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Os vistos que Sugihara assinou pela janela do trem
Em 1940, com Tóquio negando o pedido três vezes, o vice-cônsul japonês em Kaunas escreveu vistos de trânsito à mão até o trem partir.
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Vistos escritos à mão, um a um, sobre a mesa
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Em 1940, sair da Europa dependia de uma corrente de papéis, e bastava faltar um elo para o resto não valer nada. O refugiado precisava de um país que aceitasse recebê-lo, de um visto de trânsito para atravessar o caminho e da permissão de quem mandava no território onde ele estava parado.
Kaunas, capital provisória da Lituânia, tinha os três problemas na mesma calçada. Depois da invasão da Polônia em setembro de 1939, milhares de judeus poloneses cruzaram a fronteira e ficaram parados ali, num país pequeno espremido entre dois exércitos.
Em junho de 1940 a União Soviética ocupou a Lituânia. Os consulados estrangeiros receberam ordem de fechar as portas até o fim de agosto, e o prazo transformou cada carimbo disponível num item com data de validade.
O destino final apareceu por um atalho jurídico. O cônsul honorário holandês na cidade passou a escrever nos passaportes que Curaçao, colônia holandesa no Caribe, não exigia visto de entrada. Não era convite, era ausência de exigência, e no papel funcionava como endereço.
Faltava o meio do caminho. Da Lituânia ocupada havia uma única rota aberta, e ela corria para o lado contrário do Caribe: trem transiberiano até Vladivostok, navio até o Japão, e só de lá o resto do mundo.
Moscou vendia a passagem em moeda forte, e só embarcava quem tivesse visto de trânsito japonês no passaporte.
O visto japonês era um bloco de linhas curtas: nome, número de ordem, data, selo do consulado e assinatura. Escrito à mão, um de cada vez, por alguém com autoridade para assinar.
E o consulado japonês em Kaunas tinha exatamente um homem com essa autoridade. Estava na cidade desde novembro de 1939, mandado para uma tarefa que nada tinha a ver com refugiado: observar a movimentação das tropas alemãs e soviéticas.
A vida de hoje é a de um funcionário de 40 anos, formado em russo, com nove mil quilômetros entre a mesa dele e o ministério que dava as ordens.
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I A Vida de Hoje
Do exame em branco ao posto de Kaunas
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Ele passou a vida entre idiomas estrangeiros e mesas de negociação. Veja o que tinha na mão quando a fila chegou ao portão do consulado.
A história mais repetida sobre a juventude dele diz que entrou na sala do exame de medicina, escreveu o próprio nome na prova e devolveu a página em branco. O pai queria um médico na família, e ele queria línguas.
Chiune Sugihara nasceu em 1 de janeiro de 1900 em Yaotsu, na província de Gifu, filho de um funcionário do fisco que mudava de cidade a cada transferência. Foi um de seis irmãos, sempre no topo da turma.
Em 1918 entrou na Universidade Waseda, em Tóquio, para estudar literatura inglesa, com aula paga por trabalho de meio período. No ano seguinte viu no jornal um anúncio do Ministério das Relações Exteriores: bolsa para quem passasse no exame de língua estrangeira.
Passou, e o ministério o mandou para Harbin, na Manchúria, aprender russo. Formou-se com louvor, converteu-se à igreja ortodoxa e casou com uma mulher russa.
O trabalho dele por lá foi de mesa de negociação. Entre 1932 e 1935 participou da compra da ferrovia do norte da Manchúria, vendida pela União Soviética, e falar o idioma do outro lado derrubou o preço pedido por Moscou.
Em 1935 pediu demissão do posto, em protesto contra o tratamento que a administração japonesa dava à população local. Voltou ao Japão, casou com Yukiko Kikuchi em 1936 e seguiu no serviço diplomático.
Serviu em Helsinque, na Finlândia, e em novembro de 1939 abriu o consulado japonês em Kaunas, o primeiro e único da Lituânia. Alugou um sobrado na rua Vaižganto, morou no andar de cima com a família e trabalhou no de baixo.
O posto era pequeno e a função era grande. A Alemanha tinha invadido a Polônia dois meses antes, a União Soviética entrara pelo outro lado, e Tóquio precisava saber o que os dois exércitos faziam naquela faixa do mapa.
Ele mandava relatório. Falava russo, alemão e inglês, tinha um nome difícil para ouvido europeu, e passou a assinar também como Sempo, outra leitura dos mesmos caracteres.
Em junho de 1940 o Exército Vermelho entrou na Lituânia. Em agosto o país virou república soviética, e a ordem para os consulados estrangeiros foi de encerrar as atividades e sair.
A vida que ele tinha em julho de 1940 cabia numa frase: 40 anos, quatro pessoas dependendo dele em casa, um consulado com data de fechamento marcada e um ministério do outro lado do continente.
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II O Momento que Virou
O terceiro não de Tóquio
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O momento que virou não foi a chegada de uma ordem de Tóquio. Foi a terceira recusa, e a decisão de escrever mesmo assim, com gente encostada no portão desde antes de o dia clarear.
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Numa manhã do fim de julho de 1940, a família acordou com barulho na rua. Do lado de fora da cerca havia centenas de pessoas, com criança no colo e mala no chão, esperando o consulado abrir.
Eram refugiados judeus vindos da Polônia. Muitos já tinham no passaporte a anotação do cônsul holandês sobre Curaçao e sabiam qual era a peça que faltava.
Sugihara pediu que a multidão escolhesse cinco representantes e ouviu o pedido dentro de casa. No mesmo dia telegrafou a Tóquio pedindo autorização para emitir vistos de trânsito em volume.
A resposta veio pelo manual. O visto de trânsito só podia sair para quem já tivesse concluído o processo de entrada no país de destino e comprovasse dinheiro para a viagem inteira. Quase ninguém na fila tinha as duas coisas.
Ele reescreveu o pedido e mandou de novo, e recebeu a mesma recusa. Na terceira vez argumentou por escrito que se tratava de gente sem para onde voltar, e o ministério repetiu a instrução.
A conversa seguinte foi com Yukiko, à noite, com a conta toda em cima da mesa. Assinar contra a ordem custava o cargo, a pensão e o nome da família em Tóquio.
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"Posso ter que desobedecer ao meu governo, mas se eu não desobedecer, estarei desobedecendo a Deus."
Chiune Sugihara, citado em In Search of Sugihara, de Hillel Levine, 1996
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Em 31 de julho começou a escrever. Cada visto saía à mão, com nome, número de ordem, data e o selo do consulado, e ele mantinha uma lista com todos os números emitidos.
A rotina virou de dezoito a vinte horas por dia na mesma cadeira. Yukiko contou depois que massageava as mãos dele à noite, e que ele emitia num dia o que um consulado emitia num mês.
Em pouco tempo parou de conferir documento, e havia gente na fila com um papel improvisado no lugar do passaporte de verdade.
Moshe Zupnik, estudante da ieshivá de Mir, entrou para ajudar a carimbar, junto com um funcionário alemão do consulado. A ieshivá inteira saiu com aqueles vistos, cerca de trezentas pessoas, e foi a única da Europa a atravessar a guerra inteira.
No fim de agosto o consulado fechou. Ele se mudou para o Hotel Metropolis e continuou escrevendo lá, com a fila descendo pela escada.
Em 4 de setembro pegou o trem para Berlim. Escreveu na plataforma, escreveu depois de sentar no vagão, e seguiu assinando pela janela enquanto o trem andava, entregando as últimas páginas para mãos levantadas.
Os relatos de quem estava na plataforma dizem que ele deixou o selo do consulado com um dos refugiados, pediu desculpa por não dar conta de mais nomes e fez uma reverência antes de sumir da vista.
A lista dele parou no número 2.139. Não era a conta de gente salva, porque um visto cobria a família inteira, e a estimativa mais usada fala em cerca de seis mil pessoas atravessando a Sibéria com aquele papel na mão.
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