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A recuperação levou meses, e o Japão do pós-guerra não oferecia repouso a ninguém. Yamaguchi trabalhou como tradutor para as forças de ocupação americanas, dando conta do inglês que tinha aprendido no ofício, e depois virou professor de escola antes de voltar ao estaleiro da Mitsubishi como engenheiro.
A família cresceu no mesmo endereço: além de Katsutoshi, vieram as filhas Naoko e Toshiko, todos criados em Nagasaki. Os três filhos nasceram de pais registrados como hibakusha e carregaram a condição nos documentos, com acompanhamento médico previsto por lei.
Yamaguchi ficou calado sobre as duas manhãs por quase sessenta anos. Ele falava do assunto dentro de casa e quase nunca fora dela, em parte porque sobrevivente de bomba atômica enfrentava discriminação no Japão, com gente sendo recusada em emprego e em casamento sob suspeita de doença hereditária.
O que ele fez com a experiência, nesse período, foi escrever. Yamaguchi compôs tanka, forma japonesa de poema curto em cinco versos com métrica fixa, e publicou os versos em coletâneas de sobreviventes, onde descrevia o clarão, a ponte e a busca pela família sem assinar depoimento público.
A decisão de falar em voz alta veio depois de uma perda dentro de casa: Katsutoshi, o filho que sobreviveu à explosão de Nagasaki dentro do túnel, teve câncer e não resistiu, em 2005, aos 59 anos. Hisako, a mulher, seguiu o mesmo caminho em 2008, aos 88, com câncer de fígado e de rim atribuído à exposição.
A partir de 2006, já com 90 anos, Yamaguchi passou a dar entrevista, a receber jornalista em casa e a participar do documentário japonês que tratava dos atingidos pelas duas explosões, dirigido por Hidetaka Inazuka. O material foi exibido em Nova York, numa sessão ligada à agenda de desarmamento das Nações Unidas.
O reconhecimento oficial chegou em 24 de março de 2009, quando o governo japonês certificou Yamaguchi, então com 93 anos, como sobrevivente das duas explosões, categoria que ninguém mais recebeu por escrito. Historiadores japoneses calculam entre cem e duzentas pessoas nas duas cidades naquela semana, conta que nunca fechou porque a maioria morreu antes de qualquer registro.
O papel mudou pouco na vida prática dele, que já recebia atendimento como atingido em Nagasaki, e mudou muito no alcance da voz: o diretor americano James Cameron esteve com ele em dezembro de 2009 para discutir um projeto sobre armas nucleares.
Yamaguchi morreu em 4 de janeiro de 2010, aos 93 anos, em Nagasaki, de câncer no estômago, depois de um último ano dando depoimento em cadeira de rodas.
O que ficou do caso não é curiosidade estatística. É o registro em primeira pessoa de que as duas explosões, tratadas na história como dois episódios separados de agosto de 1945, couberam na semana de trabalho de um único engenheiro que só queria entregar um relatório e voltar para casa.
"Quanto da sua semana você contaria, se alguém finalmente perguntasse?"
Yamaguchi explicou em 2009 por que tinha resolvido falar tão tarde: "Tendo passado por duas bombas atômicas e sobrevivido, é meu destino falar sobre as duas."
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