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Em 1950, a bailarina e antropóloga americana Katherine Dunham chegou ao Brasil em turnê com a própria companhia. Tinha estudado na Universidade de Chicago e pesquisado, nos anos 1930, as danças do Haiti, da Jamaica e da Martinica.
Dessas viagens nasceu a técnica Dunham, método de treino que junta o balé, a dança moderna e os movimentos das religiões afro-caribenhas.
Em São Paulo, o Hotel Esplanada recusou hospedar Dunham por ela ser negra. O caso virou escândalo nos jornais e apressou a Lei Afonso Arinos, de 1951, primeira lei brasileira a punir a discriminação racial.
No Rio, Dunham viu Mercedes dançar e ofereceu a ela uma bolsa de estudos na escola que mantinha em Nova York, a Katherine Dunham School of Arts and Research (Escola Katherine Dunham de Artes e Pesquisa).
Mercedes aceitou. Pediu licença do Municipal, atravessou o continente e passou cerca de um ano em Manhattan, em aulas diárias com a companhia e com os professores da escola.
A escola ficava perto da Broadway e recebia bailarinos, atores e músicos. Nas mesmas salas estudaram, naqueles anos, nomes como Marlon Brando e Eartha Kitt, que passaram pelas aulas de Dunham.
As aulas começavam no chão, com respiração e isolamento de cada parte do corpo: só o quadril, só os ombros, só a coluna. Depois vinham os ritmos de tambor tocados ao vivo.
Em Nova York, Mercedes aprendeu a transformar o movimento do terreiro em aula com método, contagem e nome para cada passo.
Ela voltou ao Rio com a técnica no corpo e um plano na cabeça. O Municipal seguiu igual: a bailarina que estudara com Dunham continuava no fundo do palco.
Ela chegou a pedir papéis de solista e ouviu que não havia personagem para ela no repertório da casa, feito de princesas, fadas e camponesas europeias.
Mercedes decidiu montar a própria companhia. Em 1953, fundou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista, formado só por bailarinos negros.
Boa parte do elenco nunca tinha pisado numa escola de dança. Vinha das favelas, das rodas de samba e dos terreiros de candomblé (a religião de matriz africana que cultua os orixás).
Antes de criar uma coreografia, Mercedes ia aos terreiros. Pedia licença às mães de santo, as sacerdotisas que dirigem cada casa, e observava as danças de cada orixá, as divindades do candomblé.
Cada orixá tem gesto próprio. Ogum, o guerreiro, corta o ar como quem abre caminho com espada; Iemanjá, a senhora das águas, ondula os braços como maré.
Mercedes levou esses gestos para a sala de ensaio, organizou em sequências e ensinou com a disciplina da barra que aprendera no Municipal.
O resultado ganhou nome nas aulas dela: dança afro-brasileira, com técnica própria, repertório e vocabulário que podiam ser passados de professor para aluno.
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