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Njinga Mbande e o assento humano de 1622

Enviada do irmão a Luanda, ela tratou Portugal de igual para igual e depois reinou no Ndongo e em Matamba até 1663.

Njinga Mbande sentada nas costas de uma criada diante do governador português, em Luanda.

Luanda, 1622: a audiência com o governador

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Aos 39 anos, a enviada Njinga Mbande, irmã do rei do Ndongo, entrou em 1622 na sala de audiências do governador português de Luanda e não encontrou cadeira para ela.

O Ndongo era o reino dos ambundos, povo de língua quimbundo, nas terras altas entre os rios Cuanza e Lucala, no interior da atual Angola. O rei usava o título de ngola (rei, em quimbundo), palavra que os portugueses estenderam a toda a região.

Luanda era a cidade portuguesa do litoral, fundada em 1576, porto de embarque de cativos para o Brasil. Havia décadas, tropas do governo de Luanda subiam o Cuanza, erguiam fortes e atacavam aldeias do Ndongo.

O governador João Correia de Sousa recebeu a comitiva sentado numa cadeira de veludo. Para a enviada, havia só um tapete estendido no chão, o lugar reservado aos sobas vassalos, os chefes locais que pagavam tributo à coroa portuguesa.

Njinga olhou o tapete e não se abaixou. Fez um sinal a uma das criadas da comitiva. A mulher se pôs de quatro, e a enviada sentou nas costas dela, com os olhos na altura dos olhos do governador.

A conversa durou horas. O governador queria o rei do Ndongo como vassalo, com tributo anual em escravizados. Njinga recusou a vassalagem e propôs paz, comércio e aliança entre dois reinos, cada um senhor da própria terra.

Cobrou também a retirada do forte de Ambaca, erguido pelos portugueses dentro das terras do Ndongo, e a volta dos ambundos capturados nas guerras recentes.

O relato da cena chegou à Europa pela pena do frade capuchinho Giovanni Antonio Cavazzi, missionário italiano que viveu na corte de Njinga décadas depois e ouviu dela a história.

Ao fim da audiência, a enviada se levantou e deixou a criada ajoelhada no lugar. Explicou aos portugueses, segundo Cavazzi, que a embaixadora de um rei nunca usava duas vezes o mesmo assento.

Para entender como uma princesa ambundo chegou àquela sala, é preciso voltar à corte do pai, onde ela aprendeu a guerra e a língua dos portugueses.

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I  A Vida de Hoje

A princesa da corte de Kabasa

Njinga Mbande nasceu por volta de 1582 em Kabasa, a capital do Ndongo. Era filha do rei Ngola Kilombo Kia Kasenda e de Kangela, uma das esposas secundárias dele.

A tradição oral guardou a origem do nome. Ela teria nascido com o cordão umbilical enrolado no pescoço, e o verbo quimbundo kujinga (torcer, enrolar) deu o nome à menina.

O pai a tratou como herdeira possível, ao lado do filho homem. Njinga aprendeu a lutar com o machado de guerra dos ambundos, acompanhou o rei em audiências e assistiu às negociações com os comerciantes de Luanda.

Cresceu com um irmão, Ngola Mbande, e duas irmãs, Kambu e Funji. As duas a seguiriam pela vida inteira, como conselheiras na corte e, mais tarde, como prisioneiras de guerra.

Com padres e mercadores que passavam por Kabasa, Njinga aprendeu a falar português. Na corte ambundo, poucos entendiam a língua do inimigo sem intérprete.

Em 1617, o pai faleceu e Ngola Mbande tomou o trono do Ndongo.

O irmão começou pela limpeza da família. Segundo Cavazzi, mandou eliminar o filho pequeno de Njinga, para tirar do caminho um herdeiro concorrente, e afastou a irmã da corte.

Njinga foi viver longe de Kabasa, sem cargo e sem tropa. Guardou o ressentimento, e o relato do frade diz que ela nunca perdoou o crime.

Os portugueses aproveitaram a troca de rei. Em 1618, o governador Luís Mendes de Vasconcelos atacou o Ndongo com soldados portugueses e mercenários imbangalas, guerreiros nômades vindos do sul, temidos pela ferocidade em combate.

Kabasa caiu. O rei fugiu para as ilhas do rio Cuanza, e milhares de ambundos foram levados acorrentados a Luanda, rumo aos navios do Brasil.

Em 1621, sem exército para reagir, Ngola Mbande precisava negociar. Faltava alguém que falasse português, conhecesse os costumes de Luanda e não se curvasse diante do governador.

O rei mandou chamar a irmã que ele mesmo tinha afastado. Njinga aceitou a missão.

O irmão deu a ela poder de embaixadora plena, com direito de fechar acordo em nome do rei. Ela levou junto a irmã Funji e um grupo de conselheiros da corte.

A comitiva desceu o Cuanza até o litoral com músicos, criadas e presentes. A embaixadora chegou a Luanda vestida à maneira ambundo, com panos, penas e braceletes, e recusou a roupa portuguesa que o governo da cidade lhe ofereceu.

 
 

II  O Momento que Virou

A rainha sem trono em Matamba

Depois da audiência, Njinga ficou meses em Luanda. Pediu o batismo e recebeu o nome cristão de Ana de Sousa, com o próprio governador João Correia de Sousa como padrinho.

O batismo era também jogada de embaixadora. Afilhada do governador, ela ganhava trânsito na cidade e um argumento a mais contra quem tratasse o Ndongo como terra de vassalos.

O acordo de paz saiu no papel, mas os portugueses não desmontaram o forte de Ambaca, e os ataques às aldeias continuaram.

Em 1624, Ngola Mbande foi encontrado sem vida nas ilhas do Cuanza. Correu a versão de envenenamento, e parte da corte apontou Njinga. Nenhum documento provou a causa, e os historiadores seguem sem saber o que aconteceu.

Njinga assumiu o poder em 1624 e passou a governar o Ndongo como rainha.

O herdeiro de sangue era um sobrinho dela, filho do irmão, criado no acampamento do chefe imbangala Kasa. Njinga se casou com Kasa, trouxe o menino para a corte e, segundo Cavazzi, mandou eliminá-lo.

Luanda não aceitou uma mulher no trono. Em 1626, os portugueses atacaram as ilhas do Cuanza, onde ela se refugiava, e coroaram um rei de fachada, Ngola Hari, disposto a pagar tributo.

Njinga perdeu a capital, parte do exército e as duas irmãs, Kambu e Funji, capturadas pelos portugueses na fuga. Escapou com um punhado de guerreiros rumo ao leste.

Ali começou a guerra longa. Para sobreviver, ela adotou os costumes dos imbangalas, aprendeu a organização dos acampamentos militares deles e passou a liderar as tropas em pessoa, de machado na mão.

Por volta de 1631, Njinga invadiu Matamba, reino vizinho a leste do Ndongo, governado pela rainha Mwongo Matamba. Venceu, capturou a rainha e tomou a terra.

Matamba virou a base nova. Ficava fora do alcance fácil dos fortes portugueses e tinha rotas de comércio para o interior do continente.

Pelas mesmas rotas passavam cativos de guerra. Njinga também vendia prisioneiros aos mercadores, como os outros reis da região, e usava o lucro para comprar armas de fogo e pagar guerreiros.

Njinga governou a partir dali sem largar o título de rainha do Ndongo. Para os ambundos, o Ndongo continuava sendo dela, e o rei de Luanda era só um vassalo dos estrangeiros.

Ela também mudou de papel aos olhos da corte. Em várias cerimônias, vestia-se de homem, exigia ser chamada de rei e mantinha um grupo de homens vestidos de mulher como concubinas, conta Cavazzi.

 

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III  O Que Ficou

Quatro décadas de guerra e acordo

Em 1641, a Companhia das Índias Ocidentais, empresa holandesa de comércio e guerra, tomou Luanda dos portugueses. Njinga mandou embaixadores à cidade e fechou aliança com os holandeses contra Portugal.

Em 1647, as tropas dela e as holandesas venceram os portugueses na batalha de Kombi. Por alguns meses, a rainha parecia perto de retomar todo o Ndongo.

Funji, a irmã presa em Luanda, mandava cartas secretas a Njinga com notícias da cidade. Os portugueses descobriram as cartas e afogaram Funji no rio Cuanza.

Em 1648, uma frota vinda do Rio de Janeiro, comandada por Salvador Correia de Sá, retomou Luanda e expulsou os holandeses de Angola. Njinga perdeu o aliado e voltou para Matamba.

Em 1656, com mais de 70 anos, Njinga assinou a paz com Portugal.

O tratado reconhecia Matamba como reino dela. Em troca, a rainha aceitou a presença de missionários e o comércio com Luanda. A irmã Kambu, batizada Bárbara, voltou para casa depois de anos de cativeiro.

Na velhice, Njinga reabriu igrejas em Matamba e recebeu os capuchinhos italianos, entre eles Cavazzi. Foi o frade quem recolheu dela as memórias da audiência de 1622.

Njinga Mbande saiu de cena em 17 de dezembro de 1663, em Matamba, com cerca de 81 anos, ainda no trono. Kambu a sucedeu como rainha.

Cavazzi publicou a crônica em 1687, em italiano, com o título Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola. A cena do assento humano saiu dali para os livros europeus.

Em Angola, a lembrança ficou na tradição oral e depois na luta pela independência, conquistada em 1975. Os guerrilheiros citavam a rainha como a primeira a enfrentar Portugal de pé.

Historiadores como a americana Linda Heywood, autora da biografia Njinga de Angola, de 2017, trabalham com as cartas que a rainha ditou em português aos governadores e ao papa. São a voz dela, direta, sem passar pelo frade.

Em 2002, Luanda ergueu uma estátua de Njinga no largo do Kinaxixi, no centro da cidade. A rainha aparece de pé, com o machado de guerra na mão.

No Brasil, para onde seguiram muitos ambundos escravizados, a rainha Ginga entrou nas congadas, festas populares de origem africana em Minas Gerais e em outros estados, onde ainda hoje aparece coroada nos cortejos.

Na audiência de Luanda, o governador falou em tributo, e Njinga respondeu, segundo o relato de Cavazzi: “Quem nasceu livre não paga tributo a ninguém.”

 
 
Quiz da edição

Na audiência de 1622 em Luanda, sem cadeira reservada para ela, o que a enviada Njinga fez diante do governador português?

ARecusou sentar e permaneceu em pé diante do governador
BSentou no tapete reservado aos sobas vassalos
CMandou uma criada da comitiva ficar de quatro e sentou nas costas dela
DPediu emprestada uma cadeira de veludo ao governador

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