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O piano que Chiquinha não entregou
Ela recusou o ultimato do marido em 1867, saiu de casa com um filho no colo e passou a viver da aula de piano e da partitura vendida por encomenda.
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O piano que sustentou a casa depois de 1867
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O Código Civil brasileiro de 1916 colocou a mulher casada na lista dos relativamente incapazes, no mesmo artigo dos maiores de 16 e menores de 21 anos. Para assinar contrato ou trabalhar fora de casa, ela precisava da autorização do marido, chefe legal da sociedade conjugal e administrador dos bens do casal.
Meio século antes da lei escrita, o costume já funcionava do mesmo jeito. O casamento era acertado entre famílias, a moça passava do controle do pai para o do marido, e a carreira dela terminava na porta de casa.
Sair custava o pacote inteiro. Divórcio não existia no Brasil e só chegaria em 1977. O que a lei permitia era o desquite, que separava os corpos e mantinha o vínculo de pé, sem direito a casar de novo.
A guarda dos filhos ficava com o pai. A mulher que saía perdia a casa, o sobrenome respeitável e o convite para a sala das outras famílias, tudo no mesmo dia.
O piano tinha lugar reservado nessa engrenagem. Menina de família boa aprendia a tocar como prenda de sala, para receber visita e mostrar refinamento no serão. Tocar era enfeite. Viver de música era ofício de homem pobre, de mestre de banda e de músico de teatro.
E havia mercado. O Rio dos anos 1870 tinha casa editora vendendo partitura para o piano da sala, teatro de revista em cartaz diário e roda de choro na casa de funcionário público. O dinheiro da música circulava, e circulava entre homens: eles assinavam a capa, regiam a orquestra e recebiam o cachê.
A vida de hoje é a de uma menina que aprendeu o piano dentro desse arranjo e, aos 16 anos, foi entregue em casamento a um oficial escolhido pelo pai. O impasse chegou três anos depois, numa sala do Rio de Janeiro, em forma de escolha com duas saídas.
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I A Vida de Hoje
O ultimato do oficial da marinha
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O marido mandou escolher entre o casamento e o instrumento. Ela respondeu na hora, saiu com um filho no colo e passou a cobrar por aula de piano na casa dos outros. Veja o que uma vida perde, e o que ela ganha, quando a escolha é dita em voz alta.
Em 1867, o oficial da marinha mercante Jacinto Ribeiro do Amaral mandou a esposa escolher entre ele e a música. O casamento tinha quatro anos, três filhos e uma disputa que voltava toda semana: o tempo que ela passava ao piano.
Ela se chamava Francisca Edwiges Neves Gonzaga e tinha nascido no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1847. O pai, José Basileu Neves Gonzaga, era militar de carreira e chegaria a marechal. A mãe, Rosa Maria de Lima, era mulher pobre e mestiça.
A menina cresceu com estudo acima do que se dava a moça na época: leitura, francês, matemática e música, com mestre contratado em casa. Aos 11 anos compôs a Canção dos Pastores para o Natal da família, tocada na sala como quem exibe um talento doméstico.
Aos 16, o pai a casou com Jacinto, filho de família conhecida e homem de embarcação. O arranjo seguia o padrão da casa: o pai escolhia o genro, a filha aceitava, e o piano ia junto como prenda de enxoval, nunca como profissão.
O marido comandava navios e levou a esposa em viagem. Ela levou o piano a bordo. A música, que na casa do pai rendia orgulho, dentro do casamento virou atrito diário, e o atrito terminou numa exigência de resposta imediata.
A resposta dela virou a frase mais repetida da biografia:
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"Senhor, eu não compreendo a vida sem harmonia."
Edinha Diniz, Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, 1984
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A frase está registrada em Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, biografia escrita por Edinha Diniz e publicada em 1984, o primeiro trabalho de fôlego sobre ela e a fonte de quase tudo que se conta desde então.
A escolha custou o preço integral. Ela saiu de casa com o filho mais velho, João Gualberto. Os dois menores ficaram com o pai e não voltariam a morar com ela. A casa, a mesada e a proteção do sobrenome acabaram junto.
O pai riscou o nome dela da família. Militar de carreira, tratou a saída da filha como desonra pública e como assunto encerrado. A filha do futuro marechal virou mulher separada, condição que em 1867 fechava porta de sala, de escola e de emprego.
O sustento veio do único ofício que ela sabia exercer. Dava aula de piano na casa dos outros, copiava partitura à mão e vendia o que compunha por preço de encomenda. O instrumento que o marido mandou abandonar passou a pagar o aluguel.
Nos anos seguintes ela entrou nas rodas de música que se faziam em casa de funcionário público e de comerciante, onde a flauta puxava e o resto acompanhava. Era o lugar onde a música da cidade estava sendo inventada, e ela chegou como a única mulher da sala.
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II O Momento que Virou
Atraente, a polca que virou profissão
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O momento que virou não foi a saída de casa. Foi a noite em que ela sentou ao piano numa roda de choro, improvisou uma polca e a peça saiu impressa, com o nome dela na capa e um preço na etiqueta. A música deixou de ser prenda de sala e virou profissão.
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A roda era a de Joaquim Antônio da Silva Callado, flautista, professor e o sujeito que organizou o choro carioca em grupo fixo. Callado a chamou para tocar, e a presença de uma mulher naquela sala já era, sozinha, um fato.
Em 1877 nasceu ali a polca Atraente. A peça foi publicada, vendeu edição atrás de edição e correu os pianos das casas do Rio, que funcionavam como o rádio da época: a música chegava impressa, para ser tocada pela própria família na sala.
O nome na capa fez o serviço que nenhuma aula de piano faria. Encomenda de editor, convite de teatro e aluno novo passaram a chegar por conta do sucesso, e a mulher separada virou compositora com obra em catálogo.
Ela usou a mesma partitura como ferramenta política. Na campanha abolicionista, saiu vendendo música de porta em porta para juntar o dinheiro da alforria de um músico escravizado, e andou com o movimento pelas ruas do Rio até 1888.
O dinheiro grande, porém, estava no palco. O Rio consumia opereta, burleta e revista em cartaz diário, e o público pagava para ouvir música brasileira com piada de rua no meio. Ela mudou de endereço profissional e foi escrever para o teatro.
Em 17 de janeiro de 1885, o Teatro Príncipe Imperial estreou A Corte na Roça, opereta com música dela. Ela mesma subiu para reger a orquestra da estreia e virou a primeira mulher a dirigir uma orquestra no Brasil.
Uma mulher de batuta na mão, de costas para a plateia, em 1885.
A batuta não era detalhe de cerimônia. Reger significava mandar em uma orquestra de homens, marcar entrada, cortar andamento e ser obedecida em público, no ofício que a cidade inteira considerava masculino por natureza.
Em 1899, o cordão carnavalesco Rosa de Ouro, do Andaraí, pediu uma música para sair na rua. Ela entregou Ô Abre Alas, feita para ser cantada andando, e o carnaval brasileiro ganhou a primeira marcha da história dele.
Em 1912 veio Forrobodó, burleta de costumes cariocas com música dela, que passou de mil e quinhentas apresentações seguidas no Rio e encheu a bilheteria da casa de espetáculo por temporadas inteiras.
Ao longo da vida ela assinou cerca de 2 mil composições e 77 peças para o palco. O número só se explica por um detalhe simples: música era o emprego dela, exercido todo dia, por décadas, com prazo de editor e hora de ensaio.
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III O Que Ficou
A bilheteria que passou a pagar o autor
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No carnaval: Ô Abre Alas continua abrindo bloco no Rio desde 1899 e segue como a marcha mais antiga que o carnaval brasileiro ainda canta de cor. Foi encomenda de um cordão de bairro, e sobreviveu a todos os ritmos que vieram depois.
No teatro: em 1917 ela entrou no grupo que fundou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a SBAT, criada para cobrar do espetáculo o pagamento devido a quem escreveu a peça e a música.
No calendário: 17 de outubro, dia do nascimento dela, é por lei o Dia Nacional da Música Popular Brasileira, definido pela Lei 12.624, de 2012.
A fundação da SBAT resolveu um problema que ela conhecia pelo bolso. Até então o autor vendia a partitura uma vez, por preço fechado, e o teatro faturava a temporada inteira sem lhe dever mais nada.
Quanto maior o sucesso da peça, maior a distância entre quem escreveu e quem cobrou o ingresso. Ela sabia por experiência própria: tinha música em cartaz há décadas, tocada por banda em cidade que nunca visitou, e nenhum mecanismo para receber pelo uso.
A briga pelo direito autoral, para ela, foi assunto de sobrevivência antes de virar tese jurídica. Quem depende do próprio trabalho para almoçar aprende cedo a diferença entre ser aplaudido e ser pago.
O princípio que a SBAT levou para o teatro é o mesmo que sustenta a arrecadação de direitos autorais no país hoje: quem cria recebe cada vez que a obra é executada em público, e a cobrança sai de uma entidade coletiva, não do autor batendo de porta em porta.
A vida particular seguiu a mesma regra de não pedir licença. Aos 52 anos ela começou a viver com João Batista Fernandes Lage, 36 anos mais novo, apresentado em público como filho adotivo pelas quase quatro décadas que passaram juntos.
Ela trabalhou até o fim, em 1935, aos 87 anos, com obra em catálogo e sociedade de autores fundada. Da menina que aprendeu piano como prenda de sala restou uma profissão inteira, aberta para quem viesse depois.
O piano que um homem mandou abandonar em 1867 sustentou 2 mil obras, uma orquestra regida em 1885 e a sociedade que ainda hoje cobra pelo autor.
"Que trabalho seu circula por aí sem o seu nome no rodapé?"
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Quiz da edição
Em que ano Chiquinha Gonzaga subiu ao palco pra reger a orquestra e virou a primeira mulher a dirigir uma orquestra no Brasil?
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