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Aos 17 anos ele não sabia juntar duas letras. Aos 40, esvaziava senzala pelo texto de uma lei.
Ele nasceu livre em Salvador, em 21 de junho de 1830, filho de uma africana livre chamada Luísa Mahin e de um fidalgo português de família rica da Bahia, cujo nome ele se recusou a escrever pelo resto da vida.
O nome dele era Luiz Gonzaga Pinto da Gama. A mãe era quitandeira, africana de nação, vivia do próprio trabalho e circulava no meio das conspirações que agitavam Salvador na década de 1830. Quando ele tinha cinco anos, ela desapareceu da vida dele em meio à repressão que se seguiu à revolta dos malês, e nunca mais foi encontrada.
O pai era o oposto exato. Vinha de linhagem nobre, jogava, perdia e devia, e em 1840, para cobrir dívida de jogo, resolveu o próprio problema vendendo o filho como se fosse cativo. A criança tinha dez anos, era livre por nascimento e não havia papel nenhum que a fizesse escrava, mas ninguém no cais pediu papel.
O menino embarcou no porão de um navio com destino ao sudeste. Desembarcou no Rio de Janeiro e foi levado a leilão junto com um lote inteiro vindo da Bahia. Comprador não apareceu para ele. Corria entre os senhores do sul a fama de que baiano dava trabalho, era rebelde, tinha visto revolta demais, e por causa dessa reputação ele sobrou na praça.
Sobrar salvou o resto da vida dele. Como ninguém o queria, acabou vendido em lote a um negociante que o levou a pé, na tropa, até a região de Lorena, em São Paulo, e daí à casa do alferes Antônio Pereira Cardoso.
Ali ele fez de tudo. Serviu à mesa, trabalhou de sapateiro, tocou tropa de mula pelo Vale do Paraíba, e passou sete anos ouvindo conversa de gente instruída sem entender uma linha dos papéis que carregava.
A virada chegou em 1847, pela porta da frente da casa. Um estudante da academia de direito, hóspede da família, notou o rapaz de dezessete anos e resolveu ensinar as letras a ele nas horas mortas. As aulas eram improvisadas, sem material, à luz de vela, e cobriam o alfabeto, a soletração e depois a leitura corrida.
Um ano bastou para o aluno chegar aonde ninguém esperava. Lendo, ele foi atrás dos próprios papéis e montou a prova da condição em que havia nascido: mãe africana livre, nascimento em território brasileiro, nenhuma escritura legítima de compra. Em 1848 ele se declarou livre, saiu daquela casa e ninguém conseguiu contestar a documentação.
O que veio depois foi carreira construída em degrau baixo. Sentou praça na Força Pública, serviu como soldado, foi expulso por insubordinação depois de bater de frente com um superior, e em 1856 entrou como escrivão na secretaria de polícia de São Paulo, copiando processo alheio a mão, o dia inteiro, por um salário miúdo.
Copiar processo virou a escola de direito que ele não teve. Passava o expediente lendo petição e sentença de bacharel formado, aprendia a linguagem por dentro e guardava cada tese que dava certo. À noite frequentava como ouvinte a academia do largo de São Francisco, sem poder se matricular.
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