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Os jangadeiros que fecharam o porto de Fortaleza ao tráfico
Em 27 de janeiro de 1881, Francisco José do Nascimento e os jangadeiros se recusaram a levar escravizados aos navios que iam para o Sul.
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Fortaleza, 1881: as jangadas na areia
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Aos 41 anos, o prático Francisco José do Nascimento desceu à praia de Fortaleza na manhã de 27 de janeiro de 1881 e não empurrou a jangada para a água. Os outros jangadeiros fizeram o mesmo.
Prático é o marinheiro que conhece o fundo, as correntes e os bancos de areia de um porto e guia os navios na entrada e na saída. Em Fortaleza, o trabalho tinha um detalhe a mais: o porto não tinha cais fundo. Os navios grandes ancoravam longe da areia, e tudo que subia a bordo ia de jangada, a embarcação de toras de madeira amarradas com vela triangular.
Naquela manhã, o vapor Pará esperava ancorado. Na lista de carga, havia gente: homens e mulheres escravizados, vendidos por senhores cearenses a fazendeiros do Sul do Império.
A venda tinha nome, tráfico interprovincial (o comércio de escravizados entre províncias do próprio Brasil), e tinha motivo. A Grande Seca de 1877 a 1879 arruinou o sertão do Ceará. Donos de terra sem colheita vendiam os cativos para as fazendas de café do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde o preço era alto.
Para chegar ao Pará, cada pessoa vendida precisava atravessar a arrebentação dentro de uma jangada. Sem jangadeiro, ninguém subia.
Os traficantes chegaram à praia com os cativos e encontraram as jangadas na areia. A multidão que se juntou gritou uma frase que a imprensa abolicionista repetiu nos dias seguintes: no porto do Ceará não se embarcam mais escravos.
O navio partiu sem aquela carga. Três anos depois, em 25 de março de 1884, o Ceará declarou livres todos os escravizados da província, quatro anos antes da Lei Áurea.
O homem que ficou parado na areia naquela manhã começou a vida como menino pobre numa praia de pescadores, a mais de cem quilômetros dali, e só aprendeu a ler depois dos 20 anos.
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I A Vida de Hoje
O menino de Canoa Quebrada
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Francisco José do Nascimento nasceu em 15 de abril de 1839 em Canoa Quebrada, vila de pescadores no município de Aracati, no litoral leste do Ceará. Era filho de Manuel do Nascimento, jangadeiro, e de Matilde Maria da Conceição, rendeira.
Ele era de família pobre e mestiça, e nasceu livre. O pai saía para o mar em jangada, como quase todos os homens da vila. O menino perdeu o pai cedo, ainda criança, e a mãe criou os filhos com o que a renda de bilro (renda feita à mão com bastões de madeira sobre uma almofada) rendia na feira.
Aos oito anos, foi mandado trabalhar. Embarcou como moço de bordo (o ajudante mais novo da tripulação, que limpa, carrega e serve) em navios que faziam a costa entre o Ceará e o Maranhão. Passou a adolescência entre porões, velas e portos do Norte.
Nessas viagens, viu de perto o que o navio levava. Em muitos porões, iam pessoas escravizadas, compradas numa província e revendidas em outra.
Chico, como o chamavam no mar, aprendeu a navegar antes de aprender a ler.
Só depois dos 20 anos entrou numa escola de primeiras letras. Aprendeu a ler e a escrever já adulto, o que abriu a porta para cargos que exigiam assinar documentos da Marinha.
De volta a Fortaleza, trabalhou em obras do porto e depois entrou para o serviço de praticagem, a turma que guiava os navios pela barra. Conhecia cada banco de areia da enseada de Mucuripe e cada humor da arrebentação.
Chegou a chefe dos práticos do porto. Era um cargo público, subordinado à Capitania dos Portos, a repartição da Marinha que cuidava do tráfego no litoral. O salário era pequeno, mas o posto dava a ele voz entre os jangadeiros, que dependiam das ordens da praticagem para trabalhar.
Os jangadeiros de Fortaleza formavam um grupo próprio. Muitos eram negros livres ou libertos, moravam nas praias e viviam do transporte de carga entre a areia e os navios. Sem eles, o porto parava.
Em dezembro de 1880, abolicionistas de Fortaleza fundaram a Sociedade Cearense Libertadora. Entre os nomes estavam o comerciante João Cordeiro e o jornalista Antônio Bezerra. A sociedade lançou o jornal O Libertador e passou a comprar alforrias (as cartas que davam liberdade a um escravizado) com dinheiro de doações.
Os abolicionistas sabiam que discurso não segurava navio. Precisavam de quem controlava a praia, e procuraram Nascimento.
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II O Momento que Virou
A praia que ficou parada
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O plano juntou dois homens do porto. Um era Nascimento, chefe dos práticos. O outro era José Luís Napoleão, ex-escravizado que tinha comprado a própria liberdade e depois a das irmãs, e que trabalhava como chefe dos catraieiros (os remadores dos botes que também levavam carga até os navios).
Os dois conversaram com as turmas da praia. A proposta era simples: nenhuma jangada e nenhum bote levaria escravizados aos navios. Quem quisesse embarcar gente vendida teria que achar outro jeito de vencer a arrebentação.
Em 27 de janeiro de 1881, a praia amanheceu cheia. Os jangadeiros ficaram em terra. A multidão cercou os traficantes, e o vapor Pará seguiu viagem sem os cativos.
Os jornais do Sul registraram o episódio como greve. Os abolicionistas cearenses chamaram de fechamento do porto.
A arma dos jangadeiros era o próprio ofício: sem o braço deles, o navio ancorado não recebia ninguém.
Os traficantes tentaram de novo. Em 30 e 31 de agosto de 1881, um grupo levou escravizados à praia para embarcar no vapor Espírito Santo. Mais uma vez, as jangadas não saíram, e a multidão impediu o embarque.
Dessa vez, o governo reagiu. O presidente da província, nomeado pelo Império, cobrou a Capitania dos Portos. Nascimento foi demitido do cargo de prático-mor por ter liderado a paralisação.
Ele perdeu o salário e continuou na praia. Os jangadeiros mantiveram a recusa, e a Sociedade Cearense Libertadora ajudou a família dele com dinheiro de subscrição.
Com o porto fechado, vender escravizados para o Sul ficou caro e arriscado. Senhores passaram a libertar cativos em troca de indenização paga pelas sociedades abolicionistas, e as cidades do interior começaram a declarar-se livres, uma por uma.
A vila de Acarape, depois chamada Redenção, foi a primeira, em 1º de janeiro de 1883. Fortaleza declarou livre a capital em maio de 1883.
Em 25 de março de 1884, o presidente da província, Sátiro Dias, anunciou que não havia mais escravizados no Ceará. José do Patrocínio, jornalista abolicionista do Rio, chamou a província de Terra da Luz.
Semanas antes do anúncio, Nascimento embarcou para o Rio de Janeiro, então capital do Império, a convite dos abolicionistas da Corte. Levou junto a jangada Libertadora, a bordo de um navio.
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