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O escultor que amarrava as ferramentas às mãos
Em Congonhas, doze profetas em pedra sabão saíram de mãos sem dedos, com o cinzel preso ao punho por tiras de pano.
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Os profetas de pedra sabão em Congonhas
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No fim do século 18, Minas Gerais era a região mais rica e mais endividada da América portuguesa ao mesmo tempo.
O ouro das lavras estava minguando. As vilas que tinham nascido do aluvião nos anos 1700 chegaram à virada do século com a produção em queda, a Coroa cobrando quinto atrasado e uma população acostumada a gastar como se o veio nunca fosse acabar.
O dinheiro que sobrava não ia para palácio nem para praça pública. Ia para dentro das igrejas, e não das igrejas do bispo: das capelas erguidas por irmandades leigas, associações de fiéis que arrecadavam entre os próprios membros, contratavam obra e mandavam construir por conta.
Essas irmandades tinham cor e tinham ofício. Havia irmandade de homens brancos ricos, havia irmandade de pardos, havia irmandade de pretos, e cada uma queria a sua capela mais bem talhada que a da rua de cima, com contrato assinado, prazo, pagamento em oitavas de ouro e cláusula de risco.
Era um mercado de obra por encomenda, e ele sustentava um exército de gente com ofício manual: carpinteiro, entalhador, dourador, pintor de forro, canteiro de pedra. Um artífice bom não dependia de mecenas único, dependia de fila de contrato.
Nesse mercado, a matéria-prima local mandava no resultado. Faltava mármore, faltava a pedra dura da Europa, e sobrava uma rocha macia de tom esverdeado que aflorava nas encostas da região, mole o bastante para ser cortada com ferramenta comum e resistente o bastante para durar séculos ao relento.
Era também um mercado sem espaço para relato de gênio isolado. Obra grande saía de oficina com aprendiz, ajudante e mestre, e o nome que ia no recibo era o de quem assinava o contrato com a irmandade.
Foi dentro dessa engrenagem que apareceu um filho de carpinteiro português com uma mulher escravizada, que aprendeu o ofício no canteiro do próprio pai e passou a assinar as encomendas mais caras das Minas. Depois adoeceu, perdeu o uso das mãos e continuou trabalhando por quase trinta anos.
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I A Vida de Hoje
O filho do carpinteiro que virou o mestre mais caro das Minas
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Ele talhou doze profetas sem ter dedos. Veja como o filho de um carpinteiro virou o artífice mais caro das Minas.
Antônio Francisco Lisboa nasceu em Vila Rica, hoje Ouro Preto, por volta de 1730, filho do carpinteiro e mestre de obras português Manuel Francisco Lisboa com Isabel, mulher africana escravizada na casa dele.
A condição jurídica dele foi resolvida cedo. O pai o alforriou ainda criança, o que o colocava num lugar raro na sociedade mineira: homem pardo livre, com ofício herdado, dentro de uma economia em que quase todo trabalho manual era feito por gente escravizada.
O aprendizado veio no canteiro. Ele cresceu vendo o pai riscar planta de igreja, cortar madeira e tocar obra, e completou a formação com o entalhador João Gomes Batista e com o desenhista Francisco Xavier de Brito, que tinha trazido do Rio de Janeiro o repertório do barroco tardio português.
Não havia academia, e ele nunca cruzou o Atlântico. O repertório visual chegava por gravura, por livro de estampa vindo de Lisboa e de Anvers, e ele aprendia a compor cena e drapejado copiando figura impressa e transformando o desenho em volume.
O primeiro grande contrato apareceu ainda jovem. A partir da década de 1760 ele já aparece em documento de irmandade recebendo por risco de fachada, por portada em pedra e por talha de altar, e o nome dele começa a circular entre Vila Rica, Sabará e São João del-Rei.
A obra que fixou a reputação foi a igreja de São Francisco de Assis, em Vila Rica, começada em 1766. Ele assinou o risco geral, a portada de pedra sabão com o medalhão de São Francisco recebendo as chagas e boa parte da talha interna, num serviço que se estendeu por quase trinta anos.
O jeito de trabalhar dele quebrava a divisão comum do ofício. O costume era ter um homem para o risco, outro para a pedra, outro para a madeira e outro para o douramento. Ele riscava, cortava a pedra e entalhava a madeira, o que lhe dava controle raro sobre o resultado final.
O preço acompanhava a fama. Contratos do período mostram pagamento em oitavas de ouro bem acima do que recebia um entalhador comum, com adiantamento no começo da obra e parcela final na entrega, exatamente como se fazia com empreiteiro de confiança.
Ele também tinha oficina montada. Trabalhava com ajudantes fixos, entre eles os escravizados Maurício e Agostinho, que preparavam a pedra, desbastavam o bloco e adiantavam o serviço bruto até o ponto em que o mestre entrava com o acabamento.
Perto dos quarenta e cinco anos, a vida virou. Por volta de 1777 apareceram os primeiros sinais de uma doença degenerativa que os documentos da época descrevem por sintoma, e não por nome: perda de sensibilidade, deformação progressiva dos dedos, feridas que não fechavam.
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II O Momento que Virou
Congonhas, 1800, o cinzel preso ao punho
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Entre 1800 e 1805, no adro do santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, ele talhou doze profetas em pedra sabão com as ferramentas amarradas aos punhos por tiras de pano, porque já não tinha dedos capazes de segurá-las.
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A encomenda vinha de um voto. O minerador português Feliciano Mendes tinha prometido erguer um santuário se sarasse de uma doença grave, e o conjunto de Congonhas cresceu ao longo da segunda metade do século com dinheiro de esmola de romeiro.
O contrato dele ali tinha duas partes. Primeiro os sessenta e seis Passos da Paixão em cedro, feitos entre 1796 e 1799 e distribuídos por seis capelas no caminho de subida. Depois os profetas do adro, em pedra, a céu aberto, diante da escadaria.
A matéria escolhida era a pedra sabão da região, e a escolha não foi estética. É uma rocha macia, que aceita gubia e cinzel comuns, permite corte fino sem golpe de marreta e endurece com o tempo de exposição ao ar, o que a tornava a única saída para quem não tinha mais força de impacto nas mãos.
O relato do estado físico dele veio de um único lugar. Em 1858, o professor Rodrigo José Ferreira Bretas publicou em Ouro Preto os "Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa", primeira biografia do escultor, escrita a partir de conversas com a nora dele, Joana Lopes, e com gente que o tinha visto trabalhar.
Bretas descreveu o método de trabalho na fase final:
| Ferramenta cinzel e maceta atados aos punhos com tiras de couro e pano | | Dedos perda progressiva, com amputação espontânea nos últimos anos | | Locomoção carregado até a obra por ajudantes, em cadeira ou nos braços | | Horário entrada de madrugada, antes do movimento de romeiro no adro | | Assistência os ajudantes desbastavam o bloco, ele fazia o acabamento |
O resultado no adro não parece obra de mão limitada. Os doze profetas do Antigo Testamento estão dispostos na escadaria e no terraço em posições que dialogam entre si, cada um com filactério, cada um com uma torção de corpo que só faz sentido quando visto de baixo, do ponto em que o romeiro chega.
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"Fazia-se conduzir ao lugar do trabalho, onde, atados os instrumentos aos pulsos, trabalhava com o mesmo primor de outrora."
Rodrigo José Ferreira Bretas, Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa, 1858
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O trabalho durou cerca de cinco anos, e ele já passava dos setenta. Não era encomenda de estreia nem obra para construir reputação: a reputação estava feita havia trinta anos, e o dinheiro do santuário não era maior que o de contratos anteriores em Vila Rica.
A pedra sabão não foi acaso. Foi a única matéria que aceitava o corte de um homem sem dedos, e a escolha certa de material transformou uma limitação física em cinco anos de obra que ainda estão de pé no mesmo adro.
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