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Ela catava papel na margem do Tietê e sustentava três filhos com o que cabia num saco. À noite, escrevia em cadernos que tinha tirado do lixo. Veja o que um repórter encontrou naquela pilha de papel.
Carolina Maria de Jesus frequentou a escola por dois anos, e foi todo o ensino formal que teve na vida. Aprendeu a ler em poucos meses, aos sete anos, e nunca mais sentou numa sala de aula.
Ela nasceu em Sacramento, no Triângulo Mineiro, em 14 de março de 1914, filha de lavadeira e neta de escravizados. Em casa a chamavam de Bitita.
A escola foi obra de terceiros. Uma fazendeira da região, Maria Leite Monteiro de Barros, pagou a matrícula dela no Colégio Allan Kardec, o primeiro colégio espírita do Brasil.
Aos nove anos a mãe mudou de cidade, e a matrícula acabou junto. Dali em diante Carolina trabalhou na roça, em casa de família e onde aceitassem uma menina negra sem estudo.
Em 1937 ela desembarcou em São Paulo, aos 23 anos. Serviu em várias casas como empregada doméstica e foi mandada embora de quase todas.
O livro atrapalhava o emprego. Ela contava que patroa que a flagrava lendo entendia aquilo como corpo mole, e a leitura virou motivo de demissão mais de uma vez.
No fim dos anos 1940, grávida do primeiro filho e sem casa que a aceitasse, ela foi para a beira do Tietê. Levantou o próprio barraco com tábua, lata e pedaço de zinco que juntou na rua, num pedaço de chão da favela do Canindé.
Os filhos vieram em seguida. João José em 1948, José Carlos em 1950 e Vera Eunice em 1953, de pais diferentes, nenhum deles presente na criação. Ela sustentou os três sozinha.
O dia começava antes do sol. Ela saía com o saco nas costas, andava o bairro e o centro, juntava papel, ferro, lata e garrafa, e voltava para vender no ferro-velho o que tivesse peso.
O dinheiro do dia decidia o jantar. Em muitas páginas do diário dela a conta aparece inteira: quanto rendeu o papel, quanto custou o pão, o que sobrou para o feijão e o que faltou para a criança.
O que os outros jogavam fora virou o material de trabalho dela. Caderno com metade das folhas usadas, bloco de escritório, folha de contabilidade em branco, tudo servia, e ela arrancava as páginas escritas para aproveitar o resto.
A escrita acontecia de madrugada, depois que as crianças dormiam. Sentada no barraco, com a porta fechada, ela anotava o dia: a fila da torneira, a briga do vizinho, o preço do querosene, o que ouvia na rua e o que pensava dali.
Não era só diário. Nos mesmos cadernos havia poema, letra de samba, provérbio, peça de teatro e romance começado, escritos numa ortografia própria, montada sobre dois anos de escola e afinada sozinha.
Os vizinhos sabiam do hábito e não levavam a sério. Alguns riam da mulher que gastava a noite escrevendo, e outros a evitavam com medo de aparecer nas páginas dela.
A vida que ela tinha em abril de 1958 cabia numa frase: 43 anos, três filhos, um barraco de tábua e uma pilha de cadernos catados do lixo. Faltava alguém pedir para ler.
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