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ED 004

O banjo que pesava mais que o ouro

Com o Endurance esmagado pelo gelo do mar de Weddell em 1915, ele limitou cada homem a um quilo e mandou carregar o banjo do meteorologista.

O gelo do mar de Weddell fechado sobre o casco do Endurance em 1915, com os homens e os trenós no acampamento montado sobre a placa.

O gelo do mar de Weddell fechado sobre o Endurance

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No mar de Weddell, o gelo não é chão nem água. A corrente gira em sentido horário dentro da baía e empurra as placas umas contra as outras, e o campo liso da véspera vira uma cordilheira de blocos em poucas horas.

Um navio preso ali não afunda de uma vez. Ele é apertado por semanas, solto por um dia, apertado de novo, até o casco ceder por um ponto que ninguém consegue prever.

O Endurance tinha sido feito para aguentar o aperto. A proa levava mais de um metro de madeira maciça, e o casco saiu de um estaleiro de Sandefjord, na Noruega, preparado para caçar urso e foca entre as banquisas do Ártico.

Faltava uma peça no desenho. O casco tinha lateral reta, e não a barriga arredondada dos navios pensados para o gelo, que sobem quando a pressão chega. Lateral reta não sobe: ela recebe a força inteira e trinca.

Não havia como pedir socorro. O rádio de bordo não alcançava estação nenhuma naquela latitude, e o mundo lá fora estava ocupado com a guerra começada em agosto de 1914. Ninguém sabia a posição do navio.

Sair a pé de um lugar desses é uma conta de peso. A terra mais próxima com comida ficava a 557 quilômetros, e o caminho até ela era um chão que abre, fecha e sobe em cristas de dois metros.

Cada quilo tirado do navio vira quilo arrastado por um homem que come carne de foca e dorme em saco molhado. Num naufrágio no gelo, portanto, a lista do que se leva define quem chega.

A vida de hoje é a de um homem de 41 anos, no comando de 27 tripulantes sobre uma placa à deriva, na terceira viagem dele à Antártida e sem ter pisado no Polo Sul em nenhuma das duas primeiras.

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I  A Vida de Hoje

O homem que já tinha voltado a 180 km do Polo

Ele limitou cada homem a duas libras de bagagem, largou as próprias moedas de ouro na neve e mandou carregar um banjo de doze libras.

Em 9 de janeiro de 1909, a 180 quilômetros do Polo Sul, Ernest Shackleton mandou parar, fincar a bandeira, tirar uma fotografia e dar meia-volta. Ele perseguia aquele ponto desde os 27 anos, com a comida contada para a volta e três companheiros já sem força.

A conta era simples e cruel. Seguir em frente significava chegar ao Polo e não voltar dos 1.300 quilômetros seguintes. Ele resumiu a decisão à mulher, Emily, com a frase que virou marca da casa: melhor um burro vivo que um leão morto.

Os 88 graus e 23 minutos daquele dia foram a maior aproximação já feita do Polo Sul e renderam o título de Sir em 1909. O Polo ficou para Roald Amundsen, em 1911.

Nascido em Kilkea, na Irlanda, em 15 de fevereiro de 1874, filho de médico, largou a escola aos 16 anos e embarcou como aprendiz na marinha mercante. Aos 24 já tinha o certificado de capitão.

A primeira Antártida foi na expedição Discovery, com Robert Falcon Scott. A equipe de trenó chegou a 82 graus e 17 minutos sul, e Shackleton voltou com escorbuto, mandado para casa no navio de socorro em 1903, contra a vontade dele.

Com o Polo já tomado, sobrou um objetivo: atravessar o continente inteiro, do mar de Weddell ao mar de Ross, 2.900 quilômetros. O nome do projeto era Expedição Imperial Transantártica.

O dinheiro veio de três financiadores. O industrial escocês James Caird deu 24 mil libras, Janet Stancomb-Wills e Dudley Docker completaram o resto, e os botes levaram os nomes deles.

As candidaturas passaram de cinco mil, e 28 homens embarcaram. Entre eles o capitão Frank Worsley, o imediato Frank Wild, o fotógrafo Frank Hurley e um meteorologista falante chamado Leonard Hussey, que levava um banjo na bagagem.

O navio tinha sido construído em 1912, na Noruega, com o nome de Polaris. Shackleton rebatizou de Endurance por causa do lema da família, Fortitudine vincimus, e partiu de Plymouth em 8 de agosto de 1914, com a Grã-Bretanha entrando na guerra.

Ele ofereceu navio e tripulação ao Almirantado antes de zarpar. A resposta chegou em uma palavra: prossiga.

Em South Georgia, os baleeiros noruegueses avisaram que o gelo daquele ano era o pior em décadas. O Endurance zarpou assim mesmo, em 5 de dezembro de 1914.

Em 19 de janeiro de 1915, a 76 graus e 34 minutos sul, o navio parou, a um dia de navegação do ponto de desembarque. O gelo fechou em volta do casco como um molde.

Vieram dez meses de deriva, com a placa arrastando o navio 1.500 quilômetros para noroeste. Houve inverno sem sol, futebol sobre o gelo e concerto de banjo no alojamento apelidado de Ritz.

Em outubro de 1915 a pressão voltou para valer, e a travessia do continente acabou antes de começar. O problema do chefe deixou de ser geografia e virou logística de sobrevivência.

 
 

II  O Momento que Virou

As moedas de ouro abertas na neve

O momento que virou não foi o navio afundando. Foi um homem de pé na neve, em 27 de outubro de 1915, anunciando que cada tripulante levaria duas libras de bagagem, pouco menos de um quilo, e abrindo a própria mão cheia de moedas de ouro no chão para encerrar a discussão.

O casco já não tinha conserto: leme arrancado, cavernas cedendo com estalo de tiro, água entrando mais rápido do que as bombas tiravam. Shackleton mandou baixar botes, tendas e mantimentos para o gelo.

A cota de duas libras valia para objeto pessoal. Diários, instrumentos de navegação e material médico ficaram fora da conta, porque eram carga do grupo.

Ele aplicou a regra primeiro em si mesmo. Tirou do bolso a cigarreira de ouro e as moedas que carregava e largou tudo aberto na neve, diante dos 27 homens.

Depois pegou a bíblia que a rainha Alexandra tinha dado ao navio, arrancou a dedicatória e a página de Jó que pergunta de que ventre saiu o gelo, e deixou o volume no chão. Um chefe que manda largar peso e sai com ouro no bolso perde o comando na primeira hora de acampamento.

"A tarefa agora é garantir a segurança do grupo, e para tanto preciso dobrar minhas energias e minha capacidade mental e aplicar cada pedaço de conhecimento que a experiência antártica me deu."

Ernest Shackleton, South, 1919

Em seguida ele fez o contrário do que a regra pedia. Chamou Hussey e mandou o meteorologista carregar o banjo: doze libras, seis vezes a cota de um homem.

Hussey registrou a ordem em South with Shackleton, de 1949: o chefe disse que aquilo era remédio mental, e o instrumento subiu no trenó.

A mesma conta cortou fundo em outro lugar. Hurley mergulhou três horas na água gelada do porão para salvar as chapas de vidro, sentou no gelo com Shackleton, escolheu 120 imagens entre cerca de 550 e quebrou o resto, uma a uma.

Chapa quebrada não tenta ninguém a voltar para buscar.

A marcha começou em 30 de outubro, com dois botes arrastados sobre cristas de pressão. Em três dias o grupo avançou dois quilômetros, e Shackleton parou tudo, montou o Ocean Camp e passou a usar a deriva como transporte.

Em 21 de novembro de 1915, o Endurance afundou de vez, com os homens em fila na beira da placa. O acampamento seguinte, batizado de Patience, durou até abril de 1916.

Nesse período o banjo trabalhou toda semana. Hussey tocava na noite de domingo, e as canções entraram na rotina junto com a ração e a vigia.

Em 9 de abril de 1916 a placa rachou debaixo das tendas. Os três botes foram para a água e, em 15 de abril, o grupo pisou em Elephant Island, a primeira terra firme em 497 dias.

O banjo desembarcou junto. Em 24 de abril, o James Caird partiu com seis homens rumo a South Georgia, e os outros 22 ficaram debaixo de dois botes virados.

A regra das duas libras não foi economia de carga. Foi a escolha de qual peso mantém 28 homens de pé em cima de uma placa que anda, e ouro não mantém ninguém de pé.

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III  O Que Ficou

O banjo em Greenwich e os 28 que voltaram

No museu: o banjo de Hussey está no National Maritime Museum, em Greenwich, com assinaturas da tripulação no tampo, e é hoje o objeto mais conhecido da expedição.

Na biblioteca: a bíblia largada na neve foi recolhida às escondidas por Thomas Orde-Lees, voltou dentro da bagagem dele e está guardada na Royal Geographical Society, em Londres.

No fundo do mar: o Endurance foi localizado em 5 de março de 2022, a 3.008 metros de profundidade, a poucos quilômetros da posição que Worsley anotou em 1915, com o nome ainda legível na popa.

O resgate levou quatro tentativas. O gelo barrou três navios, e só o rebocador chileno Yelcho, comandado por Luis Pardo, conseguiu encostar em Elephant Island, em 30 de agosto de 1916.

Shackleton contou os homens de pé no bote, antes mesmo de desembarcar. Vinte e dois, todos vivos, quase vinte meses depois do dia em que o navio parou no gelo.

Nem tudo terminou assim. Do outro lado do continente, o grupo do mar de Ross depositou os mantimentos para uma travessia que nunca aconteceu e perdeu três homens no caminho: Mackintosh, Hayward e Spencer-Smith.

O preço na ilha também apareceu. Perce Blackborow, clandestino embarcado em Buenos Aires, teve os dedos do pé esquerdo amputados debaixo dos botes virados, por dois médicos operando com clorofórmio e luz de lamparina.

As 120 chapas de Hurley pagaram parte da conta: viraram o livro South, de 1919, e o filme que rodou os cinemas britânicos, e é por elas que a expedição tem imagem, e não só relato.

Hussey voltou ao sul em 1921, no Quest, com o mesmo banjo na bagagem. Shackleton estava a bordo, e o coração dele parou em 5 de janeiro de 1922, com o navio ancorado em Grytviken, aos 47 anos.

A travessia do continente nunca foi feita por ele. Ficou pronta só em 2 de março de 1958, por Vivian Fuchs, com trator de esteira, rádio e apoio aéreo.

O que ficou de prático foi o método da lista. Peso que só tem preço fica para trás, e peso que segura a rotina do grupo embarca, mesmo pesando seis vezes a cota de um homem.

Shackleton nunca atravessou a Antártida. Ele desembarcou 28 homens vivos, e a lista do que subiu no trenó naquela tarde de outubro explica boa parte do resultado.

"Se a sua bagagem fosse limitada a um quilo, o que entraria no trenó e o que ficaria aberto na neve?"

 
 
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O que Frank Hurley fez com as chapas fotográficas que não couberam na cota de peso?

AGuardou todas num tambor de metal enterrado na placa
BEscolheu 120 imagens com Shackleton e quebrou o resto no gelo
CDeixou as chapas dentro do casco antes de o navio afundar
DTrocou as chapas por mantimentos com o grupo do mar de Ross

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