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Nikolai Vavilov, o botânico das 250 mil sementes

Ele cruzou 5 continentes atrás de trigo, montou o maior banco de sementes do mundo e passou fome numa prisão soviética.

O botânico Nikolai Vavilov com sacos de sementes numa estrada dos Cárpatos, em 1940.

Cárpatos, 1940: Vavilov e as sementes do dia

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Aos 52 anos, o botânico Nikolai Vavilov descia uma estrada de terra nos Cárpatos, no oeste da Ucrânia, com sacos de pano cheios de espigas e uma prensa de herbário debaixo do braço. Era 6 de agosto de 1940.

Ele tinha saído cedo para colher plantas nas encostas perto de Chernivtsi, cidade que a União Soviética acabara de anexar. Os assistentes ficaram na pensão, separando o material do dia anterior.

No fim da tarde, um carro preto parou na beira da estrada. Dois homens à paisana desceram e disseram que Moscou precisava falar com ele com urgência.

Vavilov entrou no carro. Os assistentes nunca mais o viram.

Os sacos com as plantas daquela manhã ficaram no quarto da pensão. Ninguém sabe o que foi feito deles.

Na época, o homem levado na estrada dirigia o maior banco de sementes do planeta. No prédio do instituto, em Leningrado, havia cerca de 250 mil amostras de trigo, centeio, milho, batata, feijão e frutas, recolhidas em expedições pelos 5 continentes.

Cada amostra era uma aposta contra a fome. Vavilov acreditava que, em algum vale esquecido da Etiópia, do Afeganistão ou dos Andes, crescia uma planta capaz de resistir à seca, à geada ou à praga que destruía a lavoura russa.

Bastava achar essa planta, guardar a semente e cruzá-la com as variedades do campo.

Ele já tinha sido o cientista mais premiado do país. Ganhou o Prêmio Lênin em 1926, presidiu a Academia de Ciências Agrícolas e falava em congressos de Londres, Berlim e Nova York.

Em 1940, tudo pesava contra ele. Fazia anos que contrariava em público as teses de Trofim Lysenko, o agrônomo preferido de Stálin.

A mulher, Elena Barulina, só soube da prisão dias depois. Os colegas do instituto continuaram regando as plantas, sem saber se o chefe voltaria.

Para entender como um homem que queria encher pratos acabou preso como inimigo do povo, a história começa numa casa de comerciantes em Moscou.

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I  A Vida de Hoje

O menino da casa dos comerciantes

Nikolai Ivanovich Vavilov nasceu em 25 de novembro de 1887, em Moscou. O pai, Ivan Vavilov, tinha nascido camponês e virou comerciante de tecidos. A mãe, Alexandra Postnikova, era filha de um gravador de uma fábrica de estampas.

Dos 7 filhos do casal, 3 morreram crianças. Dos que cresceram, 2 viraram cientistas de primeira linha: Nikolai, na botânica, e o irmão mais novo, Sergei, na física.

Na Rússia em que os dois cresceram, a fome era vizinha. Entre 1891 e 1892, a seca destruiu a colheita em províncias inteiras do Volga e centenas de milhares de camponeses ficaram sem pão.

O pai queria o filho mais velho no comércio. Nikolai preferiu a terra. Em 1906, entrou no Instituto Agrícola de Moscou, conhecido como Petrovka, onde estudou o solo, a lavoura e as doenças das plantas.

O trabalho de conclusão foi sobre lesmas que atacavam hortas na região de Moscou. Formou-se em 1911.

A pergunta que Vavilov levou da faculdade para a vida inteira era simples: por que algumas plantas resistem à doença e outras não?

Para responder, ele precisava de genética, a ciência que estuda como as características passam de pais para filhos. A disciplina tinha pouco mais de 10 anos, desde que os trabalhos do monge Gregor Mendel com ervilhas foram redescobertos em 1900.

Em 1913, Vavilov foi para a Inglaterra trabalhar com William Bateson, o biólogo que deu nome à genética, no John Innes Horticultural Institution, perto de Londres.

Lá estudou a imunidade de trigos e aveias à ferrugem (um fungo que cobre as folhas de pó alaranjado e derruba a colheita). Percebeu que a resistência seguia as leis de Mendel: era herdada, e podia ser transferida de uma variedade a outra por cruzamento.

A Primeira Guerra Mundial o trouxe de volta em 1914. Um problema no olho o livrou do front.

Em 1916, o exército russo o mandou à Pérsia, hoje Irã, para descobrir por que os soldados ficavam tontos e doentes depois de comer o pão local. Vavilov achou a causa no campo: o trigo vinha misturado com sementes de joio, uma erva venenosa.

Aproveitou a viagem para subir até o Pamir, as montanhas entre o Afeganistão e o Tajiquistão. Nos vales altos, encontrou variedades de trigo e de centeio que ninguém na Europa conhecia.

Voltou com a ideia que guiaria a carreira: as plantas que alimentam o mundo nasceram em poucos lugares, e nesses lugares a variedade ainda está guardada.

 
 

II  O Momento que Virou

A fogueira de 1939

Em junho de 1920, num congresso de criadores de plantas em Saratov, Vavilov apresentou a lei das séries homólogas: espécies aparentadas variam de modo paralelo. Se um trigo tinha grão sem casca, devia existir centeio ou cevada com o mesmo traço. Bastava procurar.

A plateia se levantou para aplaudir. Um colega comparou a lei à tabela periódica de Mendeleiev, que tinha previsto elementos químicos antes de serem achados.

Em 1921, Vavilov assumiu o Bureau de Botânica Aplicada em Petrogrado, a futura Leningrado. Em 1930, o órgão virou o Instituto de Plantas Cultivadas, o VIR, com estações de teste espalhadas pelo país.

Daí em diante, saiu a campo como poucos. Esteve no Afeganistão em 1924, a cavalo, cruzando o Hindu Kush. Em 1927, foi à Etiópia e pediu audiência ao regente, o futuro imperador Haile Selassie. Depois percorreu o Mediterrâneo, a China, o Japão, os Estados Unidos, o México, os Andes e o Brasil.

Em 1926, publicou Centros de Origem das Plantas Cultivadas. O livro apontava as regiões onde cada lavoura tinha nascido: o trigo duro na Etiópia e no Mediterrâneo, a batata nos Andes, o milho no México. Valeu-lhe o Prêmio Lênin.

Em cada viagem, Vavilov mandava para Leningrado sacos de semente com etiqueta de lugar, altitude e data. Dali saiu o acervo de 250 mil amostras.

Em 1929, chegou ao Instituto um agrônomo ucraniano de 31 anos, Trofim Lysenko. Ele defendia a vernalização (deixar a semente úmida no frio antes do plantio, para a planta florir mais cedo) e prometia safras recordes em poucos anos.

Vavilov o recebeu bem e chegou a elogiar o método em relatórios. Logo veio a divergência. Lysenko dizia que o trigo tratado no frio passava aos filhos a resistência ao inverno, e chamava a genética de Mendel de ciência burguesa.

Os testes não confirmavam as promessas. Vavilov pedia anos de ensaio em campo; Lysenko prometia resultado na próxima safra, e a coletivização forçada tinha deixado o país com fome entre 1932 e 1933.

Stálin preferiu a promessa rápida. Num congresso de fazendeiros em 1935, aplaudiu Lysenko de pé e gritou: "Bravo, camarada Lysenko, bravo!"

Ainda em 1935, Vavilov perdeu a presidência da Academia de Ciências Agrícolas. Colegas geneticistas começaram a ser presos. Georgy Karpechenko, Georgy Levitsky e outros pesquisadores do VIR sumiram nos anos seguintes.

Em março de 1939, numa reunião do Instituto, Vavilov respondeu aos ataques de frente, diante de todo o Instituto, e se recusou a renegar a genética de Mendel.

Lysenko assumiu a direção da Academia em 1938. Em 1940, um ano depois daquela reunião, o carro preto parou na estrada dos Cárpatos.

 

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III  O Que Ficou

As sementes que ninguém comeu

Vavilov foi levado para a prisão da polícia política em Moscou. Ao longo de 11 meses, passou por cerca de 400 interrogatórios, muitos de madrugada, segundo os autos abertos depois do fim da União Soviética. Foi acusado de sabotar a agricultura e de espionar para a Inglaterra.

Em julho de 1941, um tribunal militar o condenou à pena capital num julgamento de poucos minutos. Com a invasão alemã, foi transferido para a prisão número 1 de Saratov, a mesma cidade onde tinha sido aplaudido em 1920.

Em 1942, a pena foi trocada por 20 anos de prisão. A fome na cadeia já fazia o trabalho. Na cela, Vavilov dava aulas de botânica e de genética a outros presos para passar as horas.

Nikolai Vavilov morreu em 26 de janeiro de 1943, aos 55 anos. O atestado registrou distrofia, o termo médico para o corpo consumido pela falta de comida. Foi enterrado numa vala comum do cemitério da prisão; o lugar exato da cova não é conhecido, porque a vala nunca teve marcação.

O homem que montou o maior estoque de alimento genético do mundo morreu de fome.

Nos mesmos anos, o acervo dele passava por outra prova. Em setembro de 1941, o exército alemão cercou Leningrado. O cerco duraria 872 dias, e a cidade ficou sem comida.

Os funcionários do VIR esconderam caixas de semente no porão e se revezaram de guarda contra ratos, saqueadores e o frio. Havia ali toneladas de grãos, batatas e castanhas que poderiam virar comida.

Ninguém comeu. Dmitri Ivanov, especialista em arroz, morreu de fome cercado por sacos de arroz da coleção. Alexander Shchukin, que estudava o amendoim, foi achado morto na mesa de trabalho. Outros colegas tiveram o mesmo fim antes do fim do cerco, em janeiro de 1944.

A coleção sobreviveu quase inteira e voltou a ser plantada depois da guerra.

O nome de Vavilov ficou proibido por mais de uma década. Lysenko comandou a biologia soviética até 1964, e a genética só voltou às universidades do país depois da queda dele.

Em 1955, a Suprema Corte da União Soviética anulou a condenação de Vavilov. Em 1967, o Instituto de Plantas Cultivadas passou a se chamar Instituto Vavilov.

O irmão, Sergei, chegou a presidente da Academia de Ciências da União Soviética em 1945, sem conseguir saber onde Nikolai estava enterrado.

O banco de Leningrado, hoje São Petersburgo, ainda guarda centenas de milhares de amostras e envia sementes a pesquisadores de outros países. Variedades coletadas por Vavilov entraram no cruzamento de trigos, batatas e frutas plantadas até hoje.

Os bancos de sementes de reserva, como o cofre de Svalbard, na Noruega, inaugurado em 2008, seguem a ideia que ele defendeu: guardar a variedade antes que ela desapareça do campo.

"O que você guardaria mesmo com fome?"

Vavilov disse em março de 1939, diante dos colegas do Instituto: "Iremos para a fogueira, queimaremos, mas não renunciaremos às nossas convicções."

 
 
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Em 1916, o exército russo mandou Vavilov à Pérsia para descobrir por que os soldados ficavam tontos e doentes depois de comer o pão local. Qual foi a causa que ele encontrou?

AFarinha de centeio estragada pela umidade
BÁgua contaminada usada para sovar a massa
CTrigo misturado com sementes de joio, uma erva venenosa
DFungo da ferrugem que cobria os grãos

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