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ED 007

O capuz que Garrett Morgan levou ao túnel

Na madrugada de 25 de julho de 1916, com homens presos no túnel sob o lago Erie, um alfaiate de Cleveland desceu com um capuz de lona.

Um capuz de lona com dois tubos compridos sobre a mesa de uma oficina, à luz de lâmpada, antes do amanhecer.

O capuz de lona e os tubos, prontos sobre a mesa

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Em 1916, Cleveland bebia direto do lago Erie. Para pegar água limpa, longe do esgoto que a própria cidade despejava na margem, a prefeitura cavava túneis por baixo do fundo do lago até torres de captação chamadas cribs, plantadas a quilômetros da costa.

Cada crib era uma ilha de concreto e madeira, com alojamento, guindaste e um poço vertical por onde tudo descia. Turno após turno, os homens desciam no começo do dia e subiam com a roupa encharcada, pelo mesmo elevador que servia de única saída.

O trabalho era de picareta, dinamite e ar comprimido. Lá embaixo o túnel virava um tubo estreito, escavado a cerca de setenta e cinco metros abaixo da superfície da água, iluminado por lâmpada e ventilado por bomba ligada à plataforma.

A rocha do fundo do lago guarda bolsões de gás natural. A escavação abre a pedra, o gás escapa por onde encontra caminho, e num tubo fechado ele se acumula em minutos. Bastava uma faísca no lugar errado.

Depois de uma explosão dentro de um túnel, o que sobra é fumaça sem para onde ir. O ar quente empurra a fuligem para o alto, o gás se espalha pelo corredor inteiro, e a única saída fica a centenas de metros de quem está no fundo.

Em 1916, nenhum corpo de bombeiros americano tinha equipamento de respiração confiável. O método em uso era pano molhado no rosto e fôlego preso, e quem entrava assim para buscar um companheiro costumava precisar de resgate também.

Havia uma física a favor de quem soubesse usá-la. Fumaça sobe, e a camada de ar mais limpa fica rente ao chão. Um capuz com tubos compridos, puxando ar de baixo, resolvia o problema no papel desde 1914.

A vida de hoje é a de um homem de 39 anos, dono de uma alfaiataria em Cleveland, que tinha a patente desse capuz na gaveta, uma medalha de ouro na parede e quase nenhum pedido no livro-caixa.

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I  A Vida de Hoje

Da agulha quente ao capuz de lona

Ele consertava máquina de costura em Cleveland e tinha uma patente de capuz de segurança na gaveta. Veja o que a invenção fez numa madrugada de julho de 1916.

Garrett Augustus Morgan estudou até a sexta série e nunca mais sentou numa sala de aula. O resto ele aprendeu desmontando máquina alheia.

Nasceu em Claysville, no Kentucky, em 4 de março de 1877, filho de Sydney Morgan e Elizabeth Reed, os dois libertos da escravidão, um de onze filhos numa casa que vivia da lavoura.

Aos catorze anos pegou a estrada para Cincinnati, em Ohio, e arrumou trabalho de faz-tudo na casa de um proprietário rico. Com o salário contratou um tutor particular.

Em 1895, aos dezoito, chegou a Cleveland. Entrou numa fábrica de roupa como consertador de máquina de costura e aprendeu o ofício abrindo o equipamento peça por peça, até entender por que cada uma emperrava.

Em 1907 abriu a própria oficina de conserto. No ano seguinte casou com Mary Anne Hassek, costureira nascida na Baviera, e em 1909 montou uma alfaiataria que chegou a empregar 32 pessoas.

A primeira invenção veio de um defeito de oficina. A agulha girava rápido demais e chamuscava o tecido de lã, e ele passou meses testando líquido para reduzir o atrito da ponta.

O líquido fez outra coisa. Ao cair sobre o pelo do tecido, alisou a fibra, e o teste seguinte foi no pelo de um cão do vizinho. Dali saiu o creme alisante que ele vendeu por anos.

Quem passa o dia perto de tecido queimado conhece fumaça. Em 1912 ele depositou o pedido de patente de um capuz de segurança, e o registro saiu em 13 de outubro de 1914, sob o número 1.113.675.

O desenho era simples de explicar. Um capuz de lona cobria a cabeça inteira, e dois tubos compridos desciam pelas costas até a altura do chão, onde a fumaça de um incêndio ainda não tinha chegado.

A entrada de ar levava uma esponja úmida, que segurava a fuligem grossa e resfriava o ar antes de ele chegar à boca. O segundo tubo expulsava o ar usado, por uma válvula simples.

O invento ganhou prêmio. Na Segunda Exposição Internacional de Saneamento e Segurança, em Nova York, em 1914, o capuz levou a medalha de ouro do grande prêmio.

Ele montou a National Safety Device Company para vender o equipamento e saiu demonstrando o capuz em quartel de bombeiro e feira de segurança pelo país.

A venda não acompanhou. Corpo de bombeiros testava, elogiava e comprava uma unidade ou nenhuma, e o estoque continuava no galpão enquanto a empresa dependia de um pedido grande que não chegava.

A vida que ele tinha em julho de 1916 cabia numa frase: 39 anos, uma alfaiataria funcionando, uma patente premiada e um capuz que quase ninguém tinha visto operar fora de uma demonstração armada.

 
 

II  O Momento que Virou

O chamado das três da manhã

O momento que virou não foi o dia em que a patente saiu. Foi um telefonema de madrugada, com o pedido para descer num túnel de onde duas turmas de resgate já não tinham voltado.

Na noite de 24 de julho de 1916, a escavação do túnel do crib número 5 da captação de Cleveland atingiu um bolsão de gás natural, a cerca de oito quilômetros lago adentro.

A explosão correu pelo corredor a setenta e cinco metros abaixo da superfície, apagou as lâmpadas, derrubou parte do escoramento e encheu o tubo de fumaça e gás.

Havia turma trabalhando quando aconteceu. Parte dos homens ficou presa no fundo, sem luz e sem ar respirável, longe demais da boca do poço para vencer a distância prendendo a respiração.

O primeiro grupo de resgate desceu sem proteção nenhuma, com pano no rosto. Não voltou. Um segundo grupo desceu atrás do primeiro e teve o mesmo fim, e a conta de quem estava lá embaixo só aumentava.

Já de madrugada, alguém na plataforma lembrou de uma demonstração vista dois anos antes: um alfaiate da cidade que entrava num galpão cheio de fumaça com um capuz de lona e saía andando.

O telefone tocou na casa dele por volta das três da manhã de 25 de julho. Garrett e o irmão Frank chegaram ao cais com os capuzes debaixo do braço, e os relatos da época dizem que chegaram de roupa de dormir.

Os dois vestiram o equipamento com mais dois voluntários e desceram na gaiola do elevador, sem saber quanto do túnel ainda estava de pé nem quanto gás restava.

"O objetivo da minha invenção é fornecer um dispositivo portátil que permita a um bombeiro entrar numa casa tomada por gases sufocantes e fumaça densa, e respirar livremente por algum tempo lá dentro."

Garrett A. Morgan, patente Breathing Device n. 1.113.675, 1914

Dentro do túnel o capuz fez o que estava escrito na patente. Os tubos puxavam ar da camada rente ao chão e dava para andar de pé onde ninguém tinha conseguido chegar.

Ele voltou à superfície com um homem nas costas e desceu de novo. As viagens se repetiram enquanto houve gente para trazer.

As contagens da época divergem. A versão mais repetida credita a ele dois homens tirados vivos, e o trabalho de recuperação seguiu por dias, com um total de vinte e uma pessoas que não voltaram do fundo.

O reconhecimento veio torto. A lista oficial de homenagens da cidade saiu sem o nome dele, e a comissão do fundo Carnegie, que premiava atos de heroísmo, negou a medalha que ele chegou a pleitear.

Um grupo de moradores de Cleveland juntou dinheiro e mandou fazer uma medalha de ouro cravejada de diamante. A associação internacional dos chefes de bombeiro o tornou membro honorário.

O capuz não ficou pronto naquela madrugada, estava pronto desde 1914, guardado num galpão sem pedido. O que mudou foi um túnel obrigar a cidade a usar o que já tinha à mão.

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III  O Que Ficou

Big Chief Mason e a tenda de fumaça

No mercado: os jornais de 1916 puseram o capuz na primeira página, e o pedido de corpo de bombeiros do país inteiro apareceu, com a ação da empresa saindo de dez dólares para algumas centenas em poucos anos.

No balcão: assim que o comprador do Sul descobria que o inventor era um homem negro, o pedido era cancelado, e o representante voltava para Cleveland com a encomenda desfeita.

Na tenda: Morgan resolveu o problema pela encenação, contratou um ator branco para se apresentar como o inventor e entrava em cena como ajudante, um personagem indígena chamado Big Chief Mason.

A demonstração era sempre a mesma. Montavam uma tenda de lona, acendiam dentro uma mistura de piche, enxofre e esterco até o ar ficar irrespirável, e o ajudante de capuz entrava.

Ele ficava vinte minutos lá dentro e saía andando. A plateia aplaudia, assinava o pedido de compra e apertava a mão do ator, que não sabia consertar uma máquina de costura.

Em 1920 fundou o jornal Cleveland Call, voltado à comunidade negra da cidade, que continuou circulando por décadas com outro nome.

Em 1923 saiu a patente do sinal de trânsito de três posições, com a parada geral entre o siga e o pare, sob o número 1.475.024. A ideia veio depois de ele ver uma batida feia num cruzamento.

Vendeu o direito para a General Electric por quarenta mil dólares e registrou o invento também na Grã-Bretanha e no Canadá. Foi um dos primeiros donos de automóvel negros de Cleveland.

Com o dinheiro comprou terra em Wakeman, no interior de Ohio, e tentou erguer ali um clube de campo para famílias negras, que não eram aceitas em clube nenhum da região.

Em 1943 um glaucoma tirou quase toda a visão dele. Passou os últimos vinte anos enxergando pouco, ainda respondendo carta sobre patente.

Em 1963 o governo americano emitiu uma citação oficial reconhecendo o sinal de trânsito. Ele partiu em 27 de julho daquele ano, aos 86, semanas antes da cerimônia em Chicago onde seria homenageado.

O princípio do capuz não saiu de circulação. Respirar da camada de baixo, filtrar por meio úmido e carregar o próprio ar virou base do equipamento que bombeiro usa até hoje, em versão de cilindro.

A descida no túnel do lago Erie ficou nos registros como o primeiro uso de peso daquele equipamento numa emergência de verdade, longe da tenda de demonstração.

A invenção levou o nome dele na patente e a plateia aplaudiu outro homem. O que ficou não foi a encenação, foi o capuz que continuou tirando gente de dentro da fumaça depois que o ator saiu de cena.

"O que você já terminou e guardou por falta de plateia continua sem valor, ou está só esperando a noite em que alguém vai precisar?"

 
 
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Na madrugada de 25 de julho de 1916, o que Garrett Morgan levou para dentro do túnel sob o lago Erie?

AUm cilindro de oxigênio comprimido nas costas
BUm capuz de lona com tubos que puxavam ar rente ao chão
CUma máscara de borracha com filtro de carvão
DUm ventilador movido a vapor ligado à plataforma

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