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Mercedes Baptista e a vaga de 1948 no Municipal

Filha de costureira de Campos, ela passou no concurso do Theatro Municipal do Rio, estudou com Katherine Dunham e fundou o próprio balé.

Mercedes Baptista em cena, nos anos 1950, num palco do Rio de Janeiro, de braços abertos.

Rio, anos 1950: Mercedes Baptista em cena

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Aos 27 anos, a bailarina Mercedes Baptista subiu em 1948 ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para o concurso do corpo de baile, o grupo fixo de bailarinos da casa, e saiu aprovada.

O teatro da Cinelândia, no centro da então capital do país, tinha aberto as portas em 1909, com fachada inspirada na Ópera de Paris. A escola de dança e a companhia oficial funcionavam no mesmo prédio.

Até aquele ano, nenhuma mulher negra tinha calçado a sapatilha de ponta, o calçado de bico duro que deixa a bailarina na ponta dos dedos, como integrante fixa da companhia.

Mercedes entrou como a primeira. Tinha passado anos na escola do próprio teatro, com aula diária de barra (o apoio de madeira preso à parede onde começa todo treino de balé) e exame no fim de cada ano.

A aprovação não trouxe papel. Nos espetáculos seguintes, ela ficava na última fila do corpo de baile, quando entrava. Muitas noites passou fora da escala, vendo as colegas brancas subirem para os solos.

O figurino também tinha sido pensado para outra bailarina. As malhas cor-de-rosa imitavam a pele clara, e a maquiagem de palco da época clareava os rostos sob a luz forte da ribalta.

Mercedes manteve o contrato. Seguia nas aulas, cumpria horário e, à noite, procurava outros palcos da cidade, onde a dança dos terreiros e das rodas de samba já tinha lugar.

Num desses palcos, o Teatro Experimental do Negro, companhia criada em 1944 pelo ator e escritor Abdias Nascimento, ela encontrou gente que discutia em voz alta onde o artista negro podia trabalhar no Brasil.

Dois anos depois daquele concurso, uma bailarina americana desembarcaria no Rio e mudaria o rumo dela. Antes, é preciso voltar a Campos dos Goytacazes, à casa de uma costureira, no começo dos anos 1920.

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I  A Vida de Hoje

A bilheteira de Campos

A resposta de ontem

Quem tirou Milankovic do campo de Nežider em 1914?

Foi Emanuel Czuber, matemático da Escola Técnica Superior de Viena e antigo professor de Milankovic. A pedido de Kristina, ele intercedeu junto às autoridades do império, e em dezembro de 1914 o preso trocou o campo de Nežider por Budapeste, com a biblioteca da Academia Húngara aberta às contas.

Mercedes Baptista nasceu em 20 de maio de 1921, em Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio, cidade de usinas de açúcar à beira do rio Paraíba do Sul.

Foi criada pela mãe, costureira, numa casa sem dinheiro sobrando. Cresceu entre retalhos, moldes de papel e encomendas que precisavam ficar prontas no sábado.

Ainda moça, mudou-se para o Rio de Janeiro. Trabalhou em fábrica, foi empregada doméstica e arrumou emprego de bilheteira num cinema, vendendo ingresso por trás de um guichê.

Do guichê, via os filmes musicais de Hollywood que lotavam as sessões. Ali começou a querer a dança como ofício, e não só como festa de fim de semana.

O primeiro curso foi com Eros Volúsia, bailarina carioca que misturava balé com danças indígenas e afro-brasileiras. Volúsia dava aula num curso ligado ao Serviço Nacional de Teatro, órgão do governo federal.

Com Eros Volúsia, Mercedes viu pela primeira vez o gesto do terreiro tratado como coreografia de palco.

Depois veio a Escola de Dança do Theatro Municipal. Lá, o professor Yuco Lindberg cobrava o balé clássico de manual: posição de pés, giro, salto e postura repetidos até o corpo decorar.

Mercedes treinava cedo e trabalhava à tarde. A rotina era de bilheteria, barra e bonde, e a conta de casa continuava a cargo dela.

Na escola, as colegas chegavam de carro, com mãe e motorista. Mercedes chegava de bonde, com a sapatilha embrulhada em papel e o uniforme lavado na véspera.

O corpo que a escola tentava moldar vinha do samba de roda e das festas de Campos. Ela aprendeu o balé sem largar o resto, e guardou as duas linguagens no mesmo treino.

No Teatro Experimental do Negro, Abdias Nascimento montava peças só com elenco negro e cobrava da imprensa o espaço que os teatros oficiais negavam. Mercedes dançou nas montagens e deu aula de expressão corporal aos atores.

O grupo funcionava como escola paralela. Ali se discutia a herança africana na cultura brasileira, se lia, se ensaiava e se organizavam congressos sobre o negro no país.

Quando passou no concurso do Municipal, Mercedes levou para dentro do teatro as duas formações. A companhia só quis usar uma delas, e nem essa usou direito.

 
 

II  O Momento que Virou

Uma bolsa em Nova York

Em 1950, a bailarina e antropóloga americana Katherine Dunham chegou ao Brasil em turnê com a própria companhia. Tinha estudado na Universidade de Chicago e pesquisado, nos anos 1930, as danças do Haiti, da Jamaica e da Martinica.

Dessas viagens nasceu a técnica Dunham, método de treino que junta o balé, a dança moderna e os movimentos das religiões afro-caribenhas.

Em São Paulo, o Hotel Esplanada recusou hospedar Dunham por ela ser negra. O caso virou escândalo nos jornais e apressou a Lei Afonso Arinos, de 1951, primeira lei brasileira a punir a discriminação racial.

No Rio, Dunham viu Mercedes dançar e ofereceu a ela uma bolsa de estudos na escola que mantinha em Nova York, a Katherine Dunham School of Arts and Research (Escola Katherine Dunham de Artes e Pesquisa).

Mercedes aceitou. Pediu licença do Municipal, atravessou o continente e passou cerca de um ano em Manhattan, em aulas diárias com a companhia e com os professores da escola.

A escola ficava perto da Broadway e recebia bailarinos, atores e músicos. Nas mesmas salas estudaram, naqueles anos, nomes como Marlon Brando e Eartha Kitt, que passaram pelas aulas de Dunham.

As aulas começavam no chão, com respiração e isolamento de cada parte do corpo: só o quadril, só os ombros, só a coluna. Depois vinham os ritmos de tambor tocados ao vivo.

Em Nova York, Mercedes aprendeu a transformar o movimento do terreiro em aula com método, contagem e nome para cada passo.

Ela voltou ao Rio com a técnica no corpo e um plano na cabeça. O Municipal seguiu igual: a bailarina que estudara com Dunham continuava no fundo do palco.

Ela chegou a pedir papéis de solista e ouviu que não havia personagem para ela no repertório da casa, feito de princesas, fadas e camponesas europeias.

Mercedes decidiu montar a própria companhia. Em 1953, fundou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista, formado só por bailarinos negros.

Boa parte do elenco nunca tinha pisado numa escola de dança. Vinha das favelas, das rodas de samba e dos terreiros de candomblé (a religião de matriz africana que cultua os orixás).

Antes de criar uma coreografia, Mercedes ia aos terreiros. Pedia licença às mães de santo, as sacerdotisas que dirigem cada casa, e observava as danças de cada orixá, as divindades do candomblé.

Cada orixá tem gesto próprio. Ogum, o guerreiro, corta o ar como quem abre caminho com espada; Iemanjá, a senhora das águas, ondula os braços como maré.

Mercedes levou esses gestos para a sala de ensaio, organizou em sequências e ensinou com a disciplina da barra que aprendera no Municipal.

O resultado ganhou nome nas aulas dela: dança afro-brasileira, com técnica própria, repertório e vocabulário que podiam ser passados de professor para aluno.

 

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III  O Que Ficou

O balé com o nome dela

O Ballet Folclórico se apresentou em teatros do Rio, em televisão e em turnês pelo Brasil e pelo exterior. Os programas traziam maracatu, jongo, samba e danças de orixá na mesma noite.

Mercedes abriu academia e formou turmas. As alunas dela viraram professoras, e as professoras abriram escolas, levando o método para outros estados.

O carnaval também a chamou. Em 1963, uma escola de samba do Rio pediu que ela ensaiasse passistas num minueto, a dança de salão da corte francesa, em pleno desfile.

Foi uma das primeiras alas ensaiadas com coreografia fixa na história do carnaval carioca.

Até então, o passista sambava do próprio jeito. Com Mercedes, um grupo inteiro passou a repetir os mesmos passos na mesma contagem, como num palco de teatro.

Os passistas desfilaram de peruca branca e roupa de corte, dançando um passo europeu do século 18 ao som da bateria. A plateia da avenida nunca tinha visto um bloco inteiro de sambistas se mover em sincronia.

A ideia pegou. Nas décadas seguintes, as escolas de samba passaram a contratar coreógrafos para a comissão de frente, o grupo que abre o desfile, e para alas inteiras.

Nas aulas da academia, a turma começava pela barra, como no Municipal, e terminava ao som de atabaque, o tambor dos terreiros. A aluna saía sabendo as duas linguagens.

Mercedes seguiu ensinando até a velhice. Recebeu homenagens de escolas de dança, de grupos do movimento negro e do próprio Theatro Municipal, que a reconheceu como a primeira bailarina negra da companhia.

O pesquisador Paulo Melgaço da Silva Júnior reconstituiu a trajetória dela no livro Mercedes Baptista: a criação da identidade negra na dança, publicado em 2007 pela Fundação Cultural Palmares.

Mercedes Baptista morreu em 19 de agosto de 2014, no Rio de Janeiro, aos 93 anos.

Em 2016, a cidade inaugurou uma estátua de bronze dela no Largo de São Francisco da Prainha, na zona portuária, região conhecida como Pequena África por ter recebido, no século 19, africanos escravizados e libertos.

A estátua mostra a bailarina em movimento, com os braços abertos. Fica a poucos quarteirões do cais onde desembarcaram muitos dos antepassados dos bailarinos que ela formou.

Hoje, aulas de dança afro em academias do país inteiro começam com aquecimento, contagem e passos nomeados, do jeito que Mercedes organizou nos anos 1950.

Mercedes Baptista ensinava às alunas: “A dança afro tem técnica, e técnica se estuda todo dia.”

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual escola de samba levou à avenida, em 1963, o minueto ensaiado por Mercedes Baptista?

 
 
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Qual hotel recusou hospedar a bailarina americana Katherine Dunham em São Paulo, episódio que ajudou a apressar uma lei contra a discriminação racial no Brasil?

AHotel Esplanada
BHotel Danúbio
CHotel Jaraguá
DHotel Glória

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