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ED 034
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O bote de sete metros que cruzou 1.480 quilômetros de mar aberto atrás de socorro

Em abril de 1916, seis homens deixaram a Ilha Elefante num salva-vidas remendado e apontaram para uma ilha invisível a 17 dias de distância.

O bote James Caird enfrentando ondas altas no oceano Antártico, em 1916.

Ilha Elefante, 1916: o bote deixa a praia

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Em 24 de abril de 1916, aos 42 anos, o explorador anglo-irlandês Ernest Shackleton empurrou um salva-vidas de sete metros para dentro da arrebentação da Ilha Elefante, no extremo norte da península antártica, e subiu a bordo com cinco tripulantes e mantimento para quatro semanas.

O destino ficava a 800 milhas náuticas, cerca de 1.480 quilômetros, a leste nordeste. Era a Geórgia do Sul, ilha montanhosa onde as estações baleeiras norueguesas tinham navio, carvão, rádio e gente capaz de organizar um resgate. No caminho havia a passagem de Drake, o trecho de oceano onde o vento circumpolar dá a volta no mundo sem encontrar terra que o segure.

A alternativa era pior. A Ilha Elefante era uma faixa de pedra sem vegetação, fora de qualquer rota de navegação, onde ninguém procuraria porque ninguém sabia que havia alguém ali. O inverno austral estava chegando e o mar em volta congelaria em algumas semanas, fechando a saída até a primavera seguinte.

Ficaram na praia 22 homens, abrigados sob dois botes virados de boca para baixo e calafetados com pano e pedra. Comiam pinguim e foca, derretiam neve em latas e mantinham vigia diária no horizonte. Shackleton deixou o comando com Frank Wild e disse a ele para tocar a rotina como se a volta fosse questão de dias.

O barco escolhido chamava-se James Caird, batizado em homenagem ao industrial escocês que financiou a expedição. Media 6,9 metros de comprimento, era aberto no convés e fora projetado para levar gente de um navio até a praia, não para atravessar oceano nenhum. Shackleton contou na obra South, publicada em 1919, que carregou pedra como lastro e mandou levar comida para um mês, sem estoque para o caso de erro de navegação.

Um mês era o prazo que o cálculo permitia. Se em quatro semanas o bote não tivesse achado a Geórgia do Sul, não teria comida para procurar de novo nem para voltar, e os 22 da praia esperariam por um socorro que nunca sairia do lugar.

A escolha dos cinco homens que entraram no bote com ele obedeceu a um critério que Shackleton nunca escondeu, e um deles foi levado justamente por ser um problema em terra.

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I  A Vida de Hoje

Os cinco escolhidos e o carpinteiro que remendou o barco

Ele nasceu em Kilkea, no condado irlandês de Kildare, em 15 de fevereiro de 1874, filho de um médico que mudou a família para Londres quando o menino tinha dez anos. Entrou na marinha mercante aos 16, chegou a oficial e já era veterano de duas campanhas polares quando a Expedição Transantártica Imperial partiu de Plymouth em agosto de 1914.

A expedição levava 28 homens e um plano de atravessar o continente a pé. O plano acabou antes de começar, e em abril de 1916 o objetivo tinha virado outro: tirar 28 homens vivos de uma parte do mundo onde não existia ajuda.

Para a travessia, Shackleton escolheu cinco: o capitão Frank Worsley, neozelandês e navegador da expedição; o segundo oficial Tom Crean, irlandês de Kerry, veterano das campanhas de Scott; o marinheiro Timothy McCarthy; o carpinteiro Harry McNish; e o pescador John Vincent.

Worsley entrou pelo motivo óbvio. Era o único capaz de achar uma ilha de 170 quilômetros de comprimento no meio de um oceano usando sextante, cronômetro e tabelas, com o horizonte encoberto quase o tempo todo.

Crean entrou por dureza física comprovada. Em 1912, na Antártida, ele tinha caminhado 56 quilômetros sozinho no gelo, com três biscoitos e duas barras de chocolate, para buscar socorro para dois companheiros imobilizados.

McNish entrou por ofício. Carpinteiro naval escocês, foi ele quem transformou o salva-vidas numa embarcação de alto-mar com o que sobrara do naufrágio: levantou as bordas com tábuas tiradas de outro bote, montou um convés improvisado com madeira de caixote e lona de trenó, e vedou tudo com tinta a óleo, sangue de foca e as poucas gramas de material de calafetagem que restavam.

McNish e Vincent entraram por um segundo motivo. Os dois tinham dado trabalho no acampamento, o carpinteiro a ponto de recusar ordens durante a marcha sobre o gelo, e Shackleton preferiu levá-los debaixo do próprio olho a deixá-los com Wild e os outros vinte.

A carga era mínima e calculada. Trinta pedras de lastro, dois barris de água, mantimento seco, um fogareiro de querosene, quatro sacos de dormir de pele de rena e dois cronômetros, dos 24 que a expedição levara ao partir da Inglaterra, os únicos que ainda marcavam hora confiável.

 
 

II  O Momento que Virou

As quatro leituras de sol que acertaram uma ilha invisível

Worsley conseguiu medir a posição do sol quatro vezes em 17 dias de mar. No resto do percurso, a navegação foi estimativa: rumo de bússola, velocidade calculada no olho e correção de deriva feita de cabeça, num barco que jogava tanto que o navegador precisava ser segurado pela cintura por dois homens para conseguir apontar o sextante.

O convés improvisado não vedava. A água entrava por cima a cada onda, congelava sobre a lona e sobre os cabos, e a cada poucas horas alguém precisava sair com um machadinho para picar o gelo, porque o peso acumulado no alto empurrava o barco para virar de quilha.

Dentro, ninguém ficava seco. Os sacos de pele de rena apodreciam e soltavam pelo, os homens revezavam turnos de quatro horas deitados sobre as pedras de lastro, e ferver água no fogareiro exigia dois deles equilibrando a panela com as mãos enquanto o terceiro cozinhava.

A rotina dos 17 dias funcionava assim:

Turnos de quatro horas  três homens no leme, na vela e na bomba, três deitados na proa, sem que o descanso significasse sono de verdade
Refeição quente a cada quatro horas  guisado de ração seca com banha, o único calor disponível a bordo
Leitura de posição quando o céu abria  Worsley emergia do buraco do convés, dois seguravam ele, e o resultado ia para o caderno em segundos
Degelo permanente  raspar a crosta do convés e dos cabos antes que o peso comprometesse a estabilidade

No quinto dia, Vincent parou de ser útil. O reumatismo travou o corpo dele e reduziu a tripulação operante a cinco, com Shackleton assumindo turno de leme como qualquer outro.

No décimo primeiro dia veio a onda. Shackleton descreveu a cena em South e registrou ali a frase que definiu o episódio.

"Em vinte e seis anos de experiência do oceano em todos os seus humores, eu nunca havia encontrado uma onda tão gigantesca."

Ernest Shackleton, South, 1919

O barco foi enterrado, tremeu e voltou à tona com água pela borda. Os seis passaram a hora seguinte esvaziando o casco com panelas e com a bomba de mão até tirar peso suficiente para navegar de novo.

Em 8 de maio, Worsley avistou terra: penhascos negros de Cabo Demidov, na Geórgia do Sul, a cerca de quinze quilômetros. O erro acumulado de navegação em 1.480 quilômetros de oceano tinha ficado dentro do que a vista alcançava.

Faltavam ainda dois dias. Um vendaval empurrou o bote para longe da costa e obrigou a tripulação a passar 24 horas no mar aberto, perto de recifes, sem conseguir encostar. Eles desembarcaram em 10 de maio na enseada de Cave Cove, na baía King Haakon, no lado desabitado da ilha.

 

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III  O Que Ficou

A caminhada de 36 horas e os quatro navios que voltaram à praia

A ilha estava do lado errado. As estações baleeiras ficavam na costa norte, e entre o ponto de desembarque e elas havia uma cordilheira que nenhum mapa detalhava e que ninguém tinha cruzado a pé.

Shackleton deixou McNish, McCarthy e Vincent num abrigo feito com o bote virado e partiu em 19 de maio com Worsley e Crean. Levaram três dias de ração, um fogareiro, uma corda de quinze metros e um machado de carpinteiro. Para ter aderência no gelo, McNish arrancou parafusos do James Caird e cravou oito em cada sola de bota.

A travessia durou 36 horas sem parada. Os três subiram e desceram cadeias erradas quatro vezes, e numa delas, presos por neblina numa crista alta com a noite chegando, enrolaram a corda e escorregaram montanha abaixo sentados, sem saber o que havia no fim da descida.

Em 20 de maio de 1916, por volta das três da tarde, chegaram à estação baleeira de Stromness. Estavam de barba longa, com a mesma roupa desde outubro do ano anterior, e as primeiras pessoas que encontraram foram duas crianças, que saíram correndo. O gerente Thoralf Sørlle, que conhecia Shackleton de antes, levou dois minutos para reconhecê-lo.

O resgate dos três da outra costa saiu naquela mesma semana. Os 22 da Ilha Elefante custaram muito mais: a primeira tentativa, com um baleeiro britânico, esbarrou no gelo; a segunda, com um navio uruguaio, também; a terceira, com uma escuna alugada no Chile, idem.

A quarta deu certo. Shackleton conseguiu com o governo chileno o rebocador Yelcho, comandado pelo piloto Luis Pardo, um barco de aço sem casco reforçado para gelo. Em 30 de agosto de 1916, o Yelcho encontrou uma brecha aberta no banco de gelo e recolheu os 22 homens em cerca de uma hora, quatro meses e seis dias depois da partida do bote.

Os 28 que saíram da Inglaterra em 1914 voltaram os 28. O James Caird foi trazido de volta e está exposto desde 1922 no Dulwich College, em Londres, escola onde Shackleton estudou.

Um barco de resgate de sete metros, seis homens, dois cronômetros e quatro leituras de sol em 17 dias bastaram para atravessar 1.480 quilômetros do pior oceano do planeta e trazer socorro para uma praia que ninguém sabia que existia.

"O que você faria se a única saída dependesse de acertar um alvo que você não consegue ver?"

Shackleton escreveu em South, em 1919, sobre as últimas horas da travessia da ilha: "Nós tínhamos visto Deus em seus esplendores, tínhamos ouvido o texto que a Natureza recita. Tínhamos alcançado a alma nua do homem."

 
 

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Durante os 17 dias de travessia no James Caird, quantas vezes o capitão Frank Worsley conseguiu medir a posição do sol pra calcular a rota?

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Resultado da última edição: 50% acertaram.

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