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O cocheiro alforriado que virou general aos quarenta e oito
Em Saint-Domingue, Toussaint Louverture comandou o exército dos escravizados, promulgou constituição própria e terminou preso num forte francês.
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Planície do Norte, Saint-Domingue, 1791
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Aos 48 anos, o cocheiro alforriado Toussaint Bréda deixou a fazenda de cana onde tinha nascido cativo, no norte de Saint-Domingue, e entrou na guerra que os escravizados da colônia tinham aberto em agosto de 1791 queimando plantação atrás de plantação.
A ilha que ele atravessou era a peça mais valiosa do império francês. O historiador C. L. R. James, em Os Jacobinos Negros (1938), descreve uma colônia com cerca de meio milhão de pessoas escravizadas para pouco mais de trinta mil brancos, movida a açúcar, café e importação constante de cativos vindos da África.
A conta demográfica explicava o medo dos senhores e a violência do sistema. Trabalhador cortando cana no calor do Caribe rendia poucos anos de vida útil, e o negócio se sustentava repondo gente pelo porto do Cabo Francês.
Quando a Revolução Francesa chegou à ilha, cada grupo leu a Declaração dos Direitos do Homem do seu jeito: os grandes proprietários brancos quiseram autonomia comercial, os livres de cor pediram igualdade civil, e quem trabalhava sob chicote entendeu que a palavra liberdade estava em circulação e podia ser cobrada.
O levante começou na noite de 22 de agosto de 1791, na planície do Norte. Em poucas semanas, centenas de engenhos viraram cinza e milhares de pessoas armadas com facão e ferramenta de roça controlavam a região agrícola mais rica das Américas.
Toussaint não estava entre os primeiros a pegar em armas. Ele era alforriado havia mais de dez anos, tinha família, sabia ler, cuidava dos animais e das ervas medicinais da fazenda Bréda, e entrou depois, quando já dava para enxergar que aquele fogo não ia se apagar sozinho.
O que ele trouxe para a revolta foi organização. Transformou bandos em batalhões com hierarquia, disciplina de marcha e cadeia de suprimento, aprendeu tática lendo tratados militares franceses e passou a negociar com Espanha, Inglaterra e França conforme cada aliança rendesse mais liberdade garantida no papel.
Em uma década, o mesmo homem que conduzia carruagem passou a general de divisão do exército francês, expulsou duas potências europeias da ilha, tomou a parte espanhola e assinou uma constituição que o nomeava governador vitalício.
A história começa numa fazenda de açúcar do Cabo Francês, com um menino que ninguém esperava ver adulto.
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I A Vida de Hoje
O cocheiro de Bréda que sabia ler
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Ele nasceu por volta de 1743 na fazenda Bréda, perto do Cabo Francês, filho de Hippolyte, homem trazido do reino de Alada, na costa do golfo do Benim, e de Pauline. A família guardou nome, língua e memória de origem dentro do regime de cativeiro do açúcar.
Criança franzina e doente, ganhou o apelido de Fatras Bâton, algo como graveto imprestável, e chegou à idade adulta cuidando de gado e cavalos, longe do corte de cana que matava a maior parte dos homens da fazenda antes dos quarenta.
O trabalho com animais lhe deu duas coisas raras: circulação pela colônia e tempo. Ele levava recado, conduzia carruagem, conhecia estrada, atalho e vau de rio da planície do Norte inteira, e essa geografia guardada na cabeça virou vantagem militar vinte anos depois.
Aprendeu a ler e escrever em francês, decorou trechos de textos religiosos e teve acesso a livros da casa-grande. Também aprendeu com a mãe e com curandeiros da fazenda o uso de plantas medicinais, ofício que exercia entre os cativos e que lhe rendeu autoridade dentro da senzala.
O administrador Bayon de Libertat lhe concedeu a alforria por volta de 1776, quando Toussaint tinha uns trinta e três anos. Ele continuou trabalhando na mesma propriedade, agora como homem livre assalariado, e passou a acumular pequeno patrimônio.
A vida de liberto na colônia tinha contornos duros de encarar. Documentos de cartório mostram que ele arrendou terra com café e chegou a explorar trabalho de pessoas escravizadas, condição comum entre os libertos com algum recurso naquela sociedade.
Casou-se com Suzanne Simon Baptiste, criou os filhos Placide, Isaac e Saint-Jean, frequentou a igreja católica e construiu uma reputação de homem sério e discreto, alguém que os brancos consideravam confiável e os cativos consideravam dos seus.
Quando a revolta estourou em 1791, a primeira providência dele foi proteger a família de Bayon de Libertat, embarcando o antigo administrador para os Estados Unidos antes de se juntar aos insurgentes. Depois disso, adotou o nome Louverture, a abertura, e nunca mais voltou a assinar Bréda.
Foi com esse nome novo, aos quase cinquenta anos, que ele entrou na disputa que decidiria o destino da colônia mais rica do mundo.
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II O Momento que Virou
A constituição de julho de 1801
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Em 7 de julho de 1801, uma assembleia de dez homens escolhidos por ele promulgou no Cabo Francês uma constituição para Saint-Domingue que abolia a escravidão para sempre, declarava todos os habitantes livres e franceses, e nomeava Toussaint Louverture governador por toda a vida, com direito de indicar o sucessor.
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O caminho até aquele documento levou dez anos de guerra em três frentes. Em 1793, Toussaint servia ao rei da Espanha, que armava insurgentes contra a França revolucionária e dava patente militar a quem trouxesse tropa.
A virada veio no ano seguinte. A Convenção Nacional aboliu a escravidão em todas as colônias francesas em 4 de fevereiro de 1794, e Toussaint trocou de lado com seus batalhões, passando a combater os antigos aliados espanhóis em nome da república que tinha assinado a abolição.
Contra os ingleses, desembarcados na ilha desde 1793, ele conduziu cinco anos de campanha de desgaste. O clima ajudou, com febre amarela dizimando regimentos europeus, mas foi a tática de emboscada em terreno conhecido que empurrou os britânicos para os portos.
O general Thomas Maitland assinou a evacuação em 1798 e negociou diretamente com Toussaint, sem passar por Paris, um acordo comercial que dava à Inglaterra acesso aos portos da colônia. Um ex-escravizado tratava de igual para igual com o império mais poderoso do mar.
Sobrou a disputa interna. Entre 1799 e 1800, a chamada Guerra das Facas opôs Toussaint ao general André Rigaud, que comandava o sul e representava a elite de livres de cor. A vitória lhe entregou a colônia inteira, e em janeiro de 1801 ele marchou sobre a parte espanhola da ilha e aboliu a escravidão também lá.
Com o território unificado, ele montou um governo com quatro compromissos declarados:
| Liberdade irreversível nenhuma pessoa nascida ou chegada ao território voltaria à condição de propriedade, e a constituição registrava que ali só existiam cidadãos
- Produção mantida: as fazendas de açúcar e café continuariam funcionando, agora com trabalhadores assalariados presos ao contrato e à propriedade onde serviam
- Ordem sem vingança: proprietários brancos foram convidados a voltar e recuperar suas terras, desde que aceitassem o novo estatuto do trabalho
- Autonomia sem ruptura: a colônia seguia francesa no papel, com bandeira e nome da França, e legislava sozinha sobre tudo o que acontecia dentro dela |
O regime de trabalho compulsório nas fazendas cobrou caro em legitimidade. Quem tinha derrubado o chicote em 1791 se viu obrigado a plantar cana sob vigilância militar, e a revolta do próprio sobrinho de Toussaint, o general Moïse, em outubro de 1801, terminou com Moïse fuzilado.
Em Paris, Napoleão Bonaparte leu a constituição de julho como declaração de independência disfarçada. Um governador vitalício que legislava sem consultar a metrópole e recebia embaixador estrangeiro não cabia no projeto de império que o Primeiro Cônsul montava para o Atlântico.
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"Não é uma liberdade de circunstância, concedida só a nós, que queremos: é a adoção absoluta do princípio de que nenhum homem, nascido vermelho, negro ou branco, pode ser propriedade de seu semelhante."
Toussaint Louverture, carta ao Diretório Executivo francês, novembro de 1797
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