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O astrônomo que parou os céus pela mãe
Entre 1615 e 1621, Johannes Kepler dividiu o tempo entre as órbitas e a defesa de Katharina, acusada de bruxaria em Leonberg.
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Güglingen, 1620: a defesa de Katharina
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Aos 48 anos, o astrônomo Johannes Kepler, matemático da corte do Sacro Império, fez as malas em Linz no outono de 1620 e partiu para o ducado de Württemberg. Levava papel, tinta e uma pilha de cartas. O destino era uma torre em Güglingen, onde a mãe dele estava presa.
Katharina Kepler tinha 73 anos. Desde agosto, vivia acorrentada numa cela, vigiada por dois guardas que a família pagava do próprio bolso. A acusação vinha de Leonberg, a cidade onde ela morou a vida inteira: bruxaria.
O filho que chegava para defendê-la era o homem que tinha descoberto como os planetas andam. Anos antes, ele mostrara que Marte gira em torno do Sol numa elipse, uma espécie de círculo achatado, e não num círculo perfeito, como se ensinava havia dois mil anos.
Naquele outono, a elipse ficou na gaveta. Kepler passou a ler depoimentos de vizinhos, a contar dias de prazo e a escrever petições ao duque. O trabalho de astrônomo, com tabelas de posições planetárias que o imperador esperava havia anos, parou.
Os papéis do processo contam uma história miúda. Uma vizinha dizia que tinha adoecido depois de beber uma poção. Um alfaiate falava de filhos mortos. Uma menina afirmava ter sentido dor no braço depois de passar perto de Katharina na rua.
Em Württemberg, acusações assim terminavam muitas vezes na fogueira. Na própria Leonberg, poucos anos antes, várias mulheres tinham sido queimadas por bruxaria.
Kepler sabia o que estava em jogo e sabia que o nome dele pesava. Um matemático imperial não podia ser visto como filho de uma bruxa. Ele escolheu ficar ao pé da cela e usar o único método que conhecia: juntar evidência, conferir cada detalhe e desmontar o erro por escrito.
Para entender como uma viúva de Leonberg foi parar numa torre acorrentada, e por que o filho astrônomo largou tudo para tirá-la de lá, é preciso voltar à casa onde ele nasceu e à briga que começou por causa de um copo de bebida.
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I A Vida de Hoje
O filho da curandeira de Leonberg
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Johannes Kepler nasceu em 27 de dezembro de 1571, em Weil der Stadt, cidade pequena perto de Stuttgart. Era o primeiro filho de Heinrich Kepler, soldado mercenário que sumia por anos em guerras alheias, e de Katharina Guldenmann, filha do prefeito da aldeia vizinha de Eltingen.
A casa era pobre e brigada. Heinrich abandonou a família de vez quando o filho tinha uns dezesseis anos e nunca mais deu notícia. Katharina criou os filhos sozinha, em Leonberg, e ganhava algum dinheiro preparando ervas e remédios caseiros para vizinhos doentes.
Foi ela quem apontou o céu para o menino. Em 1577, levou Johannes, então com seis anos, ao alto de um morro para ver o grande cometa daquele ano. Kepler guardou a cena pela vida inteira e a registrou nas próprias anotações sobre a família.
O garoto estudou com bolsa do duque e foi para a Universidade de Tübingen, onde aprendeu com o astrônomo Michael Mästlin o sistema de Copérnico, com o Sol no centro. Em 1600 foi trabalhar em Praga com o dinamarquês Tycho Brahe, dono das medições de céu mais precisas da época.
Brahe morreu em 1601, e Kepler herdou o posto de matemático imperial de Rodolfo II. Com os dados de Brahe, publicou em 1609 a Astronomia Nova, o livro das órbitas elípticas. Em 1612, depois da morte de Rodolfo, mudou-se para Linz, na Áustria, como matemático da província.
O homem que ensinou a Europa a medir a órbita de Marte aprendeu a olhar para o céu pela mão de uma curandeira de aldeia.
Em Leonberg, Katharina ficou viúva de fato e ganhou fama de mulher briguenta. Tinha língua solta, discutia com vizinhos e continuava a dar ervas a quem pedisse. Numa cidade pequena, a combinação era perigosa.
Em 1615, ela brigou com Ursula Reinbold, mulher de um vidreiro. Pouco depois, Ursula disse ter adoecido por causa de uma bebida que Katharina lhe oferecera. Acusou a vizinha de envenenamento e bruxaria, com o apoio do irmão, barbeiro da corte do duque, e do magistrado local, Lutherus Einhorn.
Kepler soube do caso em dezembro de 1615, por uma carta da irmã Margaretha. Respondeu de Linz com petições e cartas às autoridades. No fim de 1616, Katharina foi morar com o filho na Áustria, longe dos vizinhos, e ficou lá quase um ano. Voltou a Leonberg por conta própria, contra o conselho dele.
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II O Momento que Virou
Quatorze meses numa torre de Güglingen
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Em 7 de agosto de 1620, os oficiais do duque prenderam Katharina na casa da filha Margaretha, em Heumaden, e a levaram para Leonberg. Dali ela seguiu para Güglingen, onde ficou acorrentada ao chão de uma torre.
O processo reuniu dezenas de acusações. Além da poção de Ursula Reinbold, havia vacas mortas, crianças doentes e a história de que Katharina teria pedido ao coveiro o crânio do pai, para fundir em prata e fazer uma taça para o filho astrônomo.
Kepler chegou ao ducado no outono de 1620 e deixou a mulher e os filhos em Regensburg, a meio caminho de Linz. Assumiu a defesa com o advogado Christoph Besold, professor de direito em Tübingen.
A estratégia dele foi a de um cientista. Pegou depoimento por depoimento e procurou causa natural para cada dano. A dor de Ursula, escreveu, vinha de um aborto antigo e malfeito. A menina que sentira dor no braço tinha carregado tijolos naquele dia. O gado morrera de doença comum na região.
Kepler tratou cada acusação como tratava uma medição errada de Brahe: conferiu a fonte, achou a causa e deixou o erro escrito.
A peça final da defesa, de 1621, tinha mais de cem páginas. O caso subiu para a faculdade de direito de Tübingen, que decidiu o passo seguinte. A recomendação foi a territio verbalis, a intimidação por palavras: levar a presa diante dos instrumentos de suplício e mostrar cada um, sem usá-los.
Em 28 de setembro de 1621, o carrasco apresentou os instrumentos a Katharina e explicou para que servia cada peça. Ela se recusou a confessar. Disse que eles podiam fazer com ela o que quisessem, e que não tinha nada a admitir.
Pela lei do ducado, quem resistia à intimidação sem confessar ganhava a liberdade. Em 4 de outubro de 1621, depois de quatorze meses acorrentada, Katharina saiu da torre de Güglingen.
Não voltou a Leonberg. Os vizinhos ameaçavam matá-la se aparecesse na cidade, e ela foi viver com a família da filha. Morreu em 13 de abril de 1622, seis meses depois de solta. Os documentos que sobraram não registram a causa.
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