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Ele limitou cada homem a duas libras de bagagem, largou as próprias moedas de ouro na neve e mandou carregar um banjo de doze libras.
Em 9 de janeiro de 1909, a 180 quilômetros do Polo Sul, Ernest Shackleton mandou parar, fincar a bandeira, tirar uma fotografia e dar meia-volta. Ele perseguia aquele ponto desde os 27 anos, com a comida contada para a volta e três companheiros já sem força.
A conta era simples e cruel. Seguir em frente significava chegar ao Polo e não voltar dos 1.300 quilômetros seguintes. Ele resumiu a decisão à mulher, Emily, com a frase que virou marca da casa: melhor um burro vivo que um leão morto.
Os 88 graus e 23 minutos daquele dia foram a maior aproximação já feita do Polo Sul e renderam o título de Sir em 1909. O Polo ficou para Roald Amundsen, em 1911.
Nascido em Kilkea, na Irlanda, em 15 de fevereiro de 1874, filho de médico, largou a escola aos 16 anos e embarcou como aprendiz na marinha mercante. Aos 24 já tinha o certificado de capitão.
A primeira Antártida foi na expedição Discovery, com Robert Falcon Scott. A equipe de trenó chegou a 82 graus e 17 minutos sul, e Shackleton voltou com escorbuto, mandado para casa no navio de socorro em 1903, contra a vontade dele.
Com o Polo já tomado, sobrou um objetivo: atravessar o continente inteiro, do mar de Weddell ao mar de Ross, 2.900 quilômetros. O nome do projeto era Expedição Imperial Transantártica.
O dinheiro veio de três financiadores. O industrial escocês James Caird deu 24 mil libras, Janet Stancomb-Wills e Dudley Docker completaram o resto, e os botes levaram os nomes deles.
As candidaturas passaram de cinco mil, e 28 homens embarcaram. Entre eles o capitão Frank Worsley, o imediato Frank Wild, o fotógrafo Frank Hurley e um meteorologista falante chamado Leonard Hussey, que levava um banjo na bagagem.
O navio tinha sido construído em 1912, na Noruega, com o nome de Polaris. Shackleton rebatizou de Endurance por causa do lema da família, Fortitudine vincimus, e partiu de Plymouth em 8 de agosto de 1914, com a Grã-Bretanha entrando na guerra.
Ele ofereceu navio e tripulação ao Almirantado antes de zarpar. A resposta chegou em uma palavra: prossiga.
Em South Georgia, os baleeiros noruegueses avisaram que o gelo daquele ano era o pior em décadas. O Endurance zarpou assim mesmo, em 5 de dezembro de 1914.
Em 19 de janeiro de 1915, a 76 graus e 34 minutos sul, o navio parou, a um dia de navegação do ponto de desembarque. O gelo fechou em volta do casco como um molde.
Vieram dez meses de deriva, com a placa arrastando o navio 1.500 quilômetros para noroeste. Houve inverno sem sol, futebol sobre o gelo e concerto de banjo no alojamento apelidado de Ritz.
Em outubro de 1915 a pressão voltou para valer, e a travessia do continente acabou antes de começar. O problema do chefe deixou de ser geografia e virou logística de sobrevivência.
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