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ED 005

O espelho no teto da cama de Frida

Depois do acidente de 1925, prenderam um espelho no forro do dossel e fizeram um cavalete de cama, e aos 19 anos saiu o primeiro autorretrato.

Uma cama de dossel num quarto antigo, com um espelho preso no forro e um cavalete de madeira inclinado sobre o colchão, ao fim da tarde.

O espelho preso no forro, sobre a cama de dossel

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Na Cidade do México de 1925, o transporte novo era feito de madeira. Os camiones eram carrocerias de tábua montadas sobre chassi de caminhão, com bancos corridos encostados nas laterais e um estribo aberto para o passageiro subir em movimento.

O concorrente deles era o bonde elétrico, que corria em trilho fixo, pesava algumas toneladas e não desviava de nada. Na maioria dos cruzamentos não havia sinalização, e a preferência se resolvia no olho de quem chegava primeiro.

O motorista do camión ganhava por viagem cheia. Cruzar o trilho antes do bonde valia minutos, e minutos valiam passageiro.

O acidente de trânsito ainda não era assunto de saúde pública no país. Não havia cinto, para-brisa laminado nem serviço de resgate treinado, e o socorro dependia de quem estivesse passando na rua na hora.

A medicina da época tratava coluna quebrada de um jeito só: imobilizar e esperar. Colete de gesso, cama dura, meses deitado de costas. O antibiótico ainda não existia, e abrir uma coluna era decisão de último recurso.

Convalescer era desaparecer. A pessoa saía da escola, do emprego e da rua por um ano ou mais, e quase sempre voltava para uma vida menor do que a que tinha deixado. O quarto era onde o projeto ficava em suspenso, esperando um corpo que talvez não voltasse.

A família fazia o resto com o que havia em casa. Um colchão, uma janela e alguém para virar o corpo de hora em hora. Nada naquele arranjo previa que a pessoa deitada fosse produzir alguma coisa.

A vida de hoje é a de uma estudante de 18 anos que voltava da escola numa tarde de setembro, com um lugar guardado na faculdade de medicina e a carteira de matrícula na pasta. Ela passou o ano seguinte deitada, e saiu daquele quarto com um ofício que ninguém tinha planejado para ela.

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I  A Vida de Hoje

Trinta e cinco meninas entre dois mil

Um bonde atingiu o camión de madeira em que ela voltava da escola e quebrou a coluna em três pontos. A família prendeu um espelho no forro da cama e mandou fazer um cavalete que alcançava o colo. Veja o ofício que saiu daquele quarto.

Aos seis anos, uma poliomielite deixou a perna direita de Frida Kahlo mais fina que a esquerda. Ela passou nove meses de cama, e voltou para a escola mancando, com a meia dobrada em três camadas para disfarçar a diferença.

O pai reagiu com exercício. Guillermo Kahlo pôs a filha para nadar, jogar futebol e até treinar boxe, coisas que menina de família mexicana não fazia em 1913.

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón nasceu em Coyoacán, em 6 de julho de 1907, terceira de quatro filhas. Mais tarde ela passou a dizer que tinha nascido em 1910, o ano em que a Revolução começou.

O pai era fotógrafo, nascido na Alemanha, e tinha recebido do governo a encomenda de registrar o patrimônio arquitetônico do país. Trabalhava com câmera de fole e placa de vidro.

Frida virou assistente dele cedo. Ajudava no laboratório, acompanhava a revelação e aprendeu a retocar cópia com pincel de ponta fina, corrigindo grão e mancha num rosto de poucos centímetros.

A Revolução encolheu a encomenda pública, e o dinheiro em casa ficou curto. A família hipotecou a casa de Coyoacán e passou a alugar quartos.

Em 1922, ela entrou na Escola Nacional Preparatória, o colégio de elite que preparava para a universidade. O curso tinha cerca de dois mil alunos, e ela era uma das trinta e cinco meninas matriculadas.

O plano era medicina. Ela cursava ciências naturais, estudava biologia e anatomia e falava em ser médica, profissão que quase nenhuma mulher exercia no México daquele ano.

O grupo dela se chamava Los Cachuchas, por causa do boné que os nove membros usavam. Liam romance russo e discutiam política, e o líder era Alejandro Gómez Arias, que também era o namorado dela.

No pátio da Preparatória ela viu um pintor trabalhando. Diego Rivera passava o dia no andaime do Anfiteatro Bolívar, terminando o primeiro mural encomendado pelo governo, e ela ficava olhando de baixo.

Desenho, para ela, era passatempo com utilidade. Fez estágio na oficina do gravador Fernando Fernández, que a pôs para copiar estampas a lápis, e o troco ajudava em casa.

Nenhum caderno dela daquela época tem quadro. Tem apontamento de anatomia, cópia de gravura e desenho de margem, o material de quem ia usar a mão para operar, não para pintar.

A vida que ela tinha em setembro de 1925 cabia numa frase: dezoito anos, vaga guardada na medicina, namorado e uma perna mais fina que a outra. Tudo aquilo foi decidido de novo numa esquina do centro, em menos de um minuto.

 
 

II  O Momento que Virou

O pó de ouro e o corrimão

O momento que virou não foi a batida. Foi uma cama de dossel com um espelho preso no forro e um cavalete de madeira que subia até o colo de quem não podia sentar.

Em 17 de setembro de 1925, no fim da tarde, Frida e Alejandro Gómez Arias pegaram um camión para voltar da escola. Tinham deixado passar o primeiro, porque ela voltou para procurar uma sombrinha, e entraram no seguinte.

Na esquina de Cuauhtemotzin com a Calzada de Tlalpan, um bonde elétrico da linha de Xochimilco atingiu o veículo de lado. O bonde não parou: empurrou a carroceria de madeira até ela ceder.

Um corrimão de ferro do próprio camión atravessou o corpo dela, entrou pelo quadril esquerdo e saiu do outro lado. Frida foi jogada para fora, sem roupa, porque a colisão rasgou tudo o que ela vestia.

A lista de fraturas ocupou o prontuário: coluna partida em três pontos da região lombar, clavícula quebrada, duas costelas, perna direita fraturada em onze lugares, pé direito esmagado, ombro esquerdo deslocado e pelve partida em três.

Um passageiro carregava um pacote de pó de ouro, material de pintor de parede, e o pacote se rompeu na batida. O pó cobriu o corpo dela no chão, e quem chegou primeiro gritou pela bailarina, achando que era gente de teatro.

Ela passou um mês no Hospital da Cruz Vermelha, num salão coletivo. A mãe ficou em choque e demorou semanas para visitar, e o pai adoeceu.

Em casa, em Coyoacán, começou a parte longa. Colete de gesso, imobilidade quase total e uma cama de dossel no quarto, com o corpo virado de hora em hora por quem estivesse por perto.

A mãe resolveu o problema do tédio com dois móveis. Mandou um marceneiro fazer um cavalete que se apoiava na cama e alcançava o colo, e prendeu um espelho no forro do dossel, no comprimento do corpo.

O espelho mudou a equação. Deitada, sem poder virar o pescoço mais que alguns graus, ela passou a ter diante dos olhos o único modelo disponível vinte e quatro horas por dia.

O pai entrou com o material. Emprestou a caixa de tintas a óleo que usava para colorir fotografia e os pincéis finos que ela já sabia manejar do tempo do laboratório.

O primeiro quadro saiu em 1926, aos 19 anos. Autorretrato com vestido de veludo, óleo sobre tela, pescoço alongado e mão comprida, pintado para Alejandro, que tinha se afastado depois do acidente.

A tela chegou com um pedido junto: que ele a pendurasse num lugar baixo, para poder olhá-la como se estivesse olhando para ela. Era presente e era argumento.

"Pinto autorretratos porque estou muito sozinha, e porque sou o motivo que conheço melhor."

Frida Kahlo, citada em Hayden Herrera, Frida: A Biography of Frida Kahlo, 1983

O plano da medicina não voltou. Ela não retomou a Preparatória, e a vaga que valia mais que qualquer coisa naquela casa deixou de ser assunto em menos de um ano. No lugar entrou uma rotina que cabia na cama.

A cama não foi o intervalo entre duas vidas. Foi o primeiro ateliê dela, montado com um espelho de armarinho, um cavalete de marceneiro e a caixa de tintas de um fotógrafo.

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III  O Que Ficou

Os 55 rostos que saíram do espelho

No quarto: a casa de Coyoacán virou Museu Frida Kahlo em 12 de julho de 1958, e a cama de dossel continua no lugar, com o espelho preso no forro.

Na obra: das cerca de 143 pinturas que ela deixou, 55 são autorretratos, mais de um terço de tudo o que assinou.

Na galeria: em abril de 1953, na primeira exposição individual dela no México, os médicos proibiram a saída de casa. Ela chegou de ambulância e a cama de dossel foi montada no meio da sala, onde recebeu os visitantes deitada.

O efeito imediato foi de método. Pintar deitada impôs formato pequeno, sessão curta e assunto que estivesse ao alcance do braço, e o autorretrato resolveu os três de uma vez.

A cama também virou tema. Hospital Henry Ford, de 1932, é uma cama de hospital flutuando num terreno vazio. Sem esperança, de 1945, mostra o cavalete armado sobre a própria cama.

Os coletes entraram no trabalho. Ela usou perto de 28 ao longo da vida, de gesso, couro e aço, e pintou sobre vários deles, transformando aparelho ortopédico em suporte de pintura.

O reconhecimento chegou antes do que se costuma contar. Em 1938 ela expôs em Nova York, na galeria de Julien Levy, e vendeu boa parte das obras. Em 1939 o Louvre comprou um autorretrato dela.

O preço veio muito depois. Em novembro de 2021, Diego e eu, pintado em 1949, saiu por 34,9 milhões de dólares na Sotheby's de Nova York, o maior valor já pago por uma obra latino-americana.

A conta física nunca parou de correr. Foram cerca de trinta cirurgias, internações longas e um corpo que piorou de década em década, com a perna direita amputada abaixo do joelho em 1953.

Ela partiu em 13 de julho de 1954, aos 47 anos, na mesma casa de Coyoacán, no quarto onde tinha aprendido a trabalhar deitada. A carreira inteira coube em 28 anos de pintura, quase todos com dor.

O que a história dela mudou foi a definição de ateliê. Ateliê era o lugar aonde o artista ia: sala com luz certa, cavalete de pé, modelo marcado para as três da tarde.

Depois dela, ateliê passou a ser o que cabe no alcance do braço. Um espelho, uma superfície inclinada e uma caixa de tinta bastam quando o corpo não vai a lugar nenhum.

O bonde tirou a medicina das mãos dela em menos de um minuto. Quem devolveu um ofício foi um espelho de armarinho preso no forro de uma cama.

"Que trabalho seu ainda espera uma sala inteira, quando já caberia no alcance do seu braço?"

 
 
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Quiz da edição

Além do espelho preso no forro do dossel, o que a mãe de Frida mandou um marceneiro fazer para a cama dela?

AUma mesa articulada com gaveta para tintas
BUm cavalete que se apoiava na cama e alcançava o colo
CUma prancheta presa por correias ao colchão
DUm suporte de metal para telas na vertical

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