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Niemeyer e os 16 anos da igreja sem missa

Aos 35 anos, ele curvou o concreto à beira da lagoa da Pampulha, e a arquidiocese de Belo Horizonte recusou a igreja.

Igreja de São Francisco de Assis na Pampulha, com abóbadas curvas de concreto e o painel de azulejos azuis de Portinari.

Pampulha, 1943: a igreja das curvas

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Aos 35 anos, o arquiteto carioca Oscar Niemeyer viu ficar pronta, em 1943, uma igreja à beira de uma lagoa artificial de Belo Horizonte, com o teto feito de curvas de concreto.

A capela de São Francisco de Assis fazia parte de um bairro novo, a Pampulha, planejado para o lazer da elite mineira. O prefeito Juscelino Kubitschek tinha encomendado ao arquiteto, junto com ela, um cassino, um salão de dança e um clube náutico.

Quem passava pela margem via um prédio sem torre alta nem fachada de pedra. As abóbadas desciam até o chão como lençóis estendidos, e a parede dos fundos era um painel inteiro de azulejos azuis e brancos.

O painel trazia a assinatura de Candido Portinari, pintor de Brodowski, no interior paulista, já famoso no país. Nos azulejos, ele desenhou São Francisco cercado de bichos e pássaros. Dentro, pintou também o grande painel do altar.

Ao lado da nave, o paisagista Roberto Burle Marx plantou um jardim de espécies brasileiras. O escultor Alfredo Ceschiatti fez os relevos de bronze do batistério (o espaço reservado ao batismo).

Tudo estava pronto para a primeira celebração. Ela não veio.

O arcebispo de Belo Horizonte, dom Antônio dos Santos Cabral, recusou consagrar o templo (a bênção solene que autoriza o culto católico num prédio). Para ele, aquela forma não lembrava uma casa de Deus.

Pela cidade correram comparações maldosas: hangar de avião, galpão de fábrica, galinheiro. Portinari e Niemeyer, os dois simpáticos à esquerda, viraram assunto de sermão.

A igreja ficou de portas fechadas ao culto. Durante dezesseis anos, o prédio mais comentado da arquitetura brasileira esperou uma missa à beira da lagoa.

Para entender como um menino que desenhava no ar com o dedo chegou a dobrar o concreto daquele jeito, é preciso voltar a uma casa de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

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I  A Vida de Hoje

O desenhista de Laranjeiras

A resposta de ontem

Que medalha Londres deu a Nain Singh em 1877?

A Medalha de Ouro do Patrono, a maior honra da Real Sociedade Geográfica, pelas viagens no Tibete e pela posição de Lhasa. O geógrafo Henry Yule, ao apresentar o prêmio, disse que nenhum homem vivo tinha acrescentado tanto conhecimento seguro ao mapa da Ásia. Nain Singh foi o primeiro asiático a receber a medalha.

Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho nasceu em 15 de dezembro de 1907, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, então capital da República. Cresceu na casa do avô materno, Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, ministro do Supremo Tribunal Federal.

A família era católica, de missa aos domingos e oratório em casa. O menino preferia o lápis. Contou depois, nas memórias, que traçava figuras no ar com o dedo quando não tinha papel por perto.

Na juventude, dividia o tempo entre o futebol no Fluminense, as noites da Lapa e a gráfica do pai. Em 1928, aos 21 anos, casou-se com Annita Baldo, filha de imigrantes italianos.

O casamento pesou na escolha do ofício. Niemeyer entrou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio, e saiu formado engenheiro-arquiteto em 1934, já pai de uma filha, Anna Maria.

Ainda estudante, bateu à porta do escritório de Lucio Costa, o arquiteto que mais tarde traçaria o plano de Brasília. Pediu vaga e aceitou trabalhar sem salário. A família apertou o orçamento para ele aprender com quem admirava.

Em 1936, Costa montou uma equipe para projetar a sede do Ministério da Educação e Saúde, no centro do Rio. O consultor convidado era Le Corbusier, arquiteto franco-suíço, a voz mais ouvida do modernismo europeu.

Niemeyer, o mais novo do grupo, refez um esboço do mestre por conta própria. Costa gostou da versão do rapaz e adotou boa parte dela no projeto final.

O prédio subiu sobre pilotis (colunas que erguem o edifício do chão e liberam a calçada) e ganhou brise-soleil (quebra-sol, lâminas móveis que barram o calor na fachada). Virou referência para arquitetos de vários países.

Em 1939, Niemeyer e Lucio Costa desenharam juntos o pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York.

O pavilhão tinha rampa curva e varanda aberta para um jardim de plantas tropicais. A imprensa americana elogiou a leveza. O jovem carioca começou a ser citado fora do país.

Em 1940, Juscelino Kubitschek assumiu a prefeitura de Belo Horizonte. Queria transformar a represa da Pampulha, ao norte do centro, num polo de lazer para a capital mineira.

Kubitschek conheceu Niemeyer e encomendou o projeto do cassino. Pediu os desenhos para o dia seguinte. O arquiteto passou a noite num quarto de hotel e entregou o esboço pela manhã.

Do cassino nasceu o conjunto inteiro. Vieram a Casa do Baile, salão de dança popular numa ilha da lagoa, o Iate Clube e, por fim, a igreja de São Francisco de Assis.

Niemeyer tinha 32 anos quando recebeu a encomenda. Em Belo Horizonte, longe do olhar dos mestres europeus, decidiu testar a curva que vinha guardando no caderno.

 
 

II  O Momento que Virou

A capela da lagoa

O desenho da igreja saiu entre 1942 e 1943. Niemeyer apostou na abóbada parabólica (arco de concreto em curva contínua, que serve ao mesmo tempo de parede e de teto).

Sobre a nave, a área onde os fiéis se sentam, ergueu uma abóbada alta. Atrás do altar, enfileirou abóbadas menores para a sacristia e as salas de apoio, como ondas que diminuem.

O concreto armado (concreto com barras de aço por dentro) aparecia no país em pilares e lajes retas. Curvá-lo numa casca fina, sem coluna no meio, era aposta rara na construção brasileira daqueles anos.

A torre do sino ficou separada da nave. Niemeyer a desenhou como um trapézio invertido, mais largo no alto que na base, ligado à entrada por uma marquise (cobertura estreita de concreto sobre a porta).

As laterais curvas receberam pastilhas de vidro do artista Paulo Werneck, em tons de azul e verde. A parede dos fundos ficou com os azulejos de Portinari, voltados para quem chegava pela avenida.

Dentro, Portinari pintou o painel do altar e os quatorze quadros da Via Sacra (as etapas de Cristo até a crucificação). Aos pés de São Francisco, no altar, pôs um cão magro. Parte do clero viu no bicho um deboche.

A arquidiocese de Belo Horizonte recusou consagrar a igreja, e o templo ficou fechado ao culto.

Dom Antônio dos Santos Cabral conduzia a arquidiocese desde os anos 1920. Para ele, a igreja fugia da tradição das capelas mineiras, de torre, frontão e talha dourada. Os artistas, de ideias políticas suspeitas aos olhos da cúria, pioravam o quadro.

Kubitschek defendeu o conjunto em público, mas não convenceu o arcebispo. Sem consagração, nenhum padre podia celebrar ali. A igreja virou atração para visitante e cenário de fotografia.

Em 1945, Kubitschek deixou a prefeitura. No ano seguinte, o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu o jogo no país, e o cassino da Pampulha fechou as portas. O bairro planejado perdeu o movimento das noites de festa.

Corria a ideia de que a igreja, sem uso, podia vir abaixo. A resposta veio do Rio. Em 1947, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, dirigido por Rodrigo Melo Franco de Andrade, tombou a capela (registro legal que proíbe demolir ou alterar o prédio).

Foi o primeiro edifício moderno tombado no Brasil. A igreja tinha quatro anos de pronta e nenhuma missa celebrada.

Niemeyer seguiu trabalhando. Em 1945, entrou para o Partido Comunista Brasileiro, filiação que manteve pela vida inteira. Em 1947, integrou a equipe internacional que desenhou a sede da ONU, em Nova York.

Na Pampulha, o concreto curvo esperava, cada ano mais famoso fora do país e ainda sem bênção na própria cidade.

 

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III  O Que Ficou

A missa de 1959

A conversa com a arquidiocese andou na década de 1950. O prédio passou por reformas, a prefeitura cuidou da manutenção, e o culto católico ganhou ali um uso prometido em acordo.

Em 1959, a arquidiocese aceitou enfim consagrar a igreja de São Francisco de Assis. A primeira missa oficial chegou dezesseis anos depois da entrega da obra.

Naquele momento, o arquiteto da capela recusada desenhava a nova capital do país. Kubitschek, presidente desde 1956, tinha chamado Niemeyer e Lucio Costa para erguer Brasília no Planalto Central.

A curva da Pampulha subiu ao cerrado. O Palácio da Alvorada ganhou colunas finas, como velas apoiadas no chão. A Catedral de Brasília recebeu dezesseis pilares de concreto curvos, unidos no alto como mãos em oração.

Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960. A Catedral ficou pronta anos depois, em 1970, e lá a Igreja celebra missa desde a abertura.

Depois do golpe militar de 1964, Niemeyer passou a ter dificuldade para trabalhar no Brasil. Mudou-se para Paris, onde projetou a sede do Partido Comunista Francês, e fez obras na Argélia e na Itália.

Em 1988, Niemeyer recebeu o Prêmio Pritzker, o mais alto da arquitetura mundial, dividido com o americano Gordon Bunshaft.

Voltou ao Rio e seguiu desenhando até a velhice. Em Niterói, na margem leste da baía de Guanabara, entregou o Museu de Arte Contemporânea, uma taça de concreto sobre o mar, em 1996.

A igreja da Pampulha virou paróquia ativa. Recebe missa aos domingos, casamentos e batizados, e uma fila de turistas que chega para ver o painel de Portinari restaurado.

Em 2016, numa reunião em Istambul, a Unesco declarou o Conjunto Moderno da Pampulha Patrimônio Mundial. A capela que o arcebispo recusou entrou na lista ao lado do cassino e da Casa do Baile.

Oscar Niemeyer morreu em 5 de dezembro de 2012, no Rio de Janeiro, dez dias antes de completar 105 anos. Trabalhou no escritório de Copacabana até poucas semanas antes.

Niemeyer deixou o credo escrito em As Curvas do Tempo, memórias publicadas em 1998: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual.”

Fica a pergunta  ·  até amanhã

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Por que a igreja da Pampulha, fechada ao culto, escapou da demolição em 1947?

AO papa Pio XII enviou uma carta pedindo a preservação do templo
BO Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tombou o prédio
CDom Antônio dos Santos Cabral consagrou a igreja naquele ano
DJuscelino Kubitschek comprou o terreno com recursos próprios

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