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O cerco vinha da lei. O Código Penal de 1890, o primeiro da República, punia no artigo 157 quem praticasse “espiritismo, magia e seus sortilégios”, e no artigo 158 quem curasse com ervas e rezas.
Na Bahia, o regulamento virou rotina de repartição. Cada terreiro tinha de se registrar na Delegacia de Jogos e Costumes e pedir autorização para cada festa, com data marcada no papel.
Menininha escolheu um caminho próprio contra o cerco. Abriu as portas do Gantois para quem tinha voz na cidade: políticos, médicos, professores, escritores e músicos.
Jorge Amado frequentava a casa e pôs a ialorixá nos seus romances. Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso e Gilberto Gil subiram a ladeira da Federação para pedir a bênção dela.
Ela também ia à missa. Devota de Nossa Senhora, unia os dois calendários pelo sincretismo, a associação entre santos católicos e orixás: Oxum, por exemplo, é festejada no dia de Nossa Senhora das Candeias.
Os estudiosos chegaram junto. Em 1937, o etnólogo Édison Carneiro organizou em Salvador o II Congresso Afro-Brasileiro, que reuniu pesquisadores e chefes de terreiro, e ajudou a fundar no mesmo ano a União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia.
Em 1938, a antropóloga americana Ruth Landes chegou a Salvador para estudar o candomblé. O livro que escreveu, A Cidade das Mulheres, publicado em 1947, descreve Menininha e a autoridade das mães de santo baianas.
Cada visitante ilustre que saía do Gantois levava para fora da Bahia a imagem de uma religião com chefe, regra e calendário.
A fama ganhou disco em 1972. Dorival Caymmi gravou Oração de Mãe Menininha, e a música chegou ao país inteiro nas vozes de Gal Costa e Maria Bethânia.
Os versos de Caymmi diziam: “A estrela mais linda, hein, tá no Gantois”. A mãe de santo de Salvador virou personagem de rádio e de televisão.
Quatro anos depois da canção, a lei mudou. Em 15 de janeiro de 1976, o governador Roberto Santos assinou o decreto que dispensou os terreiros do registro na delegacia.
Antes do decreto, cada casa dependia do humor do delegado de plantão. Uma festa podia ser liberada num ano e barrada no seguinte, e o atabaque precisava calar cedo para não chamar a viatura.
A Bahia deixou de exigir licença policial para o candomblé. Menininha, com 81 anos, era a ialorixá mais famosa do Brasil, e o prestígio dela pesou na campanha das casas de culto pelo fim da exigência.
Durante 54 anos de comando, ela tinha conduzido as festas do Gantois sob a regra da delegacia. Os dez anos que lhe restavam foram os primeiros sem o carimbo.
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