In partnership with

Biografia do Dia   Biografia do Dia
ED 072
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

Patativa do Assaré e a Triste Partida de 1964

Lavrador do Ceará, cego de um olho desde menino, ele ouviu Luiz Gonzaga levar o verso dele ao país sem sair da roça.

Lavrador de chapéu de palha recitando no alpendre de uma casa de taipa no sertão do Ceará.

Assaré, Ceará: Patativa e a viola

▼
 

Aos 55 anos, o lavrador Antônio Gonçalves da Silva acordava antes do sol na Serra de Santana, zona rural de Assaré, no sul do Ceará, e subia para a roça de milho e feijão com a enxada no ombro. Era 1964, e um verso dele tocava no rádio do Brasil inteiro.

Quem cantava era Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, a voz mais conhecida do Nordeste. A música se chamava Triste Partida. Saiu num disco da gravadora RCA Victor e contava, estrofe por estrofe, a viagem de uma família de lavradores que a seca expulsa do sertão.

Pai, mãe e filhos esperam a chuva de setembro a dezembro. A chuva não vem. Vendem o burro, o jumento e o cavalo, sobem num caminhão e partem para São Paulo, onde o pai trabalha anos para um patrão e nunca junta o dinheiro da volta.

Gente que tinha feito a mesma viagem chorava ouvindo o disco. Nas cidades do Sudeste, migrantes nordestinos reconheciam a própria história contada na língua de casa, com o “tamo” e o “vortá” do sertão.

O autor da letra não apareceu em programa de auditório. Não deu entrevista na capital, não fez turnê, não trocou de endereço. Seguiu plantando no pedaço de terra que herdou do pai, e os vizinhos da serra seguiam chamando o homem pelo apelido que um jornalista do Pará lhe tinha dado décadas antes: Patativa.

Ele tinha só um olho bom. O direito tinha se apagado na infância, e a escola, para ele, durou poucos meses. Os versos nasciam de cabeça, no cabo da enxada, e ficavam guardados na memória até alguém escrever por ele.

Mesmo assim, a toada levava o nome dele no selo do disco, e o dono da voz mais famosa do Nordeste tinha aceitado a condição posta por um matuto (homem simples do interior) que ele mal conhecia.

Para entender como um menino que mal frequentou a escola chegou ao disco do Rei do Baião, é preciso voltar à Serra de Santana de 1909, à casa onde ele perdeu a vista de um olho e o pai antes dos dez anos.

Continue lendo ↓

 

Quem banca a edição de hoje

Yes, that Arnold Schwarzenegger.

He has a newsletter on beehiiv. So do Codie Sanchez, Jay Shetty, David Begnaud, Colin & Samir, and Joanna Stern.

They could publish just about anywhere. They chose beehiiv to build a direct connection with the people who want to hear from them most. And you can do the same, whether you’re world-famous or just at the start of your plan for world domination.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

I  A Vida de Hoje

O menino da Serra de Santana

A resposta de ontem

Quem juntou o dinheiro para o avião de Lotfia El Nadi?

Foi Huda Sha'arawi, fundadora da União Feminista Egípcia em 1923. Ela mandou um telegrama de parabéns à piloto e abriu uma subscrição entre as famílias ricas do Cairo para dar a Lotfia um avião próprio, prova de que o voo tinha virado causa do movimento das mulheres no Egito.

Antônio Gonçalves da Silva nasceu em 5 de março de 1909, na Serra de Santana, um povoado de pequenos sítios no município de Assaré. Era filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva, lavradores que plantavam para comer.

Aos 4 anos, uma doença levou a visão do olho direito. Não havia médico na serra, e o menino cresceu enxergando o mundo por um lado só.

Aos 8, perdeu o pai. Com a mãe e os irmãos, passou a tocar a roça da família: milho, feijão, algodão, o que a chuva deixasse nascer naquele ano.

Escola, teve poucos meses, aos 12 anos. Deu para aprender a ler. O resto veio dos folhetos de cordel (livretos de versos vendidos nas feiras, pendurados num barbante), que alguém lia em voz alta nas noites da serra.

O menino decorava os folhetos inteiros. Logo começou a fazer os próprios versos, no mesmo compasso das histórias que ouvia.

Aos 16 anos, vendeu uma ovelha e comprou uma viola. Passou a cantar repente (verso improvisado na hora, em desafio entre dois cantadores) nas festas e nos terreiros da vizinhança.

Aos 20, viajou ao Pará com um parente, José Alexandre Montoril. Em Belém, cantou para plateias da cidade e chamou a atenção do escritor José Carvalho de Brito, que comparou a poesia dele ao canto da patativa, um pássaro pequeno e cinzento do sertão, famoso pela voz.

O apelido pegou. Como havia outros Patativas cantando pelo Nordeste, ele juntou o nome da cidade, e virou Patativa do Assaré.

Depois de Belém, o cantador voltou para a enxada: a viola ficou para a noite, e o verso, para a cabeça.

Em 1936, casou com Belarmina Paes Cidrão, a dona Belinha. O casal criou os filhos no mesmo sítio, da mesma roça que tinha sustentado a família de Antônio depois da morte do pai.

Patativa compunha de memória. Montava o poema verso por verso enquanto capinava, repetia em voz baixa até fixar e guardava tudo na cabeça. Décadas depois, recitava poemas de dezenas de estrofes sem trocar a ordem.

Escrevia em duas línguas. Numa, usava o português da escola, com rima e métrica corretas. Na outra, usava o falar do sertão, com “cantô” por cantor e “fulô” por flor, a fala de quem ele via na feira.

Foi nessa segunda língua que nasceu a toada que Luiz Gonzaga ia gravar.

 
 

II  O Momento que Virou

A toada fora de venda

A Triste Partida é uma toada (canção lenta do sertão, de letra longa, que conta uma história do começo ao fim). Patativa a compôs nos anos 1950, quando as secas empurravam famílias inteiras de lavradores do Nordeste para o Sudeste.

A letra segue o calendário de quem planta. Abre na espera pela chuva, mês a mês, e Patativa fixou o desespero em quatro versos curtos:

“Setembro passou / Outubro e novembro / Já tamo em dezembro / Meu Deus, que é de nós”, escreveu Patativa do Assaré na Triste Partida, gravada por Luiz Gonzaga em 1964.

Depois vem a venda dos bichos, a mala feita e a viagem. A família sobe num pau de arara (caminhão de carga com tábuas atravessadas na carroceria, onde os retirantes viajavam dias sentados) e cruza o país até São Paulo.

No fim, o pai trabalha para um patrão, compra fiado no armazém do próprio patrão e fica sempre devendo. A volta ao sertão, prometida em toda estrofe, nunca acontece.

Os cantadores levavam a toada de feira em feira. Foi assim que ela chegou a Luiz Gonzaga, nascido em Exu, em Pernambuco, na mesma região da Chapada do Araripe, na divisa com o Ceará.

Gonzaga quis a música e propôs comprá-la. Era prática comum na época: o cantor famoso pagava ao autor desconhecido e passava a assinar a composição como parceiro, ou sozinho.

Patativa recusou. Aceitava que Gonzaga gravasse, mas a autoria não estava à venda, e o nome dele tinha que sair no disco.

O Rei do Baião cedeu ao lavrador: em 1964, gravou a Triste Partida com o crédito só para Patativa do Assaré.

A toada deu título ao LP de Gonzaga daquele ano. A gravação passa dos 7 minutos, longa para o rádio da época, e mesmo assim tocou de norte a sul.

Para muitos ouvintes, era a primeira vez que o nome Patativa do Assaré aparecia escrito em algum lugar. Ele já tinha publicado um livro, Inspiração Nordestina, em 1956, mas a tiragem pequena mal tinha saído do Cariri, a região do sul do Ceará.

O disco mudou a escala. Cantadores de rádio e de feira passaram a pedir versos ao lavrador, estudantes começaram a subir a serra para ouvi-lo recitar, e a imprensa do Recife e de Fortaleza descobriu o endereço do sítio.

 

Quem banca a edição de hoje

Master Claude AI (Free Guide)

The professionals pulling ahead aren't working more. They're using Claude.

Our free guide will show you how to:

  • Configure Claude to be the perfect assistant

  • Master AI-powered content creation

  • Transform complex data into actionable strategies

  • Harness Claude’s full potential

Transform your workflow with AI and stay ahead of the curve with this comprehensive guide to using Claude at work.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Que Ficou

A serra que ele não trocou

O convite para morar na capital veio mais de uma vez. Patativa recusou todos. Dizia que a poesia dele vinha da roça, e que longe dela ficaria sem assunto.

Em 1978, saiu Cante lá que eu canto cá, pela editora Vozes, o livro que reuniu os poemas mais conhecidos dele e circulou em universidades do país inteiro.

Em 1980, o cantor cearense Fagner gravou Vaca Estrela e Boi Fubá, outro poema de Patativa, a história de um vaqueiro que lembra os bichos que deixou para trás quando foi embora do sertão.

Os versos políticos vieram com a idade. Patativa escreveu contra a fome, contra o latifúndio (a grande propriedade de terra nas mãos de um só dono) e a favor da eleição direta para presidente, em poemas que circulavam em folheto e em fita cassete.

Vieram outros livros, Ispinho e Fulô, em 1988, e Aqui Tem Coisa, em 1994. Todos nasceram do mesmo jeito: compostos de cabeça, no ritmo da enxada, e ditados a quem escrevia por ele, um parente, um vizinho, um estudante de passagem.

Cada visitante que subia a serra encontrava o mesmo homem de chapéu de palha e paletó surrado, sentado no alpendre, pronto para recitar meia hora sem pausa e depois perguntar pela chuva da região de onde a pessoa vinha.

Na velhice, perdeu quase toda a visão do olho que restava e boa parte da audição, e seguiu recitando de cor.

Morreu em 8 de julho de 2002, aos 93 anos, em Assaré. A cidade abriu luto oficial, e milhares de pessoas acompanharam o enterro pelas ruas onde ele vendia a produção da roça.

Hoje, o Memorial Patativa do Assaré, no centro da cidade, guarda a viola, os óculos, os livros e as gravações da voz dele recitando.

O poema que dá título ao livro de 1978 responde ao poeta da cidade que quer cantar o sertão sem conhecê-lo. Patativa escreveu ali: “Poeta, cantô de rua, / Que na cidade nasceu, / Cante a cidade que é sua, / Que eu canto o sertão que é meu.”

O primeiro livro, de 1956, saiu oito anos antes do disco de Gonzaga, impresso graças a um leitor que ouviu o lavrador recitar num programa de rádio do Crato.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem ouviu Patativa na rádio do Crato e levou os versos dele ao primeiro livro, em 1956?

 
 
Quiz da edição

Luiz Gonzaga quis comprar a toada Triste Partida, prática comum na época: o cantor famoso pagava ao autor desconhecido e assinava a composição. O que Patativa exigiu para deixar Gonzaga gravar?

AQue a música saísse só com o nome de Gonzaga como autor
BDividir os direitos autorais da gravação meio a meio
CQue seu nome saísse no disco, sem vender a autoria da letra
DQue ele fosse morar na capital para acompanhar o lançamento

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🖋️🖋️🖋️🖋️🖋️  ótima 🖋️🖋️🖋️🖋️  boa 🖋️🖋️🖋️  ok 🖋️🖋️  ruim 🖋️  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual edição você quer ver amanhã?

Voto aberto até 18/10, 15h30

A Nicolas Appert →
B Oscar Niemeyer →
C Taytu Betul →
D Njinga Mbande →
 
Recomendação de Newsletter
A Origem das Palavras

A Origem das Palavras

Todo dia, 12:12. Uma palavra que você usa sem pensar revela séculos de história escondida, em dois minutos de leitura.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →
 
 
 

Três minutos. Um nome novo pro dia.

Biografia do Dia

BIOGRAFIA DO DIA

Uma vida por dia, e o que ficou dela

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter