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Nain Singh e o rosário de 100 contas

Professor de aldeia no Himalaia, ele cruzou o Tibete disfarçado de peregrino em 1865, contando passos para o serviço britânico de mapas.

Peregrino com rosário budista numa trilha nevada do Himalaia, a caminho de Lhasa.

Tibete, 1865: o caminho contado em passos

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Aos 34 anos, o professor de aldeia Nain Singh Rawat atravessou a fronteira do Nepal, em março de 1865, vestido de mercador peregrino e com um rosário budista entre os dedos. O rosário tinha cem contas. O dos monges tibetanos tem 108.

As oito contas a menos eram a parte que interessava. A cada cem passos, Nain Singh corria uma conta pelo fio. Cada décima conta era maior que as outras e marcava mil passos. Uma volta inteira somava dez mil.

O passo também era calibrado. Ele tinha treinado meses para manter a mesma passada em subida, descida, neve e cascalho, de modo que duas mil passadas fizessem uma milha inglesa, cerca de 1,6 quilômetro.

Na bagagem, nada parecia instrumento. O moinho de oração, cilindro de metal que o budista gira enquanto reza, guardava rolos de papel com números no lugar das preces. Um sextante, aparelho que mede a altura do sol e das estrelas, ia num fundo falso do baú.

O mercúrio das leituras viajava dentro de uma concha de búzio selada com cera. Um termômetro seguia escondido no bordão de caminhada. Fervendo água e lendo a temperatura, dava para calcular a altitude do lugar.

O destino era Lhasa, capital do Tibete, cidade fechada a estrangeiros. Um europeu flagrado na estrada seria mandado de volta. Um espião do governo britânico da Índia arriscava a cabeça.

Os britânicos não tinham a posição exata de Lhasa em mapa algum. Sabiam que ficava ao norte do Himalaia, e pouco mais. Mandaram então um homem das montanhas, que falava tibetano e conhecia os costumes da estrada.

Nain Singh caminhou dez meses até avistar o palácio do Potala, a residência do Dalai Lama no alto de um morro. Contou cada passo do caminho.

Para entender como um professor de vilarejo chegou a esse rosário, é preciso subir até um vale gelado do Kumaon, colado à fronteira tibetana.

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I  A Vida de Hoje

O professor de Milam

Nain Singh Rawat nasceu em 1830, em Milam, aldeia do vale de Johar, no Kumaon, região do Himalaia que hoje pertence ao estado indiano de Uttarakhand. A aldeia fica ao pé de uma das passagens de montanha que levam ao Tibete.

A gente de Milam vivia do comércio de altitude. A família dele trocava cereais e tecidos indianos por sal, lã e bórax tibetanos. Todo verão, as caravanas de ovelhas e iaques cruzavam a fronteira carregadas.

Ainda menino, ele acompanhou o pai nessas viagens. Aprendeu o tibetano falado nos mercados, os gestos de cortesia dos monastérios e o hábito local de rezar com o rosário na mão.

Em 1855, os irmãos alemães Adolf, Hermann e Robert Schlagintweit chegaram ao Kumaon para medir o magnetismo da Terra no Himalaia. Contrataram Nain Singh e o primo dele, Mani Singh, como guias. Por dois anos, ele viu europeus trabalhando com bússola, barômetro e termômetro.

Depois disso, voltou para Milam e virou mestre-escola. Dirigia a escola do governo na aldeia, onde ensinava as crianças a ler e a fazer contas. Ganhava pouco e tinha o respeito do vale.

Em 1863, um oficial britânico subiu até o Kumaon atrás de homens como ele.

Era o capitão Thomas George Montgomerie, engenheiro do Grande Levantamento Trigonométrico da Índia (Great Trigonometrical Survey, o serviço britânico que mapeava o subcontinente por triângulos medidos em terra). O serviço esbarrava num muro: nenhum europeu passava pela fronteira tibetana sem ser barrado.

Montgomerie propôs treinar homens da fronteira, gente que cruzava o Himalaia sem chamar atenção. Nain Singh e Mani Singh aceitaram e foram levados a Dehradun, sede do serviço, no sopé das montanhas.

O treino durou dois anos. Eles aprenderam a usar o sextante, a ler a bússola, a calcular a latitude pelas estrelas e a medir a altitude pela água fervente.

Nas aulas noturnas, os dois decoravam as estrelas mais brilhantes do céu de inverno, as que serviriam de referência no planalto. Montgomerie queria leituras que um agrimensor em Dehradun pudesse refazer no papel, linha por linha.

O exercício mais longo era andar. Nain Singh caminhou dias seguidos em terreno já medido, com instrutores conferindo a contagem, até a passada sair igual em qualquer chão.

Os relatórios do serviço passaram a chamá-lo de Pundit, palavra do híndi para sábio ou professor. Nos papéis internos, virou o Número 1. A identidade dos espiões ficava fora dos documentos públicos.

Montgomerie criou ainda um código para as anotações. Rumo da bússola, contagem de passos e leituras dos instrumentos viravam linhas de aparência religiosa, enroladas dentro do moinho de oração.

 
 

II  O Momento que Virou

Dez meses até o Potala

Nain Singh e Mani Singh saíram de Dehradun no começo de 1865 e entraram no Nepal. Em Katmandu, adotaram o disfarce de mercadores de Bashahr, região do oeste do Himalaia, em peregrinação a Lhasa.

A primeira tentativa de seguir para o norte falhou na fronteira, onde os guardas desconfiaram dos dois. Mani Singh voltou para a Índia por outra rota. Nain Singh seguiu sozinho e se juntou a uma caravana de mercadores do Ladakh.

Na estrada, ele andava atrás do grupo para contar sem ser interrompido. À noite, enquanto os outros dormiam, se afastava do acampamento para medir a altura das estrelas com o sextante.

Os números iam para os rolos de papel. Quando alguém chegava perto, ele girava o moinho e murmurava a oração budista, igual a qualquer peregrino da caravana.

A caravana alcançou o rio Tsangpo, o grande rio do Tibete, que mais adiante desce para a Índia e ali se chama Brahmaputra. Nain Singh acompanhou o curso dele por semanas, contando passos no planalto gelado.

Em Shigatse, sede do Panchen Lama, o segundo líder religioso do Tibete, ele chegou a ser recebido em audiência. Ninguém suspeitou do mercador de rosário na mão.

Em janeiro de 1866, Nain Singh entrou em Lhasa.

Alugou um quarto numa estalagem, ganhou algum dinheiro ensinando contas a comerciantes locais e ficou cerca de três meses na cidade. Viu o Dalai Lama, então um menino, numa audiência pública no Potala.

Nas noites limpas, mediu a latitude de Lhasa pelas estrelas, do alto da estalagem. Fervendo água, calculou a altitude. Era a primeira vez que a capital do Tibete ganhava uma posição tirada com instrumento.

Lhasa tinha mercados de chá chinês, tecidos da Índia e cavalos da Mongólia. Nain Singh anotou o movimento das caravanas, o preço do sal e o número aproximado de casas, dados que o governo britânico também queria.

Os funcionários chineses da cidade vigiavam forasteiros e pediam documentos. Nain Singh saía pouco de dia e evitava as ruas onde eles circulavam.

Em abril de 1866, partiu para o oeste com uma caravana de mercadores. Passou pelo lago Manasarovar, sagrado para hindus e budistas, e voltou para a Índia pelas passagens do Kumaon.

No outono de 1866, entregou os rolos a Montgomerie em Dehradun. O rosário tinha dado milhares de voltas.

 

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III  O Que Ficou

A cidade no mapa

Montgomerie passou meses convertendo as anotações. Dos passos contados e dos rumos da bússola saiu uma linha de cerca de dois mil quilômetros, de Katmandu a Lhasa e de Lhasa ao oeste do Tibete.

Com as leituras do Pundit, ele calculou a latitude e a altitude de Lhasa. O relatório saiu em 1868 no Journal of the Royal Geographical Society, a revista da Real Sociedade Geográfica de Londres.

A rota de Nain Singh virou a espinha dos mapas britânicos do Tibete central. Dela partiram as viagens dos pundits seguintes, que preencheram o resto do planalto.

Ele mesmo voltou ao campo. Em 1867, foi às minas de ouro de Thok Jalung, no oeste do Tibete, onde os mineiros cavavam em tendas montadas sobre o chão congelado.

Em 1871, publicou em híndi o Akshansh Darpan (Espelho das Latitudes), manual de medição para os futuros alunos do serviço.

A última grande viagem começou em 1873, aos 43 anos. Ele partiu de Leh, no Ladakh, cruzou o norte do Tibete por uma rota ausente de qualquer mapa, passou de novo por Lhasa e desceu até Assam, no nordeste da Índia, em 1875.

A viagem de 1873 custou a vista de Nain Singh. Anos lendo instrumento sob o sol refletido na neve tinham estragado os olhos dele, e ele deixou o serviço em seguida.

O governo britânico deu a ele uma aldeia no distrito de Moradabad, com as rendas da terra, e o título de Companheiro da Ordem do Império Indiano. Nain Singh viveu ali com a família os últimos anos.

Ele faleceu em 1882, aos 51 anos, de cólera. O método ficou: o serviço treinou outros homens da fronteira, entre eles Kishen Singh, primo dele, que cruzou o Tibete até a China.

Em 2004, os Correios da Índia lançaram um selo com o rosto de Nain Singh. Em 2017, no aniversário de 187 anos do nascimento dele, o Google pôs o desenho de Nain Singh na página de busca da Índia, com o rosário e o bordão. Na beira do selo de 2004 aparece o desenho de um teodolito, o aparelho de medir ângulos dos agrimensores.

Montgomerie deixou registrado no relatório de 1868 que o Pundit “manteve a contagem dos passos durante toda a viagem”.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que medalha a Real Sociedade Geográfica de Londres entregou a Nain Singh em 1877?

★ RARO

🔒

EDIÇÃO SELADA

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Quiz da edição

Quantas contas tinha o rosário que Nain Singh usava para contar os passos no caminho até Lhasa?

A108 contas, igual ao rosário dos monges tibetanos
B50 contas, pensadas pra facilitar a divisão por dois
C100 contas, oito a menos que o rosário tibetano
D1000 contas, uma pra cada mil passos

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