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ED 033

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O peregrino que saiu de casa por dezesseis meses e voltou vinte e nove anos depois

Em Tânger, um jurista de 21 anos partiu sozinho rumo a Meca e só reapareceu em 1354, com três continentes na bagagem e nenhuma linha escrita.

Ibn Battuta a cavalo numa caravana atravessando o deserto rumo ao Oriente, no século XIV.

Tânger, 1325: a partida rumo a Meca

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Em 14 de junho de 1325, aos 21 anos, o jurista Ibn Battuta montou num burro e deixou Tânger sozinho, sem caravana marcada e sem companheiro de estrada, para cumprir a peregrinação a Meca que a lei religiosa pedia uma vez na vida de quem tivesse posses e saúde.

A viagem tinha rota conhecida e prazo estimado. Um marroquino que ia a Meca por terra atravessava o norte da África até o Cairo, subia o Nilo ou cortava o Sinai, se juntava à caravana oficial em Damasco e voltava em cerca de dezesseis meses, contando a estadia nos lugares sagrados e as paradas de mercado.

Ele voltou vinte e nove anos depois. No intervalo, cruzou o Egito, a Síria, o Iraque, a Pérsia, o Iêmen, a costa da África oriental até Quiloa, a Anatólia dos principados turcos, a estepe da Horda de Ouro, Constantinopla, a Ásia Central, o vale do Indo, Delhi, as Maldivas, o Ceilão, Bengala, Sumatra, o litoral da China, e ainda pegou a peste na volta pela Síria antes de chegar em casa.

Ross Dunn, historiador da Universidade Estadual de San Diego, calculou em 1986, no livro The Adventures of Ibn Battuta, que o percurso somado passa de 117 mil quilômetros, num tempo em que a maior parte da distância se vencia a pé, no lombo de camelo ou em barco de madeira dependente das monções.

Nada disso estava escrito. Ele não levou diário, perdeu duas vezes toda a bagagem em assalto e naufrágio, e chegou a Fez em novembro de 1354 com um repertório oral de três décadas e nenhum manuscrito.

Foi o sultão merínida Abu Inan Faris que resolveu o problema. Mandou o viajante contar tudo e sentou ao lado dele um secretário de corte, o poeta granadino Ibn Juzayy, com ordem de tomar por escrito o que saísse da boca do outro. O trabalho durou de 1354 a 1355 e virou um livro de título comprido, Presente aos que Contemplam as Maravilhas das Cidades e as Maravilhas das Viagens, que o mundo passou a chamar apenas de Rihla, a palavra árabe para relato de viagem.

A vida que produziu esse ditado começa numa família de juízes de Tânger, num ofício herdado que explica por que tantas portas se abriram para um rapaz sem dinheiro e sem exército.

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I  A Vida de Hoje

O ofício de julgar que abria portas em qualquer cidade

Ele nasceu em Tânger em 24 de fevereiro de 1304, numa família berbere da tribo Lawata estabelecida na cidade havia gerações. O sobrenome apareceria depois em toda parte, e o nome completo que os documentos registram é Abu Abdallah Muhammad ibn Abdallah al-Lawati at-Tanji, conhecido como Ibn Battuta.

A família vivia do direito islâmico. Pai, tios e primos atuavam como cádis, os juízes que aplicavam a lei religiosa nos tribunais das cidades do Magrebe, e o menino foi criado para entrar na mesma fila.

A formação dele foi a padrão da elite jurídica sunita do norte da África: memorização do Alcorão, estudo das tradições atribuídas ao profeta, e mergulho na escola malikita, a corrente de jurisprudência dominante no Marrocos e em quase toda a África ao sul do Saara.

Essa formação era a carta de crédito que ele levaria pelo mundo. Do Marrocos ao delta do Ganges, qualquer cidade de maioria muçulmana precisava de gente capaz de redigir contratos, decidir heranças, validar casamentos e presidir orações, e faltava gente treinada nas fronteiras recém convertidas do mundo islâmico.

O rapaz que saiu de Tânger em 1325 não tinha fortuna, tropa nem cargo. Tinha um diploma informal de jurista e a certeza, correta, de que seria hospedado em cada madrassa, convento sufi e palácio no caminho, porque a hospitalidade ao viajante piedoso era obrigação social e o conhecimento jurídico era mercadoria escassa.

A primeira etapa foi dura mesmo assim. Ele atravessou o norte da África em caravanas que cobravam caro pela proteção, ficou de cama com febre no trecho argelino e amarrou o corpo à sela com um turbante para não cair do animal, segundo o relato que ele mesmo ditaria décadas depois.

No Cairo dos mamelucos, então a maior cidade do mundo islâmico, ficou meses parado. Foi ali que um asceta chamado Burhan ad-Din, contou ele, previu que o visitante ainda percorreria a Índia, o Sind e a China.

A profecia interessa menos que o efeito prático da carreira. Em Delhi, o sultão Muhammad ibn Tughluq contratava estrangeiros letrados a peso de ouro e o nomeou cádi da capital por volta de 1334, com salário alto e a incumbência de julgar em árabe numa corte que falava persa.

Nas Maldivas, o mesmo currículo o fez juiz-chefe do arquipélago em 1344. Ele tentou obrigar as mulheres locais a cobrir o torso, aplicou penas corporais que a ilha não praticava e saiu de lá cercado de atrito político.

O ofício de julgar também o levou ao mar mais arriscado da rota. Em 1341, Tughluq o nomeou embaixador junto ao imperador mongol da China, e a missão partiu de Delhi com presentes, escravos e cavalos que jamais chegariam ao destino previsto.

 
 

II  O Momento que Virou

O escriba que o sultão sentou ao lado dele em Fez

Em novembro de 1354, na corte merínida de Fez, o sultão Abu Inan Faris designou o secretário Ibn Juzayy para tomar por escrito o relato oral de Ibn Battuta, e o texto que os dois produziram em pouco mais de um ano é a única razão pela qual essas três décadas chegaram até hoje.

O caminho de volta tinha sido longo. Depois do naufrágio da missão chinesa em Calicute, das Maldivas, do Ceilão, de Bengala, de Sumatra e do litoral chinês, ele refez a rota para o oeste, viu a peste negra chegar a Damasco em 1348 e desembarcou no Marrocos em 1349, a tempo de saber que a mãe havia partido semanas antes.

Ainda faltavam duas viagens. Ele passou ao reino nazari de Granada, último território muçulmano da península Ibérica, e depois cruzou o Saara com uma caravana de sal rumo ao império do Mali, onde ficou de fevereiro de 1352 a dezembro de 1353 e descreveu a corte de Mansa Suleiman, sucessor de Mansa Musa.

Foi ao voltar dessa última travessia que a corte de Fez o convocou. O sultão queria o inventário do mundo conhecido posto no árabe de chancelaria da corte, e sabia que a memória de um homem só apagaria em poucos anos.

O arranjo montado no palácio funcionava assim:

O viajante falava  sessões de ditado em que Ibn Battuta narrava cidades, governantes, preços, comidas, rituais, escândalos de corte e o que tinha julgado como juiz em cada lugar
O secretário escrevia  Ibn Juzayy, poeta e calígrafo formado em Granada, organizava o material em prosa rimada de gênero literário, cortando repetição e escolhendo o que virava capítulo
O material era completado  quando faltava dado, o escriba recorria a relatos de viagem anteriores, e trechos do andaluz Ibn Jubayr, do século XII, entraram no texto quase palavra por palavra
O manuscrito era selado  a redação terminou em dezembro de 1355 e ficou guardada nos arquivos do sultanato, sem cópia impressa e sem circulação de massa

Essa costura tem consequência direta para quem lê. O livro mistura testemunho de primeira mão com material emprestado, algumas datas não fecham entre si, e a passagem sobre a China é a mais contestada pelos historiadores, que discutem até onde ele foi de fato no império de Yuan.

"Parti sozinho, sem companheiro cuja companhia me alegrasse e sem caravana a que me juntar, movido por um impulso que me dominava e por um desejo antigo de visitar aqueles santuários ilustres."

Ibn Battuta, Rihla, ditada a Ibn Juzayy, 1355

O escriba não sobreviveu muito ao trabalho. Ibn Juzayy partiu em 1356, aos trinta e poucos anos, logo depois de fechar o manuscrito, e o próprio Ibn Battuta desapareceu dos registros pouco tempo depois, provavelmente como cádi de alguma cidade marroquina, por volta de 1368.

 

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III  O Que Ficou

O manuscrito que ficou parado quase quinhentos anos

O livro não virou best-seller. Circulou em cópias manuscritas dentro do mundo árabe, foi resumido por copistas e passou séculos como curiosidade de biblioteca de corte, sem tradução e sem leitor europeu.

A virada veio com a ocupação francesa da Argélia. Militares e eruditos franceses encontraram manuscritos da obra em Constantina nos anos 1830, e a Sociedade Asiática de Paris publicou entre 1853 e 1858 a edição crítica em quatro volumes de Charles Defrémery e Beniamino Sanguinetti, com o árabe e a tradução francesa lado a lado.

Foi essa edição que colocou o viajante no mapa intelectual do século XIX e serviu de base para as traduções seguintes. A versão inglesa completa de Hamilton Gibb, encomendada pela Hakluyt Society, começou a sair em 1958 e só foi concluída em 1994, com o quarto volume terminado por Charles Beckingham.

O que os pesquisadores encontraram lá dentro vale mais do que aventura. A Rihla é a fonte escrita mais rica sobre a vida cotidiana do mundo islâmico do século XIV, e traz descrições únicas de cidades como Quiloa, na costa do atual Tanzânia, e do império do Mali no auge da rota transaariana do ouro.

Historiadores da África medieval dependem desse texto. O relato dele sobre a corte de Mansa Suleiman, sobre a etiqueta dos súditos diante do soberano e sobre a segurança das estradas do Mali é um dos poucos testemunhos oculares do período.

O mesmo vale para a peste negra. A descrição da procissão de jejum em Damasco em 1348 e os números que ele recolheu no Cairo estão entre os relatos contemporâneos usados por quem estuda a pandemia no Oriente Médio.

O viajante voltou ao espaço público no século XX. Um aeroporto em Tânger, um shopping em Dubai e uma cratera na Lua levam a assinatura dele, e escolas do Magrebe ao Sudeste Asiático usam trechos da Rihla como leitura de história.

Existe ainda a parte que ele não escolheu contar. O relato tem lacunas convenientes, silêncio sobre as próprias falhas de juiz nas Maldivas e sobre o destino das dezenas de mulheres com quem se casou e dos filhos que deixou espalhados pelas rotas, e essa seleção também é informação sobre o homem.

Um jurista de 21 anos saiu de casa para uma viagem de dezesseis meses, ficou fora vinte e nove anos, não escreveu uma linha durante o percurso, e só existe para nós porque um sultão achou que aquela memória valia um escriba em tempo integral.

"Quanto do que você viveu neste ano existiria se ninguém tivesse tomado nota?"

Ibn Battuta explicou o método no meio do relato ditado em Fez, ao justificar por que evitava voltar pelo caminho já conhecido: "Tenho por hábito nunca percorrer a mesma estrada uma segunda vez."

 
 

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Segundo o cálculo do historiador Ross Dunn, quantos quilômetros Ibn Battuta percorreu ao todo em suas viagens?

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BMais de 117 mil quilômetros
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DMais de 80 mil quilômetros

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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