindo da fome.

O livro mostra o campo de concentração do Alagadiço, em Fortaleza, o cercado onde o governo juntou os retirantes de 1915 para impedir que entrassem na cidade.

Quando os exemplares chegaram ao Rio, o romancista alagoano Graciliano Ramos duvidou que a autora existisse. Anos depois, no livro Linhas Tortas, ele lembrou o que pensou naquela leitura: “Deve ser pseudônimo de sujeito barbado.”

No mesmo texto, Graciliano admite o engano e trata O Quinze como obra de escritora feita, com diálogo seco e frase curta, sem enfeite de salão.

Não era. A moça de Fortaleza viajou ao Rio, recebeu o prêmio da Fundação Graça Aranha e conheceu os escritores que liam o livro dela.

A estreia abriu outra fase. Em 1931, Rachel entrou no Partido Comunista Brasileiro, e em 1932 rompeu com ele, quando o partido quis censurar o segundo romance, João Miguel.

Em 1932 casou com o poeta José Auto da Cruz Oliveira. A filha do casal, Clotilde, viveu só 18 meses e faleceu em 1935.

Aos 25 anos, a autora de O Quinze já tinha um prêmio nacional, dois romances publicados e um luto que levou para os livros seguintes.

 
 

II  O Momento que Virou

A votação de agosto

A Academia Brasileira de Letras nasceu em 1897, presidida por Machado de Assis. O estatuto falava em brasileiros, e os fundadores leram a palavra como sinônimo de homens.

A romancista Júlia Lopes de Almeida participou das conversas que criaram a casa. Ficou de fora da lista final, e a cadeira 3 foi para o marido dela, o poeta português naturalizado Filinto de Almeida.

Em 1930, a escritora Amélia Beviláqua tentou se inscrever para uma vaga. A diretoria recusou a inscrição com base no mesmo estatuto.

Enquanto a porta seguia fechada, Rachel publicou Caminho de Pedras em 1937 e As Três Marias em 1939. No ano de 1937, sob o Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, ela foi presa em Fortaleza, e exemplares dos livros dela foram queimados em praça pública em Salvador, junto com os de Jorge Amado.

A partir de 1945, ela assinou a Última Página da revista O Cruzeiro, a crônica semanal que ocupava a contracapa da revista mais lida do país. Manteve a coluna por três décadas.

Para pagar as contas, ela também traduziu. Passaram pelas mãos dela romances de Jane Austen, Emily Brontë e Fiódor Dostoiévski, vertidos para o português em edições que circularam por anos nas livrarias do país.

Em 1975, lançou Dôra, Doralina, romance sobre uma moça do sertão que deixa a fazenda da mãe e entra numa companhia de teatro mambembe (grupo que viaja de cidade em cidade).

Naquele mesmo período, a Academia discutia a própria regra. Em 1976, os imortais aprovaram a mudança no regimento (o regulamento interno da casa) que permitia a candidatura de mulheres.

A primeira vaga aberta depois da mudança foi a cadeira 5, deixada pelo jurista e escritor Cândido Motta Filho.

Rachel se inscreveu. O adversário era o jurista Pontes de Miranda, autor de dezenas de volumes de direito e nome respeitado nos tribunais.

A eleição na Academia é secreta. Cada imortal escreve o voto num papel, os acadêmicos que moram longe do Rio podem votar por carta, e vence quem reúne a maioria absoluta dos eleitores.

A campanha seguiu o rito da casa: cartas aos acadêmicos e visitas de cortesia a cada um deles. A candidata cearense morava no Rio havia décadas e conhecia boa parte dos eleitores pelas redações.

Em 4 de agosto de 1977, a votação terminou com a vitória dela. A notícia saiu na primeira página dos jornais do Rio no dia seguinte.

A posse aconteceu em 4 de novembro de 1977, no salão nobre do Petit Trianon, a sede da Academia. Quem a recebeu com o discurso de boas-vindas foi o romancista baiano Adonias Filho.

Ela vestiu o fardão, o uniforme verde bordado a ouro que os imortais usam nas cerimônias, numa versão com saia longa desenhada para a ocasião.

 

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III  O Que Ficou

As cadeiras que vieram

A porta aberta em 1977 não ficou só com ela. Em 1980, a paulista Dinah Silveira de Queiroz, autora de A Muralha, foi eleita para a cadeira 7.

Em 1985 chegou Lygia Fagundes Telles, autora de As Meninas, eleita para a cadeira 16. Em 1989, Nélida Piñon entrou na cadeira 30.

Em 1996, Nélida Piñon foi eleita presidente da Academia, a primeira mulher no cargo. Comandou a casa no centenário, celebrado em 1997.

Rachel seguiu escrevendo depois da posse. Em 1992, aos 81 anos, publicou Memorial de Maria Moura, romance sobre uma sinhazinha do sertão que vira chefe de bando armado para defender as próprias terras.

O livro virou minissérie da TV Globo em 1994, com Glória Pires no papel principal, e levou a obra dela a um público que nunca tinha lido O Quinze.

Depois da posse, a crônica semanal continuou. Ela escreveu para jornais como O Estado de S. Paulo até os últimos anos de vida, sempre com o sertão e a cidade grande como assunto.

Em 1993, Rachel de Queiroz recebeu o Prêmio Camões, a maior distinção da literatura em língua portuguesa. Foi a primeira mulher premiada.

A fazenda Não Me Deixes, em Quixadá, que ela construiu nos anos 1950 e onde passava temporadas, segue de pé no sertão cearense.

Ela faleceu no Rio de Janeiro em 4 de novembro de 2003, aos 92 anos. Era o mesmo dia e mês da posse na Academia, 26 anos depois.

O Quinze completou noventa anos de lançamento em 2020 e continua nas listas de leitura obrigatória de escolas e vestibulares do Nordeste. Conceição e Chico Bento ainda atravessam a seca de 1915 a cada turma nova.

Na Academia, a cadeira 5 passou a outros ocupantes, e a casa tem hoje escritoras eleitas em várias das 40 cadeiras.

“Que livro lido na escola mudou o jeito como você enxerga a sua região?”

Rachel de Queiroz respondeu assim a quem perguntava sobre a eleição de 1977: “Eu não entrei para a Academia por ser mulher. Entrei porque, independentemente disso, tenho uma obra.”

 
 
Quiz da edição

Quem pagou a primeira edição de O Quinze, de mil exemplares, em 1930?

AUma editora do Rio de Janeiro
BO pai de Rachel, Daniel de Queiroz
CA Fundação Graça Aranha
DO jornal O Ceará

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