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Milankovic e os 600 mil anos de sol

Detido como inimigo em 1914, o engenheiro sérvio passou a guerra numa biblioteca de Budapeste medindo o sol de cada verão da Terra.

Homem de terno escreve contas numa mesa de biblioteca em Budapeste, entre pilhas de livros, em 1915.

Budapeste, 1915: as contas na biblioteca

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Aos 35 anos, o engenheiro sérvio Milutin Milankovic desceu do trem em Dalj, a aldeia onde nasceu, na beira do Danúbio, em lua de mel com a mulher, Kristina Topuzović, no verão de 1914.

Dalj ficava no Império Austro-Húngaro. Milankovic dava aula de matemática aplicada na Universidade de Belgrado e tinha passaporte da Sérvia, o reino vizinho.

Em 28 de junho, em Sarajevo, o estudante Gavrilo Princip matou a tiros o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco. Um mês depois, Viena declarou guerra à Sérvia.

Da noite para o dia, o professor em férias virou súdito inimigo, cidadão de um país em guerra contra o império onde ele estava. A polícia o prendeu em Dalj e o mandou para o campo de prisioneiros de Nežider, perto da fronteira com a Áustria.

Na bagagem de mão, ele levava papéis com contas começadas sobre o sol, a órbita da Terra e o frio das eras glaciais. Na primeira noite de cela, pegou a caneta e continuou a calcular.

Kristina viajou a Viena e bateu à porta de quem pudesse interceder pelo marido. Em dezembro de 1914, chegou a ordem de soltura, com condições.

Milankovic iria para Budapeste, viveria sob vigilância da polícia, se apresentaria com regularidade e não deixaria a cidade. Em troca, teria acesso à biblioteca da Academia Húngara de Ciências.

Ali, entre 1914 e 1918, com lápis, papel e tábuas de logaritmos (tabelas que trocam multiplicação por soma), ele calculou quanto sol cada faixa da Terra recebeu em cada verão dos últimos 600 mil anos.

Não havia máquina elétrica de calcular na mesa dele. Cada número das tabelas saiu à mão, linha por linha, numa sala de leitura cercada de livros em húngaro, alemão e francês.

A ideia por trás das contas tinha nascido três anos antes, numa mesa de café de Belgrado. A confirmação viria só em 1976, dezoito anos depois da morte dele, tirada da lama do fundo do oceano Índico.

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I  A Vida de Hoje

O engenheiro do concreto

Milutin Milankovic nasceu em 28 de maio de 1879, em Dalj, numa família sérvia de proprietários rurais, num pedaço do Império Austro-Húngaro que hoje pertence à Croácia.

O pai, Milan, morreu quando o menino tinha sete anos. A mãe, Jelisaveta, criou os filhos com ajuda da família, e Milutin estudou em casa até seguir para o ginásio de Osijek, cidade vizinha.

Em 1896, entrou na Escola Técnica Superior de Viena para estudar engenharia civil. Em 1904, defendeu o doutorado, com uma tese sobre linhas de pressão (o caminho que a força percorre dentro de um arco).

Foi trabalhar numa construtora de Viena especializada em concreto armado (concreto com vergalhão de aço por dentro). Projetou pontes, barragens e aquedutos pelo império e registrou patentes de estruturas.

O emprego pagava bem. Em 1909, ele largou o escritório para assumir a cadeira de matemática aplicada na Universidade de Belgrado, capital da Sérvia, com salário menor.

Ensinava mecânica racional, mecânica celeste (o cálculo do movimento dos astros) e física teórica. A universidade tinha pouca verba, e ele queria um problema grande que coubesse numa mesa com papel e lápis.

Em 1911, numa mesa de café de Belgrado, Milankovic decidiu calcular o clima de um planeta só a partir da luz do sol.

Nas memórias, ele conta que estava com o poeta Vojislav Ilić, o Jovem, e que anunciou o plano ao amigo depois da terceira taça de vinho. Queria explicar o clima da Terra, de Marte e de Vênus, no presente e no passado.

A pergunta das eras do gelo já tinha história. Em 1842, o matemático francês Joseph Adhémar sugeriu que a órbita da Terra explicava as glaciações. Nas décadas de 1860 e 1870, o escocês James Croll, zelador de um museu em Glasgow, refinou a hipótese.

Croll apostava nos invernos: achava que invernos longos e escuros juntavam gelo. As datas que ele previu para a última glaciação não bateram com o que os geólogos achavam nas rochas, e a ideia caiu em descrédito no fim do século 19.

Milankovic resolveu fazer a conta inteira, com os três movimentos lentos da Terra:

• Excentricidade (o quanto a órbita foge do círculo), que varia num ciclo de cerca de 100 mil anos.

• Obliquidade (a inclinação do eixo da Terra), que oscila entre 22,1 e 24,5 graus a cada 41 mil anos.

• Precessão (o giro lento do eixo, como um pião), que muda a estação em que a Terra passa mais perto do sol, num ciclo perto de 23 mil anos.

Em 1912 e 1913, publicou os primeiros artigos sobre a temperatura da Terra e de outros planetas. Faltava aplicar o método ao passado, verão por verão, e a tarefa pedia anos de conta.

 
 

II  O Momento que Virou

Uma mesa na Academia Húngara

Em Budapeste, o matemático Kálmán Szily, da Academia Húngara de Ciências, abriu a biblioteca da instituição ao prisioneiro sérvio. Milankovic ganhou mesa, acervo e silêncio.

Kristina viveu com ele na cidade durante a guerra. O filho do casal, Vasilije, nasceu em 1915.

O trabalho girava em torno da insolação (a energia do sol que chega a cada metro quadrado do topo da atmosfera). Para cada latitude e cada estação, ele somava quanto sol entrava, ano após ano.

Os dados da órbita vinham de tabelas publicadas em 1904 pelo astrônomo alemão Ludwig Pilgrim, que tinha calculado a posição da Terra para o último milhão de anos. Milankovic transformou aquelas posições em calor.

A aposta dele virava a de Croll do avesso. O gelo nascia dos verões fracos: se o verão das altas latitudes do norte esquentava pouco, a neve do inverno não derretia e se acumulava, ano sobre ano, até virar geleira.

Em 1920, saiu em Paris o livro com as contas de Budapeste, a Teoria matemática dos fenômenos térmicos produzidos pela radiação solar.

Dois anos depois, chegou a Belgrado uma carta do climatologista alemão Wladimir Köppen, então com 76 anos. Ele queria as curvas de sol de verão para as latitudes de 55, 60 e 65 graus norte, nos últimos 600 mil anos.

Milankovic voltou às tábuas de logaritmos. Nas memórias, conta que levou cerca de cem dias para entregar as curvas.

Em 1924, Köppen e o genro, o meteorologista Alfred Wegener, o da deriva dos continentes, publicaram Os climas do passado geológico (Die Klimate der geologischen Vorzeit) com o gráfico de Milankovic.

Os vales da curva caíam perto das quatro glaciações dos Alpes descritas pelos geólogos Albrecht Penck e Eduard Brückner, chamadas Günz, Mindel, Riss e Würm. Pela primeira vez, uma conta astronômica parecia conversar com as pedras.

Milankovic passou as duas décadas seguintes refinando o cálculo. Em 1941, terminou o Cânone da insolação da Terra (Kanon der Erdbestrahlung), o resumo da obra inteira, escrito em alemão.

A impressão acabou em Belgrado no começo de abril. Em 6 de abril, a aviação alemã bombardeou a cidade, e a gráfica foi atingida. Segundo as memórias dele, a maior parte dos exemplares já impressos sobreviveu num depósito.

Semanas depois, com Belgrado ocupada, dois oficiais alemães bateram à porta do professor com lembranças de um geólogo que admirava o trabalho. Milankovic entregou a eles uma cópia do Cânone, para guardar longe da guerra.

 

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III  O Que Ficou

A lama do oceano Índico

Nos anos 1950, a datação por carbono 14 (a idade de um resto orgânico, medida pelo carbono radioativo que ele perde) chegou aos geólogos. Várias datas das glaciações recentes não batiam com as curvas de Milankovic.

Muitos manuais passaram a tratar a teoria como hipótese bonita e errada. Os depósitos de gelo em terra firme eram bagunçados demais: uma geleira nova apagava as marcas da anterior.

Em 1955, o geólogo italiano Cesare Emiliani, da Universidade de Chicago, mediu isótopos de oxigênio (versões do mesmo átomo com pesos diferentes) em conchas de foraminíferos, bichos de uma célula só que vivem no mar. A proporção entre os dois oxigênios registrava o tamanho das geleiras do mundo.

Milutin Milankovic morreu em 12 de dezembro de 1958, em Belgrado, aos 79 anos. A teoria dele ainda dividia os especialistas.

Em dezembro de 1976, a revista Science publicou a prova que faltava.

Os autores eram o geólogo americano James Hays, o geólogo americano John Imbrie e o geofísico britânico Nicholas Shackleton. Eles analisaram dois cilindros de lama tirados do fundo do oceano Índico, entre a África e a Antártida, com cerca de 450 mil anos de sedimento empilhado.

Nos isótopos e nos fósseis daquela lama, os três acharam, em 1976, ritmos de cerca de 100 mil, 42 mil e 23 mil anos. Eram os ciclos de Milankovic.

O título do artigo virou bandeira: “Variações na órbita da Terra: o marca-passo das eras do gelo” (Variations in the Earth's Orbit: Pacemaker of the Ice Ages), Hays, Imbrie e Shackleton, Science, 1976.

Ficou uma lacuna sem resposta até hoje. A excentricidade muda pouco a quantidade total de sol, e mesmo assim o ritmo de 100 mil anos domina o último milhão de anos de glaciações. Os climatologistas ainda debatem o mecanismo: gelo, oceano e gás carbônico entram na conta, e nenhum modelo fechou a questão.

O nome ficou espalhado pelo céu. Uma cratera da Lua, uma de Marte e um asteroide levam o sobrenome dele, e a União Europeia de Geociências entrega todo ano a medalha Milutin Milankovic a pesquisadores do clima.

Na primeira noite no campo de Nežider, Milankovic sentou na cama de ferro e olhou o quarto. Escreveu nas memórias: “O quartinho me pareceu um pouso noturno na minha viagem pelo universo.”

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem, em Viena, conseguiu tirar Milankovic do campo de Nežider em 1914?

★ RARO

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No texto, qual dos três movimentos lentos da Terra calculados por Milankovic completa um ciclo em cerca de 41 mil anos?

AExcentricidade da órbita
BObliquidade do eixo
CPrecessão do eixo
DInsolação de verão

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