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O soldado Medeiros que o pai foi buscar
Em 1822, proibida pelo pai de se alistar, Maria Quitéria cortou o cabelo, vestiu a farda do cunhado e foi se apresentar em Cachoeira.
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A farda dobrada e a tesoura sobre a mesa
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Em setembro de 1822 o Brasil foi declarado independente às margens do Ipiranga, e Salvador não tomou conhecimento. A guarnição portuguesa seguia dona da cidade, com o brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo no comando e a esquadra ancorada dentro da baía.
A cidade era o maior porto do Norte e tinha sido capital do Brasil por dois séculos. Quem segurasse Salvador segurava a alfândega, o açúcar e o fumo do Recôncavo, e a guerra da Bahia se arrastou por mais dez meses.
A resistência montou governo do outro lado da baía. Em Cachoeira, uma junta se declarou fiel ao príncipe e começou a juntar gente, dinheiro e pólvora para apertar Salvador por terra, enquanto os navios cortavam o abastecimento por mar.
O exército improvisado ali era feito de lavrador, vaqueiro, artesão, senhor de engenho e escravizado com promessa de alforria. Faltava fardamento, faltava fuzil, e faltava sobretudo braço em idade de marchar.
Os editais de convocação foram lidos na porta das igrejas do interior. Cada distrito devia entregar sua cota de voluntários, e a casa que mandasse um filho ganhava a consideração da vila.
A guerra do Recôncavo não teve grande batalha em campo aberto. Teve cerco, emboscada em estrada de engenho, tiro trocado em barra de rio e fome dos dois lados.
Do lado português havia instrução, artilharia e navio. Do lado de Cachoeira, a vantagem era conhecer cada atalho de mata e cada curva de rio.
A lei era clara sobre quem decidia dentro de casa. Mulher solteira vivia sob a autoridade do pai, e sem a licença dele não assinava papel, não viajava sozinha e não entrava em regimento nenhum.
A vida de hoje é a de uma mulher de 30 anos, criada numa fazenda do sertão de Feira de Santana, que ouviu o edital ser lido na porta da igreja, pediu ao pai a licença para servir e levou um não.
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I A Vida de Hoje
A pontaria aprendida na fazenda
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Ela crescia numa fazenda do sertão baiano montando, caçando e acertando o alvo. Veja o que faltava para ela entrar na tropa em 1822.
Maria Quitéria de Jesus aprendeu a montar, a caçar e a acertar o alvo antes de aprender a escrever o próprio nome. A escrita nunca chegou, e até o fim da vida ela assinou documento com uma cruz.
Nasceu em 27 de julho de 1792, na fazenda Feira Nova, freguesia de São José das Itapororocas, no distrito que hoje é Feira de Santana. Era filha de Gonçalo Alves de Almeida e de Quitéria Maria de Jesus, gente de lavoura e de criação de gado.
A casa ficava a dias de viagem da capital, e a escola mais próxima não recebia menina de família de lavrador.
A mãe partiu quando ela tinha por volta de dez anos. O pai casou de novo, a casa encheu de irmão e de meio-irmão, e a filha mais velha ficou com a parte pesada da rotina.
O que ela gostava mesmo era do lado de fora. Montava desde pequena, atravessava rio a nado, entrava na mata atrás de caça e aprendeu a lidar com arma de fogo como qualquer vaqueiro da região.
Na fazenda a arma não era enfeite. Servia para caçar o almoço e para espantar onça do curral, e o pai ensinou a filha a carregar, mirar e limpar o cano, sem imaginar onde a lição ia parar.
A pontaria dela virou assunto na vizinhança. Quem contava dizia que a moça acertava a peça em movimento e voltava com a caça pendurada na sela.
O plano do pai para ela era outro. Tinha acertado o casamento com Gabriel Pereira de Brito, lavrador da região, do jeito que se fazia então, entre as duas famílias e sem consultar a noiva.
Ela recusou. O noivado ficou parado, e a filha continuou na fazenda montando, caçando e adiando a data.
A irmã Teresa Maria de Jesus tinha casado com José Cordeiro de Medeiros e morava perto. A casa do casal virou o lugar onde Maria Quitéria aparecia quando o clima na fazenda apertava.
No fim de 1822 o edital de convocação chegou ao distrito. A leitura falava em voluntários para a tropa que ia cercar Salvador, e a fila de rapazes se formou na mesma semana.
Ela foi falar com o pai naquele dia. Sabia atirar melhor que metade dos que estavam na fila, tinha 30 anos, e a única coisa que faltava era a licença de um homem para entrar na lista.
O pai disse não, e repetiu o não em voz alta para quem quisesse ouvir. Filha de família não ia para acampamento de guerra, e a palavra dele valia como lei dentro daquela casa.
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II O Momento que Virou
O pai no portão do quartel
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O momento que virou não foi o primeiro tiro que ela deu na guerra. Foi a manhã em que o pai apareceu no quartel com a papelada para levar a filha de volta, e o comandante disse não.
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Poucos dias depois da recusa, ela juntou o que cabia num embornal e saiu da fazenda a cavalo, rumo à casa da irmã.
Na casa de Teresa a decisão virou trabalho de tesoura. O cabelo caiu até a altura da orelha, no corte que os homens da tropa usavam, e ficou no chão da cozinha.
O cunhado José Cordeiro de Medeiros cedeu a farda. Calça, colete abotoado, casaco e chapéu, tudo folgado no ombro e ajustado ali mesmo, com a irmã costurando a bainha.
De farda vestida ela atravessou o Recôncavo até Cachoeira, onde a junta recrutava. Na mesa do alistamento deu o sobrenome do cunhado e entrou para a lista como soldado Medeiros.
O regimento de artilharia a recebeu como recebia qualquer voluntário, com instrução, formatura e exercício de tiro no fim da tarde.
O exercício de tiro entregou o que ela sabia. Enquanto recruta de cidade errava o alvo, o soldado Medeiros acertava com regularidade, e o nome começou a circular na companhia.
A notícia correu de boca em boca até chegar de volta à fazenda. O pai montou, juntou a documentação que provava a autoridade dele sobre a filha e foi atrás dela no acampamento.
A cena no quartel teve plateia. O pai exigiu a entrega da filha, os oficiais ouviram os dois lados, e a tropa acompanhou de longe.
O comandante decidiu contra o pai. Entendeu que a soldado servia bem, que a instrução dela já estava adiantada e que a tropa precisava de gente com aquela pontaria, e recusou a entrega.
O pai voltou sozinho para a fazenda. A filha ficou no acampamento com o nome verdadeiro na lista, sem disfarce, fardada na frente de todo mundo.
Ela foi transferida para o Batalhão de Voluntários do Príncipe D. Pedro, formado com a gente do Recôncavo, e passou a servir sob o comando do oficial francês Pedro Labatut, contratado para organizar o exército da Bahia.
Uma inglesa que a conheceu de perto meses mais tarde anotou a roupa peça por peça no diário de viagem.
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"O traje dela é o de um soldado de um dos batalhões do Imperador, com o acréscimo de um saiote xadrez, que ela me disse ter adotado de uma gravura de um soldado das montanhas da Escócia, por ser o traje militar mais feminino."
Maria Graham, Journal of a Voyage to Brazil, 1824
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O batalhão entrou em combate na barra do rio Paraguaçu, no Cabrito e em Itapuã, nos encontros que foram apertando o cerco em torno da capital ocupada.
Os atestados que ela levou depois para a Corte, assinados por oficiais da campanha, registram a presença dela nessas ações e elogiam a conduta em campo.
Na madrugada de 2 de julho de 1823 a tropa portuguesa embarcou e deixou a baía. O exército do Recôncavo entrou em Salvador pela manhã, e ela entrou junto, na formação do batalhão.
O disfarce durou poucas semanas e nem chegou a ser a parte importante. O que a manteve na tropa depois de descoberta foi a pontaria que ela já tinha antes de vestir a farda do cunhado.
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