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Mil e quinhentos quilômetros sem mapa
Em 1914 ele guiou Theodore Roosevelt por um rio que não aparecia em carta nenhuma, com canoa perdida e comida contada.
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O Rio da Dúvida, Mato Grosso, 1914
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Aos 48 anos, o coronel Cândido Mariano da Silva Rondon recebeu no sertão de Mato Grosso um ex-presidente dos Estados Unidos e avisou, antes de fechar o combinado, que o curso d'água escolhido não tinha carta, não tinha foz conhecida e não tinha prazo de saída.
Um rio sem mapa em 1913 significava uma lista curta de fatos duros. Ninguém sabia quantos quilômetros a corrente corria, quantas cachoeiras cortavam o caminho, se havia queda alta o bastante para obrigar a carregar canoa por dentro da mata, nem se aquela água desembocava no Madeira, no Aripuanã ou em lugar nenhum que já tivesse nome. Quem entrava levava a comida que conseguisse carregar e descobria o resto empurrando a canoa.
A comida era o item que decidia tudo. A expedição entrou com ração calculada para um trecho estimado por dedução, e a estimativa era um chute educado sobre uma região que nenhuma carta oficial cobria. Ração acabando no meio de mata fechada não gera fome dramática, gera aritmética: quanto se anda por dia, quanto se come por dia, quantos dias faltam para a boca do rio que ninguém viu.
O grupo tinha ainda um problema de composição. Havia um americano de 55 anos que já tinha governado o próprio país e queria um feito geográfico grande antes de envelhecer, e havia uma tropa brasileira de camaradas contratados, sertanistas e militares acostumados a abrir picada por meses seguidos por um salário miúdo. Os dois grupos falavam línguas diferentes, comiam quantidades diferentes e obedeciam a hierarquias diferentes.
Quem comandava aquela mistura era um oficial nascido pobre no interior de Mato Grosso, que tinha passado dezoito anos plantando poste de telégrafo em região onde nem a fronteira estava desenhada, e que já tinha enterrado dezenas de homens dele nesse serviço. A escolha do rio foi dele, e o preço da escolha também.
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I A Vida de Hoje
O órfão que plantou telégrafo no sertão
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Aos dois anos ele já não tinha pai nem mãe. Aos 42, comandava uma linha telegráfica de quase 1.500 quilômetros dentro da floresta.
Ele nasceu em 5 de maio de 1865 no distrito de Mimoso, em Mato Grosso, filho de um lavrador que morreu antes do parto e de uma mulher de ascendência bororo e terena que partiu quando o menino tinha dois anos.
Quem o criou foi um tio, e depois um avô, numa fazenda de gado a dias de viagem de Cuiabá. A infância dele foi de vaqueiro pequeno, com trabalho de campo desde cedo e escola tarde, e o sobrenome Rondon veio do tio que o registrou como filho de criação.
Aos 16 anos ele dava aula em Cuiabá e se alistou, e no ano seguinte entrou na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, então o único caminho de carreira técnica para um rapaz sem sobrenome.
Lá ele encontrou Benjamin Constant e o positivismo de Auguste Comte, que virou a bússola moral da vida inteira dele. Formou-se em matemática e ciências físicas e naturais, e saiu de lá com uma convicção rara para um oficial do século 19: território se conquista com instrumento de medição, não com fuzil.
Em 1890 ele voltou para o sertão a serviço da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas, para ligar Cuiabá a Corumbá com fio de cobre e poste de madeira, atravessando pantanal, cerrado e área sem estrada. Cada quilômetro exigia picada aberta a facão, ponte improvisada e acampamento montado do zero.
Entre 1900 e 1906 ele estendeu linha até a fronteira com a Bolívia e o Paraguai, e em 1907 assumiu a comissão que levaria o telégrafo de Mato Grosso ao Amazonas, quase 1.500 quilômetros de fio por dentro de floresta que o Estado brasileiro conhecia só por boato.
A obra durou até 1915 e cobrou caro. Homens morreram de malária, de beribéri e de acidente de rio, e ele mesmo perdeu dedo do pé para infecção e passou meses comendo o que a mata dava.
No caminho ele topou com dezenas de povos indígenas, e ali fixou a regra que o tornaria conhecido: entrar desarmado, deixar presente em clareira, esperar o tempo que fosse e nunca atirar, mesmo sob flechada. A tropa dele perdeu gente cumprindo a ordem, e a ordem não mudou.
Em 1910 ele fundou e dirigiu o Serviço de Proteção aos Índios, primeiro órgão federal criado para lidar com povos originários fora da lógica de catequese e de guerra. O desenho tinha defeito grave, porque previa transformar aldeia em posto agrícola, e ele levaria críticas duras por isso décadas depois.
Nesse trabalho ele mapeou rios que nenhum brasileiro de gabinete conhecia, e um deles ficou anotado no caderno como curso de origem incerta e destino desconhecido. Ele batizou o rio de Dúvida e deixou a descida para depois.
Em 1913, um telegrama do Itamaraty avisou que Theodore Roosevelt viria ao Brasil e queria uma expedição de verdade. Rondon abriu o caderno e ofereceu o rio que ainda não tinha resposta.
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II O Momento que Virou
A descida do Rio da Dúvida, 1914
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Em 27 de fevereiro de 1914 a expedição colocou sete canoas na água do Rio da Dúvida, com 22 homens, ração calculada para cerca de cinquenta dias e nenhuma carta do trecho que vinha pela frente.
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O acordo tinha sido fechado meses antes. Roosevelt chegara ao Brasil para coletar espécimes destinados ao Museu Americano de História Natural, e o governo brasileiro ofereceu algo maior: descer com Rondon um curso d'água que não aparecia em mapa nenhum.
A tropa saiu de Tapirapoã em dezembro de 1913 e levou dois meses de mula e de marcha só para chegar à cabeceira, e quando as canoas entraram na água o grupo já tinha abandonado bagagem e cortado a lista de mantimentos pela metade.
O rio cobrou desde a primeira semana. Cachoeira atrás de cachoeira obrigava a parar, descarregar tudo, arrastar canoa pesada por cima de pedra e mata e montar acampamento de novo adiante, num ritmo que às vezes não passava de poucos quilômetros por dia.
A rotina de trabalho de Rondon não afrouxou nem com o atraso:
| Medir antes de andar cada volta do rio era levantada com bússola e cronômetro, porque expedição sem levantamento vira passeio e não vira mapa |
| Nomear tudo cada afluente, cachoeira e ilha recebia nome no caderno na hora, com posição anotada, para que o trecho existisse em papel mesmo se ninguém voltasse |
| Comer o que o mato dá caça, pesca e coleta entravam na conta diária para esticar a ração seca, que era o único item que não se repunha |
| Não atirar em ninguém mesmo em trecho de gente arisca, a ordem seguiu sendo deixar presente e passar, e ela valeu inclusive quando flecha acertou o cachorro dele |
Em março a expedição perdeu duas canoas num trecho de corredeira, e depois perdeu um homem: Simplício, remador experiente, sumiu na água quando a embarcação virou. O grupo parou, procurou e seguiu, porque parar mais tempo significava comer o que já não havia.
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"Já vivi e aproveitei tanto da vida quanto nove outros homens que conheço; tive a minha parte, e se for preciso deixar meus restos na América do Sul, estou pronto para isso."
Theodore Roosevelt, citado por Candice Millard em "The River of Doubt", 2005
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O próprio Roosevelt entrou na lista de baixas prováveis. Ao pular na água para segurar uma canoa que batia na pedra, ele abriu a perna já operada anos antes, a ferida infeccionou, veio febre alta e ele passou dias carregado, pedindo que o deixassem para trás.
Faltando poucas semanas de rio, um camarada chamado Júlio de Lima, flagrado furtando comida da ração comum, atirou no sargento Paixão e fugiu para a mata. A expedição ficou com um homem a menos, uma arma a menos e a certeza de que a fome já mexia com a disciplina.
Rondon não abandonou o procedimento nem no pior trecho. Ele seguiu levantando o curso com instrumento, seguiu nomeando acidente geográfico e seguiu registrando distância percorrida, o que significava trabalho técnico feito com fome, com febre e com um ex-presidente doente numa canoa.
Em 26 de abril de 1914 a expedição alcançou a confluência com o rio Aripuanã e encontrou seringueiros, prova de que aquela água ia dar em lugar conhecido. Foram cerca de 1.500 quilômetros de curso levantado do zero e dois meses de descida.
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