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ED 043

100% escolheram Tsutomu Yamaguchi. Aqui está.

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O engenheiro que estava nas duas cidades

Aos 29 anos, o projetista Tsutomu Yamaguchi terminava uma viagem de trabalho a Hiroshima quando o céu abriu, e voltou ferido para Nagasaki.

Mala de trabalho e carimbo pessoal sobre mesa de madeira, Hiroshima, 1945.

Hiroshima, 6 de agosto de 1945: a mala pronta

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Aos 29 anos, o engenheiro naval Tsutomu Yamaguchi desceu do bonde em Hiroshima na manhã de 6 de agosto de 1945, percebeu que havia deixado no alojamento o hanko (o carimbo pessoal com o sobrenome, que no Japão vale como assinatura em documento de trabalho) e refez o caminho de volta para buscá-lo.

Ele estava na cidade a serviço da Mitsubishi Heavy Industries, desenhando petroleiros no estaleiro local, e aquela era a última manhã de uma viagem de três meses. Com o carimbo no bolso, seguiu a pé por uma plantação de batata rumo ao trabalho, longe dos colegas com quem tinha viajado.

Às 8h15, um clarão branco tomou o céu inteiro. Yamaguchi estava a cerca de três quilômetros do ponto sob a explosão, viu a coluna de fumaça subir em forma de cogumelo, foi arremessado ao chão pelo deslocamento de ar e perdeu a audição de um ouvido. O lado esquerdo do rosto, o braço e parte do tronco ficaram queimados.

A palavra que o Japão criou para quem passou por aquilo é hibakusha, que traduz como pessoa atingida pela bomba, termo oficial que dá direito a atendimento médico vitalício do Estado japonês desde a lei de assistência de 1957. Yamaguchi entraria nessa lista duas vezes, por dois endereços diferentes, com três dias de intervalo.

Ele passou a noite num abrigo antiaéreo, achou os dois colegas de viagem vivos no dia seguinte e pegou um trem para casa com o rosto e o braço enfaixados. Casa ficava em Nagasaki, a 300 quilômetros dali, e era para lá que corriam também os poucos trens que ainda saíam da cidade destruída.

No escritório da Mitsubishi em Nagasaki, na manhã de 9 de agosto, o chefe ouviu a descrição e não acreditou numa palavra: uma bomba só, uma cidade inteira apagada, era delírio de homem com febre e curativo na cabeça. Yamaguchi ainda tentava explicar o clarão quando o mesmo clarão entrou pela janela.

A vida que o levou até aquela sala tinha começado 29 anos antes, no porto onde ele nasceu, aprendeu o ofício e desenhava navios que a guerra consumia mais rápido do que a prancheta dava conta.

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I  A Vida de Hoje

O projetista de petroleiros do estaleiro

Tsutomu Yamaguchi nasceu em 16 de março de 1916, em Nagasaki, cidade portuária do sudoeste japonês com tradição de construção naval e o único ponto do país que manteve contato comercial com europeus durante os séculos de isolamento.

Ele estudou desenho técnico e entrou na Mitsubishi Heavy Industries ainda jovem, no estaleiro da própria cidade, onde subiu de auxiliar de prancheta a projetista de petroleiros. O trabalho era calcular casco, tanque e estrutura de navios que levavam combustível para a frota japonesa.

Em casa, Yamaguchi vivia com a mulher, Hisako, e o filho pequeno, Katsutoshi, num bairro residencial de Nagasaki. A cidade já tinha sofrido bombardeios convencionais, e a família conhecia de cor o caminho até o túnel de abrigo do morro mais próximo.

A viagem a Hiroshima era serviço de rotina, e ele foi para lá com dois colegas do escritório, Akira Iwanaga e Kuniyoshi Sato, em maio de 1945, para acompanhar um projeto por três meses. Nenhum dos três tinha motivo para achar aquela cidade mais perigosa do que a que deixavam para trás.

Hiroshima abrigava quartel-general do Exército, porto militar e indústria de guerra, e nunca tinha recebido um bombardeio pesado. A ausência de ataque era assunto de conversa entre os moradores, que trocavam explicações improváveis para a calma, inclusive a de que parentes americanos de emigrantes teriam pedido para poupar a cidade.

O motivo real ficou conhecido depois. O comitê americano que escolhia alvos tinha reservado um punhado de cidades intactas para medir com precisão o efeito da arma nova, e Hiroshima estava na lista desde maio de 1945, protegida do fogo convencional justamente para servir de medida.

Yamaguchi passou o trimestre entre a prancheta e o alojamento da empresa. Terminado o projeto, marcou a volta para Nagasaki em 6 de agosto, arrumou a mala na véspera e combinou com Iwanaga e Sato o encontro na estação no fim do dia.

Foi a mala arrumada que causou o esquecimento: o carimbo pessoal ficou entre os papéis, fora do bolso de sempre, e Yamaguchi só notou a falta ao descer do bonde perto do estaleiro.

A caminhada de volta ao alojamento e o retorno custaram cerca de vinte minutos. Foram esses vinte minutos que o colocaram sozinho no meio de uma plantação, sem parede, sem telhado e sem vidro por perto, quando o avião B-29 Enola Gay abriu a escotilha sobre o centro da cidade.

 
 

II  O Momento que Virou

9 de agosto, 11h02, com o chefe de pé

O primeiro som depois do clarão foi o próprio silêncio dos ouvidos rompidos. Yamaguchi acordou caído entre as batatas, com a pele do braço esquerdo solta e o rosto queimado, e caminhou até o que restava do estaleiro procurando os colegas.

Encontrou Iwanaga e Sato vivos e feridos, e os três passaram a noite num abrigo antiaéreo improvisado nas encostas, ouvindo pedido de água de gente que não conseguia mais andar.

De manhã, o caminho até a estação exigiu cruzar um rio cuja ponte tinha sido levada. Yamaguchi passou por cima de uma fila de corpos que boiavam encostados uns nos outros e usou a superfície como passagem, cena que ele descreveria com as mesmas palavras em todas as entrevistas que daria seis décadas depois.

O trem chegou a Nagasaki na madrugada de 8 de agosto. Ele foi direto ao hospital da cidade, onde o médico de plantão era um colega de escola que não o reconheceu sob as bandagens, recebeu curativo no rosto e no braço e voltou para casa com febre alta.

No dia seguinte, 9 de agosto, com metade do rosto enfaixada e febre ainda subindo, Yamaguchi se apresentou ao escritório da Mitsubishi. Faltar ao trabalho depois de uma viagem de serviço não passava pela cabeça de um funcionário japonês em tempo de guerra, e ele tinha relatório para entregar.

O diretor da divisão o recebeu de pé, ouviu o relato do clarão e da cidade apagada e reagiu com irritação. Uma bomba única capaz de destruir Hiroshima inteira soava a invenção de homem ferido, e ele disse ao funcionário, em voz alta na sala, que aquilo era conversa de quem bateu a cabeça.

Às 11h02 a janela ficou branca. O segundo artefato explodiu sobre o vale de Urakami, a pouco mais de três quilômetros dali, e a onda de pressão arrancou o vidro, derrubou o forro e jogou Yamaguchi no chão com as bandagens ainda no lugar.

Ele saiu do prédio sem ferimento novo e atravessou a cidade a pé procurando a família. A casa estava parcialmente destruída, sem sinal de Hisako nem de Katsutoshi, e a busca durou o resto do dia entre escombros e vizinhos que também procuravam gente.

A mulher e o filho apareceram no fim da tarde, vivos, e o motivo da sobrevivência foi um acaso administrativo: Hisako tinha saído com o menino para procurar pomada de queimadura no posto do bairro, e a explosão os pegou dentro de um túnel de abrigo, protegidos por metros de rocha.

A semana seguinte foi de doença. Yamaguchi teve febre de quarenta graus, perdeu o cabelo, vomitou sem parar e ficou com as queimaduras infeccionadas, sintomas do que os médicos japoneses começavam a chamar de doença da bomba atômica e que hoje se descreve como síndrome aguda da radiação.

Yamaguchi ouviu deitado, enrolado em cobertor e tremendo de febre, o rádio anunciar em 15 de agosto a rendição do Japão na voz do imperador Hirohito.

 

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III  O Que Ficou

O papel que só chegou em 2009

A recuperação levou meses, e o Japão do pós-guerra não oferecia repouso a ninguém. Yamaguchi trabalhou como tradutor para as forças de ocupação americanas, dando conta do inglês que tinha aprendido no ofício, e depois virou professor de escola antes de voltar ao estaleiro da Mitsubishi como engenheiro.

A família cresceu no mesmo endereço: além de Katsutoshi, vieram as filhas Naoko e Toshiko, todos criados em Nagasaki. Os três filhos nasceram de pais registrados como hibakusha e carregaram a condição nos documentos, com acompanhamento médico previsto por lei.

Yamaguchi ficou calado sobre as duas manhãs por quase sessenta anos. Ele falava do assunto dentro de casa e quase nunca fora dela, em parte porque sobrevivente de bomba atômica enfrentava discriminação no Japão, com gente sendo recusada em emprego e em casamento sob suspeita de doença hereditária.

O que ele fez com a experiência, nesse período, foi escrever. Yamaguchi compôs tanka, forma japonesa de poema curto em cinco versos com métrica fixa, e publicou os versos em coletâneas de sobreviventes, onde descrevia o clarão, a ponte e a busca pela família sem assinar depoimento público.

A decisão de falar em voz alta veio depois de uma perda dentro de casa: Katsutoshi, o filho que sobreviveu à explosão de Nagasaki dentro do túnel, teve câncer e não resistiu, em 2005, aos 59 anos. Hisako, a mulher, seguiu o mesmo caminho em 2008, aos 88, com câncer de fígado e de rim atribuído à exposição.

A partir de 2006, já com 90 anos, Yamaguchi passou a dar entrevista, a receber jornalista em casa e a participar do documentário japonês que tratava dos atingidos pelas duas explosões, dirigido por Hidetaka Inazuka. O material foi exibido em Nova York, numa sessão ligada à agenda de desarmamento das Nações Unidas.

O reconhecimento oficial chegou em 24 de março de 2009, quando o governo japonês certificou Yamaguchi, então com 93 anos, como sobrevivente das duas explosões, categoria que ninguém mais recebeu por escrito. Historiadores japoneses calculam entre cem e duzentas pessoas nas duas cidades naquela semana, conta que nunca fechou porque a maioria morreu antes de qualquer registro.

O papel mudou pouco na vida prática dele, que já recebia atendimento como atingido em Nagasaki, e mudou muito no alcance da voz: o diretor americano James Cameron esteve com ele em dezembro de 2009 para discutir um projeto sobre armas nucleares.

Yamaguchi morreu em 4 de janeiro de 2010, aos 93 anos, em Nagasaki, de câncer no estômago, depois de um último ano dando depoimento em cadeira de rodas.

O que ficou do caso não é curiosidade estatística. É o registro em primeira pessoa de que as duas explosões, tratadas na história como dois episódios separados de agosto de 1945, couberam na semana de trabalho de um único engenheiro que só queria entregar um relatório e voltar para casa.

"Quanto da sua semana você contaria, se alguém finalmente perguntasse?"

Yamaguchi explicou em 2009 por que tinha resolvido falar tão tarde: "Tendo passado por duas bombas atômicas e sobrevivido, é meu destino falar sobre as duas."

 
 
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Quiz da edição

Na manhã de 6 de agosto de 1945, o que Yamaguchi esqueceu no alojamento e voltou para buscar antes de seguir a pé pela plantação de batata?

AA carteira com os documentos pessoais
BO hanko, o carimbo com o sobrenome
CO passaporte da viagem a Hiroshima
DOs óculos usados na prancheta

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