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ED 006

Os cadernos que Carolina catou do lixo

Em abril de 1958, no Canindé, um repórter ouviu a ameaça de uma catadora de papel e pediu para ler os cadernos que ela guardava no barraco.

Uma pilha de cadernos gastos e um lápis sobre a mesa de um barraco de tábua, ao fim da noite, à luz de lampião.

Os cadernos catados, sobre a mesa do barraco

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Em 1958, São Paulo produzia lixo mais rápido do que conseguia recolher. A cidade tinha passado dos três milhões de habitantes, o centro se enchia de escritório novo, e o que sobrava de tudo aquilo descia para a margem do rio Tietê.

Papel velho tinha preço. Havia comprador de papel, de ferro, de lata e de trapo em quase todo bairro, e o ferro-velho pagava por quilo, na hora, em dinheiro vivo. Um saco cheio no fim da tarde valia a comida do dia seguinte.

O ofício não pedia carteira assinada, endereço fixo nem leitura. Bastava um saco, uma rua e disposição para andar quilômetros empurrando peso. Era a porta que ficava aberta para quem tinha filho pequeno e nenhum patrão disposto a esperar.

No caminho vinha de tudo. Junto com jornal amassado e caixa desmontada apareciam livro escolar sem capa, bloco de escritório com metade das folhas em branco e caderno jogado fora no meio do ano letivo. Quem catava aprendia a separar com a mão, sem olhar duas vezes, o que rendia peso do que não rendia nada.

Papel limpo não valia mais que o resto na balança do ferro-velho. Vendido por quilo, um caderno inteiro rendia centavos. Guardar um caderno em vez de vendê-lo era abrir mão de comida, e quase ninguém fazia essa conta a favor da escrita.

As favelas da beira do Tietê ainda não apareciam nos mapas oficiais. A do Canindé ficava encostada na Ponte das Bandeiras, entre a linha do trem e a água, feita de barracos de tábua, lata e papelão levantados por quem chegava.

A vida de hoje é a de uma mulher de 43 anos que morava num daqueles barracos, sustentava três filhos com o que cabia no saco e escrevia à noite, em cadernos tirados do lixo. Naquele abril, nenhum vizinho dava dois centavos por aquela pilha de papel.

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I  A Vida de Hoje

Dois anos de escola em Sacramento

Ela catava papel na margem do Tietê e sustentava três filhos com o que cabia num saco. À noite, escrevia em cadernos que tinha tirado do lixo. Veja o que um repórter encontrou naquela pilha de papel.

Carolina Maria de Jesus frequentou a escola por dois anos, e foi todo o ensino formal que teve na vida. Aprendeu a ler em poucos meses, aos sete anos, e nunca mais sentou numa sala de aula.

Ela nasceu em Sacramento, no Triângulo Mineiro, em 14 de março de 1914, filha de lavadeira e neta de escravizados. Em casa a chamavam de Bitita.

A escola foi obra de terceiros. Uma fazendeira da região, Maria Leite Monteiro de Barros, pagou a matrícula dela no Colégio Allan Kardec, o primeiro colégio espírita do Brasil.

Aos nove anos a mãe mudou de cidade, e a matrícula acabou junto. Dali em diante Carolina trabalhou na roça, em casa de família e onde aceitassem uma menina negra sem estudo.

Em 1937 ela desembarcou em São Paulo, aos 23 anos. Serviu em várias casas como empregada doméstica e foi mandada embora de quase todas.

O livro atrapalhava o emprego. Ela contava que patroa que a flagrava lendo entendia aquilo como corpo mole, e a leitura virou motivo de demissão mais de uma vez.

No fim dos anos 1940, grávida do primeiro filho e sem casa que a aceitasse, ela foi para a beira do Tietê. Levantou o próprio barraco com tábua, lata e pedaço de zinco que juntou na rua, num pedaço de chão da favela do Canindé.

Os filhos vieram em seguida. João José em 1948, José Carlos em 1950 e Vera Eunice em 1953, de pais diferentes, nenhum deles presente na criação. Ela sustentou os três sozinha.

O dia começava antes do sol. Ela saía com o saco nas costas, andava o bairro e o centro, juntava papel, ferro, lata e garrafa, e voltava para vender no ferro-velho o que tivesse peso.

O dinheiro do dia decidia o jantar. Em muitas páginas do diário dela a conta aparece inteira: quanto rendeu o papel, quanto custou o pão, o que sobrou para o feijão e o que faltou para a criança.

O que os outros jogavam fora virou o material de trabalho dela. Caderno com metade das folhas usadas, bloco de escritório, folha de contabilidade em branco, tudo servia, e ela arrancava as páginas escritas para aproveitar o resto.

A escrita acontecia de madrugada, depois que as crianças dormiam. Sentada no barraco, com a porta fechada, ela anotava o dia: a fila da torneira, a briga do vizinho, o preço do querosene, o que ouvia na rua e o que pensava dali.

Não era só diário. Nos mesmos cadernos havia poema, letra de samba, provérbio, peça de teatro e romance começado, escritos numa ortografia própria, montada sobre dois anos de escola e afinada sozinha.

Os vizinhos sabiam do hábito e não levavam a sério. Alguns riam da mulher que gastava a noite escrevendo, e outros a evitavam com medo de aparecer nas páginas dela.

A vida que ela tinha em abril de 1958 cabia numa frase: 43 anos, três filhos, um barraco de tábua e uma pilha de cadernos catados do lixo. Faltava alguém pedir para ler.

 
 

II  O Momento que Virou

A frase que esvaziou o parquinho

O momento que virou não foi o dia da publicação. Foi uma frase gritada num parque infantil de favela, diante de homens que quebravam o brinquedo das crianças.

Em abril de 1958, um parque infantil foi aberto na beira da favela do Canindé, com balanço, gangorra e escorregador novos. Era a primeira obra que aquele pedaço de cidade via chegar.

O repórter Audálio Dantas foi até lá pela Folha da Noite, para escrever sobre a favela e sobre o parque recém-inaugurado.

O que ele encontrou não tinha nada de cerimônia. Adultos tinham tomado os brinquedos das crianças, e alguns já arrancavam pedaço do que havia sido montado.

Foi então que uma mulher alta, de vestido remendado, gritou do meio do terreno que ia escrever o nome de todos eles no caderno dela.

O efeito foi imediato. Os homens largaram os brinquedos e saíram do parque, e o repórter ficou com a pergunta que ninguém ali se fazia: que caderno era aquele, e por que a ameaça funcionava.

Ele foi atrás dela e pediu para ver. Carolina o levou até o barraco e mostrou a pilha, cerca de vinte cadernos escritos em letra apertada, todos catados do lixo.

O que estava ali dentro era um diário. Ela vinha anotando o cotidiano da favela desde 15 de julho de 1955, dia do aniversário da filha Vera Eunice, e não tinha parado desde então.

Dantas leu ali mesmo e entendeu o tamanho. Não era relato de visitante nem entrevista de porta: era a favela contada por dentro, dia após dia, por quem dormia nela.

Ele publicou os primeiros trechos na Folha da Noite ainda em 1958. Em 1959 saiu uma reportagem maior na revista O Cruzeiro, com fotografia do barraco e das páginas manuscritas.

A repercussão passou do jornal. Chegaram cartas, editores procuraram o repórter, e a ideia de transformar os cadernos em livro saiu do papel dois anos depois da cena do parque.

O trabalho de edição foi de corte, não de reescrita. Dantas selecionou os trechos, organizou por data e manteve o texto dela, com a sintaxe e o vocabulário do original preservados.

"Eu classifico São Paulo assim: O Palácio, é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos."

Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, 1960

Quarto de Despejo chegou às livrarias em agosto de 1960, pela Livraria Francisco Alves. No lançamento em São Paulo formou-se fila na porta, e a primeira tiragem, de dez mil exemplares, se esgotou em poucos dias.

O talento não nasceu naquele parque infantil, estava escrito havia anos numa pilha de cadernos. O que mudou foi um repórter ter parado para ler o que a cidade tinha jogado fora.

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III  O Que Ficou

Cem mil exemplares e o saco de novo

No mercado: Quarto de Despejo vendeu perto de cem mil exemplares no Brasil no primeiro ano, foi traduzido para treze línguas e publicado em mais de quarenta países.

Na casa: com o dinheiro do livro ela comprou uma casa de alvenaria em Osasco e saiu do Canindé ainda em 1960, levando os três filhos e os cadernos.

Na estante: o diário nunca saiu de catálogo desde 1960, atravessou gerações de leitor e entrou em lista de leitura de escola e de vestibular.

O sucesso não se repetiu. Casa de Alvenaria, publicado em 1961 com o diário do ano seguinte à fama, vendeu pouco, e a crítica que a tinha celebrado perdeu o interesse pela autora fora da favela.

Ela continuou escrevendo e passou a pagar para publicar. Pedaços da Fome saiu em 1963 por uma editora pequena, e Provérbios, do mesmo ano, ela mesma vendia de mão em mão.

O dinheiro acabou antes do que se costuma contar. Em 1969 ela se mudou para um sítio pequeno em Parelheiros, onde plantava e criava porco.

E voltou a catar papel. Nos últimos anos ela saía outra vez com o saco nas costas para completar a renda, no mesmo ofício que a sustentava quando os cadernos ainda não valiam nada para ninguém.

A imprensa que a tinha procurado sumiu no mesmo período, e ela virou assunto de nota curta, quando era assunto.

Ela partiu em 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos, no sítio de Parelheiros. Entre a cena do parque infantil e aquele dia cabem dezenove anos.

O que ela escreveu não parou ali. Diário de Bitita, a memória da infância em Sacramento, saiu primeiro na França em 1982 e só chegou ao Brasil quatro anos depois.

Os cadernos viraram acervo. O que a família guardou é hoje material de pesquisa, e cada reedição traz página que tinha ficado de fora do recorte feito em 1960.

O que a história dela mudou foi quem assina o relato da pobreza. Até ali a favela chegava ao leitor pela mão de quem visitava: repórter, sociólogo, romancista, sempre de fora e sempre por poucos dias.

Depois dela a mesma favela chegou escrita por dentro, com o nome da moradora na capa, a ortografia dela preservada e a conta do dia anotada por quem tinha passado fome.

O parque infantil quebrou naquele abril e ninguém guarda memória dele. O que sobrou foi a pilha de cadernos que ela tirou do lixo, e a frase que fez um repórter pedir para ler.

"O que você já escreveu e nunca mostrou continua sem valor, ou está só esperando alguém pedir para ler?"

 
 
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Quiz da edição

Em abril de 1958, o que Carolina gritou para os homens que quebravam o parque infantil do Canindé?

AQue ia chamar a polícia do bairro
BQue ia escrever o nome de todos eles no caderno dela
CQue ia cobrar de cada um o conserto dos brinquedos
DQue ia levar o caso ao jornal da manhã seguinte

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