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O geógrafo que o Brasil expulsou e o mundo contratou
Preso em Salvador em 1964, deu aula em três continentes por treze anos e levou o maior prêmio da geografia mundial em 1994.
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Salvador, a cidade que ele mediu primeiro
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A geografia que se ensinava no Brasil em meados do século 20 era, em boa parte, uma disciplina de inventário. Rios, serras, climas, capitais, produção de cacau por estado. Coisa de decorar em véspera de prova e esquecer na semana seguinte.
Havia um motivo institucional para aquele formato. A geografia brasileira nascera dentro do projeto de conhecer o território para administrá-lo, com institutos de estatística, missões de campo e mapas que serviam ao governo antes de servirem à pergunta científica.
O resultado era uma disciplina que descrevia muito bem onde as coisas estavam e quase nada sobre por que estavam ali. A fábrica aparecia no mapa como um ponto. Quem decidiu instalar a fábrica naquele ponto, com que dinheiro e às custas de quem, ficava fora do recorte.
Num país que urbanizava em velocidade recorde, a lacuna custava caro. Entre 1940 e 1970, a população urbana brasileira saltou de menos de um terço para mais da metade do total, e as cidades que recebiam essa gente cresciam sem que ninguém tivesse teoria decente para explicar o que estava acontecendo dentro delas.
Faltava uma pergunta simples e incômoda: o espaço é só o palco onde a economia acontece, ou o espaço é parte do motor? Se for palco, basta descrever. Se for motor, descrever é insuficiente, e a geografia precisa de conceito próprio, não de conceito emprestado da economia e da sociologia.
Quem levantou essa pergunta com mais insistência no Brasil não trabalhava no eixo Rio-São Paulo. Estava em Salvador, uma capital que a academia do sul tratava como periferia, escrevendo sobre uma cidade que ninguém no exterior considerava objeto sério de estudo urbano.
O detalhe que torna a história improvável é o que veio depois. A carreira desse pesquisador foi interrompida por um golpe de Estado, recomeçada do zero em três continentes e reconstruída no Brasil de meia-idade, até terminar com o prêmio mais alto que a geografia mundial concede.
Nada disso estava previsto num menino nascido no sertão baiano em 1926.
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I A Vida de Hoje
Do sertão da Bahia à cátedra de Salvador
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Ele reescreveu o que a geografia brasileira entende por espaço. Veja como um filho de professores do sertão chegou à cátedra de Salvador.
Milton Almeida de Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no sertão da Bahia, em 3 de maio de 1926, filho de dois professores primários que o alfabetizaram em casa antes de qualquer escola formal.
A casa era um caso raro de capital cultural em território de pouca escola. Os pais eram negros, professores públicos e circulavam pelo interior conforme a designação do estado mudava, levando os livros junto.
O efeito na formação do filho foi mensurável. Ele entrou no ginásio adiantado, e ainda adolescente já dava aula de geografia num colégio de Alagoinhas, ensinando conteúdo para alunos que tinham quase a idade dele.
A faculdade veio pelo caminho previsível da época. Não existia curso de geografia com prestígio na Bahia, então ele fez direito na Universidade Federal da Bahia, formando-se em 1948, num ambiente onde o bacharelado ainda era o passaporte social para praticamente tudo.
O diploma de advogado durou pouco como profissão. Ele voltou ao magistério, escreveu no jornal A Tarde, e passou a produzir estudos sobre a cidade de Salvador com um método que misturava trabalho de campo, dado econômico e observação de rua.
O passo decisivo foi atravessar o Atlântico com uma pergunta específica. Ele fez doutorado na Universidade de Estrasburgo, na França, defendendo em 1958 uma tese sobre o centro da cidade de Salvador, orientado dentro da escola francesa de geografia que dominava o pensamento da disciplina no mundo.
Aquilo era incomum por dois motivos. Primeiro porque um pesquisador brasileiro raramente chegava ao doutorado na Europa naquela geração. Segundo porque o objeto escolhido era uma cidade brasileira estudada com ferramenta teórica de ponta, e não a cópia de um estudo europeu aplicada aqui.
De volta ao Brasil, ele acumulou frentes. Assumiu cátedra na Universidade Federal da Bahia, dirigiu o laboratório de geomorfologia e estudos regionais, e ocupou posto de planejamento no governo estadual, envolvido com a comissão que desenhava política econômica para a Bahia.
O currículo dele em 1963 tinha, portanto, uma combinação perigosa: professor universitário respeitado, quadro técnico do governo, articulador de política pública e homem negro num lugar de decisão. Cada um desses itens seria usado contra ele no ano seguinte.
Em março de 1964, ele tinha trinta e sete anos, cátedra, cargo público e um programa de pesquisa em andamento sobre a urbanização brasileira. Em abril, não tinha nenhuma dessas coisas.
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II O Momento que Virou
Salvador, 1964, a cela e a passagem só de ida
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Poucos dias depois do golpe de 31 de março de 1964, Milton Santos foi preso em Salvador, perdeu o cargo público, perdeu a cátedra e saiu do Brasil para um exílio que durou treze anos.
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A prisão não teve relação com militância armada. Ele era um acadêmico com trânsito no governo estadual e posições públicas sobre desenvolvimento regional, e essa combinação bastava na lógica de expurgo que a nova ordem aplicou às universidades e às burocracias técnicas.
O que aconteceu com ele aconteceu com a geografia brasileira inteira, em escala. Professores aposentados à força, pesquisas interrompidas, cursos esvaziados e uma geração de quadros formados fora do país por falta de opção dentro.
O exílio dele, porém, teve um formato que quase ninguém conseguiu repetir. Em vez de virar um brasileiro esquecido numa universidade estrangeira, ele transformou o deslocamento em método, dando aula e pesquisando em instituições de três continentes:
| França Toulouse, Bordeaux e Paris, onde reentrou no circuito da geografia europeia | | Tanzânia Dar es Salaam, na África recém-descolonizada | | Venezuela e Peru Caracas e Lima, dentro do debate latino-americano sobre dependência | | América do Norte passagens por universidades nos Estados Unidos e no Canadá |
A soma daquelas paisagens produziu a virada teórica dele. Vendo Salvador, Dakar, Lima e Dar es Salaam com o mesmo instrumental, ele percebeu que a cidade do país pobre não era uma versão atrasada da cidade do país rico, e sim uma cidade com estrutura econômica própria.
Dessa percepção saiu a tese dos dois circuitos da economia urbana. Um circuito superior, feito de banco, indústria moderna, capital intensivo e crédito. Um circuito inferior, feito de trabalho intensivo, pequeno comércio, serviço de rua e dinheiro à vista. Os dois na mesma cidade, ligados e desiguais.
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"A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista."
Milton Santos, Por uma outra globalização, 2000
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O ponto que ele martelava é que o circuito inferior não é resíduo em vias de desaparecer. É estrutura permanente, produzida pelo mesmo processo que produz o circuito superior, e política pública que ignora essa mecânica gasta dinheiro tratando sintoma.
A produção intelectual do período foi grande porque o exílio era, na prática, tempo integral de pesquisa. Ele publicou em francês, inglês e espanhol, entrou nos debates internacionais sobre subdesenvolvimento e chegou ao fim dos anos 1970 com nome feito em circuitos onde brasileiro raramente entrava.
Ele voltou ao Brasil em 1977 sem cargo garantido, com mais de cinquenta anos, e teve que reconstruir carreira acadêmica num país que ainda estava sob o mesmo regime que o tinha expulsado.
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