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O soro que só funciona se a cobra for a certa
Em 1901, no Butantan, o médico Vital Brazil provou que o antídoto da jararaca nada fazia contra o veneno da cascavel.
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Butantan, 1901: a seringa e o frasco na mesa
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Aos 32 anos, o médico Vital Brazil Mineiro da Campanha percorria a cavalo os sítios de Botucatu, no interior de São Paulo, para atender lavrador picado por cobra, e chegava na porteira sem nada no bolso que resolvesse o caso.
O que a medicina brasileira oferecia em 1897 cabia numa lista curta: ferro em brasa na ferida, corte a canivete para sangrar o local, permanganato de potássio injetado em volta da mordida, aguardente e reza. O lavrador melhorava ou piorava por conta própria.
Vital Brazil era funcionário do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo e tinha por ofício combater surto de febre amarela, varíola e peste bubônica no interior. A picada de cobra não constava do seu cargo, e mesmo assim era o que ele encontrava nas fazendas de café toda semana.
Ele começou a anotar cada atendimento em caderno: a cobra que o doente descrevia, a hora da mordida, o inchaço, a hemorragia, a urina escura, o desfecho. Passou a pedir aos lavradores que mandassem o bicho vivo, dentro de caixote com tela, pelo trem que descia para a capital.
Em 1899, a peste bubônica chegou ao porto de Santos e o governo paulista montou às pressas um laboratório de soro numa fazenda no bairro do Butantan, na borda da cidade de São Paulo. Vital Brazil foi nomeado diretor daquela casa com telhado de sapé e sem laboratório montado.
O soro contra a peste saiu em poucos meses. Com o laboratório em funcionamento, os caixotes de cobra que chegavam pelo trem viraram material de trabalho, e o médico de Botucatu passou a dispor de cavalo, seringa e viveiro para testar uma suspeita que trazia do interior.
A suspeita tinha nome e endereço: o soro antiofídico vendido no mundo inteiro naquela altura, fabricado em Paris, prometia proteger contra qualquer serpente do planeta. Vital Brazil desconfiava que a promessa não se sustentava no Brasil, e montou o teste que responderia a questão em 1901.
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I A Vida de Hoje
O médico de Botucatu e as cobras que chegavam de trem
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Vital Brazil Mineiro da Campanha nasceu em 28 de abril de 1865 em Campanha, no sul de Minas Gerais, e recebeu do pai um nome que era programa cívico: Vital de batismo, Brazil de sobrenome adotado, Mineiro da Campanha pela terra natal.
A família perdeu o pai cedo e o dinheiro sumiu junto. Ele trabalhou como caixeiro de armazém, professor particular e auxiliar de farmácia em cidades do interior paulista antes de conseguir entrar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formou em 1892.
Voltou para São Paulo, prestou concurso e virou médico do Serviço Sanitário estadual. O posto o mandava para onde havia epidemia: Botucatu, São Simão, Itu, Bragança, cidades de café com cortiço de colono italiano, água de poço e nenhuma rede de esgoto.
Foi nessas viagens que ele topou com o ofidismo, o envenenamento causado por picada de serpente, como problema de saúde pública do campo brasileiro. Quem derrubava mato, colhia café e carpia canavial de pé no chão encontrava jararaca no meio da roça toda semana.
Vital Brazil montou um sistema de troca com os fazendeiros do interior paulista: eles despachavam serpente viva pelo trem, sem pagar frete, e recebiam de volta ampola de soro e instrução escrita de como aplicar.
O arranjo abasteceu o viveiro do Butantan com milhares de bichos e deu ao instituto um mapa das espécies que picavam gente em cada região. A jararaca do gênero Bothrops respondia pela maioria esmagadora dos acidentes; a cascavel do gênero Crotalus vinha atrás, com envenenamento de outro feitio.
As duas serpentes matam por caminhos separados. O veneno da jararaca destrói tecido, rompe vaso e impede o sangue de coagular, e o membro picado incha e sangra. O veneno da cascavel ataca nervo e músculo, fecha as pálpebras do doente, embaralha a visão e escurece a urina.
Na Europa, o Instituto Pasteur já tinha um soro antiofídico. Albert Calmette, médico francês que dirigia o instituto de Lille, produziu em 1894 um antiveneno a partir da naja da Indochina e o vendia como remédio universal, bom para qualquer serpente do mundo.
O frasco de Calmette chegava ao Brasil por importação cara e demorada. Médico de cidade grande o aplicava em picada de jararaca com resultado irregular, e o fracasso costumava ser explicado pela demora no socorro ou pela dose pequena.
Vital Brazil trabalhava com outra hipótese, formada na beira do leito e no viveiro: o soro de Calmette falhava porque tinha sido fabricado contra um veneno que não circulava na roça brasileira. A hipótese exigia prova de laboratório, e o Butantan de 1900 já tinha cavalo, cobra e bancada.
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II O Momento que Virou
Duas cobras, dois soros, uma tarde de bancada
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O método de produzir soro já era conhecido desde os trabalhos de Emil von Behring com difteria: injeta-se no cavalo uma dose pequena do veneno, sobe-se a dose aos poucos por meses, e o sangue do animal passa a carregar anticorpos capazes de neutralizar aquele veneno específico.
Vital Brazil montou duas linhas de cavalo em paralelo no Butantan. Um grupo recebeu veneno de jararaca em doses crescentes; outro grupo recebeu veneno de cascavel. De cada grupo saiu um soro, um antibotrópico e um anticrotálico, nomes tirados dos gêneros das serpentes.
O teste cruzado veio em 1901 e era de leitura simples. Ele envenenou animais de laboratório com veneno de jararaca e tratou parte deles com soro anticrotálico; envenenou outros com veneno de cascavel e tratou parte com soro antibotrópico. O restante recebeu o soro correspondente ao próprio veneno.
Os animais tratados com o soro do seu gênero sobreviveram. Os animais que receberam o soro do outro gênero seguiram o curso do envenenamento como se nada tivessem recebido, e o soro importado de Calmette falhou nos dois casos.
O antídoto não é um remédio geral contra veneno de cobra: cada gênero de serpente exige um soro fabricado com o veneno daquele gênero, e o frasco errado na mão do médico vale tão pouco quanto água.
Vital Brazil publicou o achado em 1901, na Revista Médica de São Paulo, sob o título "Contribuição ao estudo do veneno ophidico", e desenvolveu o argumento no livro "A Defesa contra o Ophidismo", de 1911, editado em português e em francês para circular fora do país.
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"O soro antiofídico só neutraliza o veneno da serpente que serviu para prepará-lo."
Vital Brazil, "A Defesa contra o Ophidismo", 1911
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A consequência prática apareceu na hora. Como o lavrador picado raramente sabia dizer qual serpente o havia mordido, e como levar o bicho morto ao médico nem sempre era possível, Vital Brazil fabricou também um soro polivalente, misturando venenos de mais de um gênero na imunização do cavalo.
A linha de produção do Butantan ficou com esta ordem de trabalho, repetida até hoje em instituto público brasileiro:
| 1 | Capturar a serpente viva e mantê-la no viveiro, identificada por gênero e por região de origem | | 2 | Extrair o veneno pela pressão da glândula sobre vidro de relógio, secá-lo e pesá-lo | | 3 | Injetar o veneno no cavalo em dose crescente, por meses, até o sangue do animal neutralizar o tóxico em teste de bancada | | 4 | Sangrar o cavalo, separar o soro do sangue, purificar, envasar em ampola e testar cada lote antes de despachar |
O instituto começou a distribuir ampola de graça, pelo correio e pelo trem, com bula ilustrada que ensinava o lavrador a reconhecer jararaca, cascavel, surucucu e coral, e a aplicar a dose enquanto o socorro não chegava.
A produção nacional derrubou o preço e o tempo de espera. O frasco que vinha de Paris por navio, caro e sem efeito contra a serpente da roça, deixou de ser a opção disponível ao médico de cidade pequena do interior paulista.
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