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O lojista de Delft que achou vida na água
Em 1676, Antonie van Leeuwenhoek descreveu à Royal Society os bichinhos de uma gota d'água e guardou para si o jeito de fazer as lentes.
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Delft, 1675: uma gota de chuva na lente
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Aos 42 anos, o comerciante de tecidos Antonie van Leeuwenhoek recolheu num pote a água da chuva que caía no quintal da casa dele, em Delft, no verão de 1675. Pôs uma gota num tubo fino de vidro e encostou o olho numa placa de latão com um furo no meio.
No furo havia uma lente menor que uma unha de criança. Vista através dela, a gota estava cheia de gente pequena. Criaturas se esticavam, se encolhiam, giravam e nadavam em todas as direções.
Leeuwenhoek não era médico nem professor. Não sabia latim, a língua de quem escrevia ciência na Europa. Vendia linho, lã e fitas numa loja da cidade e completava a renda com cargos da prefeitura, como o de fiscal que media os barris de vinho que entravam em Delft.
Mesmo assim, ele fez o que nenhum sábio da época tinha feito. Voltou à gota dia após dia, anotou o tamanho de cada criatura e comparou com o que conhecia: um grão de areia, o olho de um piolho, uma pulga.
Chamou os seres de animálculos (bichinhos minúsculos) e concluiu que alguns eram mil vezes menores que o menor inseto visível a olho nu.
Em outubro de 1676, contou tudo numa carta de dezessete páginas, escrita em holandês, para a Royal Society (Sociedade Real de Londres), a academia de ciências mais respeitada da Inglaterra. Em Londres, ninguém conseguiu ver o que ele descrevia.
O comerciante tinha a resposta na gaveta: as lentes. Polia e montava as próprias, fazia dezenas delas, e não mostrava o método a ninguém. Visitantes podiam espiar por alguns aparelhos, nunca pelos melhores.
Para entender como um lojista sem diploma chegou a enxergar o que as universidades não viam, é preciso começar pelo balcão da loja e pela lupa que todo vendedor de pano usava para contar fios.
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I A Vida de Hoje
O balcão de pano em Delft
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Antonie van Leeuwenhoek nasceu em 24 de outubro de 1632, em Delft, na Holanda, filho de Philips Thoniszoon, fabricante de cestos, e de Margaretha Jacobsdochter van den Berch, de uma família de cervejeiros. O sobrenome veio da esquina onde a família morava, perto do Portão do Leão.
O pai morreu quando o menino tinha cinco anos. A mãe casou de novo, e Antonie passou a infância entre a escola de Warmond e a casa de um tio advogado em Benthuizen. Nunca foi para a universidade.
Aos dezesseis anos, foi mandado para Amsterdã como aprendiz de um comerciante escocês de tecidos, William Davidson. Ali trabalhou de caixa e de guarda-livros, e aprendeu o ofício de avaliar pano.
Para saber a qualidade de um tecido, o vendedor contava quantos fios havia em cada polegada. A ferramenta era uma lupa de mão, uma lente simples presa a um suporte. Quanto mais fios, mais caro o pano. Leeuwenhoek passou anos com esse vidro colado ao olho.
Em 1654, voltou a Delft, casou com Barbara de Mey, filha de um comerciante de tecidos, e abriu a própria loja. Tiveram cinco filhos, e só a filha Maria chegou à vida adulta. Barbara morreu em 1666. Cinco anos depois, ele casou com Cornelia Swalmius.
O instrumento que abriu um mundo invisível começou como ferramenta de balcão para cobrar o preço certo de um metro de linho.
A loja nunca bastou. Em 1660, Leeuwenhoek conseguiu um posto na prefeitura de Delft, como camareiro dos juízes, cuidando da sala onde eles se reuniam. Mais tarde, virou agrimensor e fiscal de vinho. Os cargos pagavam bem e deixavam tempo livre.
Esse tempo foi para as lentes. Ninguém sabe ao certo quando ele começou. Os historiadores apontam uma provável leitura: a Micrographia (Micrografia), livro de 1665 em que o inglês Robert Hooke mostrou em gravuras uma pulga, um piolho e a fibra de um pano vistos pelo microscópio.
O aparelho de Hooke era composto, com duas lentes num tubo. O de Leeuwenhoek era simples: uma única lente, minúscula e muito curva, presa entre duas placas de metal. Um parafuso levava a amostra até o foco. O aparelho inteiro cabia na palma da mão.
Em 1676, a prefeitura o nomeou administrador dos bens do pintor Johannes Vermeer, vizinho de cidade que deixara a viúva cheia de dívidas. Leeuwenhoek já tinha fama de homem de contas exatas.
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II O Momento que Virou
As cartas que Londres não conseguia repetir
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Quem abriu a porta de Londres foi o médico Regnier de Graaf, também de Delft. Em abril de 1673, ele escreveu a Henry Oldenburg, secretário da Royal Society, recomendando um conterrâneo que fazia microscópios melhores que os conhecidos.
Junto seguiu a primeira carta de Leeuwenhoek, sobre o mofo, o ferrão de uma abelha e um piolho. Oldenburg a publicou nas Philosophical Transactions (Transações Filosóficas), a revista da sociedade. Foi o começo de uma correspondência que durou cinquenta anos.
As cartas eram longas, sem ordem, cheias de conversa sobre a vida doméstica. Leeuwenhoek escrevia como falava, em holandês, e os ingleses traduziam trechos. Descrevia glóbulos vermelhos do sangue, espermatozoides, as escamas da pele.
A carta de 9 de outubro de 1676 foi a que mexeu com Londres. Leeuwenhoek contou ter posto pimenta moída de molho na água, para descobrir por que ela ardia na língua. Na infusão, os animálculos se multiplicavam em quantidade que ele comparou à população inteira da Holanda.
Os membros da sociedade tentaram repetir o que ele descrevia. Com os microscópios deles, nada aparecia. Houve quem desconfiasse de exagero de lojista.
Leeuwenhoek respondeu com testemunhas. Juntou oito pessoas respeitáveis de Delft, entre elas um pastor e um notário, que olharam pelas lentes e assinaram declarações de que tinham visto os bichinhos. Mandou os papéis para Londres.
Sem título para exibir, o comerciante provou o que via do único jeito que conhecia no balcão: com recibo assinado por gente de confiança.
O impasse terminou com Robert Hooke. Em novembro de 1677, depois de várias tentativas, Hooke preparou uma infusão de pimenta, usou uma lente simples feita por ele próprio e mostrou os animálculos aos membros da sociedade reunidos. Dessa vez todos viram.
Em 1680, a Royal Society elegeu Leeuwenhoek como membro. Ele nunca foi a Londres para a cerimônia. Agradeceu por carta e continuou escrevendo.
Em 1683, olhou a massa branca que raspava dos próprios dentes. Viu ali criaturas em forma de bastão e de espiral. Os microbiologistas identificam nesses desenhos a primeira descrição conhecida de bactérias.
O segredo das lentes seguiu fechado. Hooke reclamou em público. Leeuwenhoek explicava que mostrava os aparelhos comuns aos visitantes e guardava os melhores para uso próprio.
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