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Os dez dias que uma repórter de vinte e três anos passou fingindo loucura na Ilha de Blackwell
Em 1887, em Nova York, uma repórter convenceu um juiz e quatro médicos de que estava louca para contar por dentro o asilo da cidade.
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Nova York, 1887: dez dias na Ilha de Blackwell
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Em setembro de 1887, aos vinte e três anos, a repórter Nellie Bly passou uma noite diante do espelho de um quarto alugado em Nova York ensaiando o olhar fixo e a fala solta que precisaria sustentar no dia seguinte.
A tarefa vinha do New York World, jornal de Joseph Pulitzer, e tinha sido combinada com o editor John Cockerill em poucas frases: entrar no asilo feminino da Ilha de Blackwell como paciente e contar o que acontecia lá dentro.
Ninguém prometeu resgate com hora marcada. Ela sabia que, uma vez do outro lado do rio East, a saída dependeria de o jornal conseguir um advogado e de a instituição aceitar entregá-la.
A ilha ficava a poucos minutos de barco da rua mais cara de Manhattan. Naquele estreito de água cabiam o asilo, uma penitenciária, uma casa de correção e um hospital de varíola, e a cidade despejava ali quem não conseguia pagar por tratamento particular.
O asilo abrigava perto de mil e seiscentas mulheres num prédio pensado para bem menos gente. Havia imigrantes recém-chegadas que não falavam inglês, empregadas domésticas demitidas, viúvas sem parente vivo e mulheres que tinham chegado ao hospital com febre e saído classificadas como dementes.
A instituição não era segredo. Havia notícia sobre superlotação, havia reclamação de família, e cada inspeção anunciada encontrava corredores limpos e pacientes penteadas. O que faltava era alguém contando de dentro, sem aviso prévio à direção, com nome e sobrenome no fim do texto.
Bly tinha chegado a Nova York havia poucos meses, vinda de Pittsburgh, com pouco dinheiro e nenhuma carta de apresentação. Passou o verão batendo em porta de redação e ouvindo que mulher não cobria pauta de rua.
O que ela levou para a Ilha de Blackwell foi um vestido velho comprado de segunda mão, um nome falso e a decisão de não representar loucura nenhuma depois de atravessar o portão. A partir dali, agiria normalmente e anotaria de cabeça quanto tempo demoraria para alguém perceber.
Antes daquela noite diante do espelho, porém, veio uma infância interrompida numa vila da Pensilvânia e uma carta furiosa mandada a um jornal.
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I A Vida de Hoje
A menina de Cochran's Mills que respondeu ao jornal
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Elizabeth Jane Cochran nasceu em 5 de maio de 1864 em Cochran's Mills, vila da Pensilvânia que levava o sobrenome do próprio pai, Michael Cochran, dono de moinho e juiz local. A casa da infância dela tinha empregados, cavalos e roupa nova.
O pai morreu em 1870, quando ela tinha seis anos, sem deixar testamento que protegesse a segunda esposa e os filhos daquele casamento. A propriedade foi dividida e leiloada, e a família passou a alugar quartos.
A mãe casou de novo com um homem violento e pediu o divórcio anos depois, num tribunal em que a menina, então com catorze anos, testemunhou sobre o que via em casa. Em 1879 ela entrou para uma escola normal em Indiana, na Pensilvânia, e saiu depois de um único período letivo porque o dinheiro acabou.
A família se mudou para Pittsburgh, cidade de fundição e fumaça, onde as vagas abertas a mulheres eram serviço doméstico, costura ou chão de fábrica. Foi lá que ela leu, no Pittsburg Dispatch de janeiro de 1885, uma coluna assinada por Quiet Observer dizendo que moça trabalhando fora de casa era uma aberração e que o lugar da mulher era a cozinha.
Ela respondeu com uma carta indignada assinada Lonely Orphan Girl. O editor George Madden gostou tanto do texto que publicou um anúncio pedindo que a autora aparecesse na redação, e a contratou quando ela apareceu.
O primeiro artigo saiu ainda em 1885. Como era costume da época que jornalista mulher escrevesse sob nome de fantasia, a redação escolheu Nellie Bly, tirado de uma canção popular de Stephen Foster, e o nome de batismo dela sumiu das páginas.
Ela começou escrevendo sobre divórcio e sobre operárias de fábrica, entrando nas oficinas para conversar com quem trabalhava lá. Donos de indústria que anunciavam no jornal reclamaram, e a direção a transferiu para as páginas de teatro, jardinagem e moda.
Bly não ficou. Em 1886, aos vinte e um anos, embarcou com a mãe para o México e passou cerca de seis meses mandando reportagens sobre a vida das famílias pobres, a corrupção nos cargos públicos e a prisão de um jornalista local que tinha criticado o governo de Porfirio Díaz. Avisada de que poderia ser detida, voltou para os Estados Unidos.
De volta a Pittsburgh, foi mandada outra vez para as páginas leves. Ela deixou um bilhete na mesa do editor dizendo que ia para Nova York e pedindo que não a procurassem, e pegou o trem em 1887.
Os quatro meses seguintes foram de porta fechada. O dinheiro acabou, a bolsa foi roubada, e ela continuou insistindo até conseguir subir ao escritório do World, no prédio da Park Row, e falar com John Cockerill.
O jornal tinha uma pauta engavetada sobre a Ilha de Blackwell e nenhum repórter disposto a entrar. Ela ouviu a proposta e aceitou na hora.
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II O Momento que Virou
Dez dias sob o nome Nellie Brown
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Bly alugou uma cama no Temporary Home for Females, na Second Avenue, número 84, apresentando-se como Nellie Brown, moça cubana que tinha perdido os baús e não sabia mais onde estava. Passou a noite acordada, sentada, olhando para as outras hóspedes.
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Pela manhã a casa chamou a polícia. A partir daí, a certificação da loucura dela levou menos de vinte e quatro horas e passou por quatro instâncias, nesta ordem:
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| A pensão a dona da casa declarou que a hóspede assustava as outras mulheres e pediu a retirada |
| O tribunal o juiz Duffy, na Essex Market, ouviu poucos minutos de conversa e mandou examiná-la |
| O Bellevue os médicos do pavilhão psiquiátrico registraram no papel que ela estava definitivamente demente |
| O barco a ambulância e a embarcação levaram a paciente ao asilo da Ilha de Blackwell, sem que ninguém ouvisse uma segunda opinião |
Do portão em diante ela parou de fingir. Falava com calma, respondia direito, pedia para ir embora e explicava que estava lúcida, e cada frase razoável era anotada como sintoma.
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"Quanto mais eu falava e agia com sanidade, mais louca me achavam."
Nellie Bly, Ten Days in a Mad-House, 1887
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O banho era um balde de água fria despejado na cabeça, um atrás do outro, com as pacientes nuas na fila e a mesma água servindo para várias. Depois vinha um vestido fino de algodão, sem roupa por baixo, num prédio sem aquecimento adequado em setembro.
A comida do dia era chá que parecia água suja, pão duro com manteiga rançosa e um pedaço de carne cozida que muitas não conseguiam engolir. As enfermeiras comiam separado, com pão fresco.
O dia inteiro era passado sentada em bancos retos, sem encosto, sem livro, sem conversa permitida, das seis da manhã até a hora de dormir. Quem reclamava apanhava ou era levada para a sala de onde vinham gritos.
Nos passeios pelo pátio, as internas eram amarradas a uma corda comprida, em fila, com uma enfermeira puxando na frente. Havia ratos nos corredores e água parada nas privadas.
Bly descobriu ali dentro mulheres inteiramente lúcidas. Anotou o caso de imigrantes alemãs que não falavam inglês e tinham sido internadas porque ninguém no hospital entendeu o que elas diziam, e o de uma empregada doméstica que ficou sem emprego, sem casa e acabou classificada como doente.
No décimo dia, um advogado enviado pelo World apareceu no asilo dizendo que amigos da moça tinham sido localizados e assumiriam os cuidados dela. A instituição entregou a paciente sem exame de saída.
A primeira parte da reportagem saiu no New York World de 9 de outubro de 1887, sob o título Behind Asylum Bars, com o nome dela assinado embaixo. No mesmo ano, o material virou o livro Ten Days in a Mad-House.
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