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Mãe Menininha do Gantois e o terreiro de 1922

Aos 28 anos, ela assumiu o Gantois numa Bahia que pedia licença à polícia para tocar candomblé.

Mãe de santo de branco, sentada numa cadeira de madeira dentro de um terreiro em Salvador.

Salvador, 1922: Menininha assume o Gantois

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Aos 28 anos, a mãe de santo Maria Escolástica da Conceição Nazaré, a Mãe Menininha, assumiu a cadeira mais alta do Terreiro do Gantois, em Salvador. Era 1922. No candomblé, o posto se chama ialorixá (a mulher que chefia uma casa de culto aos orixás).

A cadeira vinha de longe. O terreiro tinha sido fundado em 1849 pela bisavó dela, Maria Júlia da Conceição Nazaré, num morro do bairro da Federação. Três gerações de mulheres da família já tinham comandado o lugar.

A escolha não saiu de votação. Saiu do jogo de búzios, as conchas pequenas que o candomblé usa para consultar os orixás, as divindades do culto. As conchas apontaram a moça miúda que todos chamavam de Menininha desde criança.

A Bahia que ela encontrou ao assumir tratava a religião dela como caso de polícia. Para tocar atabaque (o tambor das festas) numa cerimônia, o terreiro precisava de licença da Delegacia de Jogos e Costumes, a repartição que também vigiava jogo do bicho e bordel.

Sem o papel carimbado, a festa podia acabar com viatura na porta. Policiais entravam nos barracões, os salões onde se dança para os orixás, levavam os tambores e prendiam quem estivesse tocando.

Peças apreendidas nessas batidas foram parar em depósitos de delegacia e em vitrines de museu. Muitas nunca voltaram para as casas de onde saíram.

Menininha herdou a regra junto com a cadeira. E ficou nela por 64 anos, até 1986.

Durante quase todo esse tempo, a licença continuou valendo. Caiu só em janeiro de 1976, por decreto do governador Roberto Santos, quando ela já tinha 81 anos e era a mãe de santo mais conhecida do país.

Para entender como uma moça franzina de Salvador chegou tão cedo à cadeira do Gantois, é preciso voltar a uma iniciação feita quando ela tinha 8 anos.

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I  A Vida de Hoje

A menina de Oxum

Maria Escolástica da Conceição Nazaré nasceu em 10 de fevereiro de 1894, em Salvador. A mãe, Maria da Glória Nazaré, era neta da fundadora do Gantois e cresceu dentro do terreiro.

O apelido veio do tamanho. Pequena e magra, a filha de Maria da Glória virou Menininha ainda no colo, e o apelido grudou nela até os 92 anos.

A casa era comandada pela tia-avó, Pulchéria Maria da Conceição Nazaré. Mãe Pulchéria era respeitada em toda a cidade e recebia em sua sala pesquisadores como o médico Nina Rodrigues, que estudou o candomblé baiano nos anos 1890.

Em 1902, aos 8 anos, Menininha foi iniciada por Pulchéria. No candomblé, a iniciação se chama fazer o santo: a pessoa fica semanas recolhida no terreiro, aprende cantigas, rezas e regras, e sai consagrada a um orixá.

O orixá dela era Oxum, a divindade das águas doces, do ouro e da fertilidade. Dali em diante, a menina teria obrigações, os rituais periódicos que renovam o laço com a dona da sua cabeça.

Desde os 8 anos, Menininha aprendeu o Gantois por dentro: as folhas de cada orixá, as cantigas em iorubá (a língua africana do culto) e o calendário das festas.

Nas festas, a menina via a tia-avó conduzir a roda das filhas de santo, decidir a ordem das cantigas e receber autoridades na porta. Aprendia o posto olhando, muito antes de saber que ia ocupá-lo.

Fora do barracão, a vida seguia a rotina das moças pobres de Salvador. Ela aprendeu a costurar e a bordar, e manteve a agulha nas mãos mesmo depois de chefiar o terreiro.

Pulchéria morreu em 1918. A cadeira ficou com Maria da Glória, a mãe de Menininha, que a ocupou por pouco tempo e também faleceu.

O Gantois ficou sem chefe. Havia na casa filhas de santo mais velhas e mais experientes, e a sucessão podia ter seguido a idade.

Seguiu o jogo. O oráculo é lido por quem tem cargo para isso, e a resposta das conchas vale como ordem. Em 1922, os búzios apontaram a moça de 28 anos, e a casa aceitou, porque no Gantois a última palavra sobre a cadeira é do orixá.

Menininha já vivia com o advogado Álvaro MacDonald dos Santos. Com ele teve duas filhas, Cleusa e Carmen, criadas no mesmo terreiro em que a mãe tinha crescido.

A nova ialorixá tinha a fé da família, o saber da tia-avó e uma casa cheia. Faltava o que nenhum búzio dava: licença para bater tambor sem medo da polícia.

 
 

II  O Momento que Virou

O carimbo da delegacia

O cerco vinha da lei. O Código Penal de 1890, o primeiro da República, punia no artigo 157 quem praticasse “espiritismo, magia e seus sortilégios”, e no artigo 158 quem curasse com ervas e rezas.

Na Bahia, o regulamento virou rotina de repartição. Cada terreiro tinha de se registrar na Delegacia de Jogos e Costumes e pedir autorização para cada festa, com data marcada no papel.

Menininha escolheu um caminho próprio contra o cerco. Abriu as portas do Gantois para quem tinha voz na cidade: políticos, médicos, professores, escritores e músicos.

Jorge Amado frequentava a casa e pôs a ialorixá nos seus romances. Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso e Gilberto Gil subiram a ladeira da Federação para pedir a bênção dela.

Ela também ia à missa. Devota de Nossa Senhora, unia os dois calendários pelo sincretismo, a associação entre santos católicos e orixás: Oxum, por exemplo, é festejada no dia de Nossa Senhora das Candeias.

Os estudiosos chegaram junto. Em 1937, o etnólogo Édison Carneiro organizou em Salvador o II Congresso Afro-Brasileiro, que reuniu pesquisadores e chefes de terreiro, e ajudou a fundar no mesmo ano a União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia.

Em 1938, a antropóloga americana Ruth Landes chegou a Salvador para estudar o candomblé. O livro que escreveu, A Cidade das Mulheres, publicado em 1947, descreve Menininha e a autoridade das mães de santo baianas.

Cada visitante ilustre que saía do Gantois levava para fora da Bahia a imagem de uma religião com chefe, regra e calendário.

A fama ganhou disco em 1972. Dorival Caymmi gravou Oração de Mãe Menininha, e a música chegou ao país inteiro nas vozes de Gal Costa e Maria Bethânia.

Os versos de Caymmi diziam: “A estrela mais linda, hein, tá no Gantois”. A mãe de santo de Salvador virou personagem de rádio e de televisão.

Quatro anos depois da canção, a lei mudou. Em 15 de janeiro de 1976, o governador Roberto Santos assinou o decreto que dispensou os terreiros do registro na delegacia.

Antes do decreto, cada casa dependia do humor do delegado de plantão. Uma festa podia ser liberada num ano e barrada no seguinte, e o atabaque precisava calar cedo para não chamar a viatura.

A Bahia deixou de exigir licença policial para o candomblé. Menininha, com 81 anos, era a ialorixá mais famosa do Brasil, e o prestígio dela pesou na campanha das casas de culto pelo fim da exigência.

Durante 54 anos de comando, ela tinha conduzido as festas do Gantois sob a regra da delegacia. Os dez anos que lhe restavam foram os primeiros sem o carimbo.

 

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III  O Que Ficou

A cadeira das filhas

Mãe Menininha comandou o Gantois até 13 de agosto de 1986, quando faleceu em Salvador, aos 92 anos. O governo da Bahia decretou luto oficial, e milhares de pessoas acompanharam o enterro.

A sucessão seguiu a regra da casa. Depois do período de luto ritual, a filha Cleusa Millet assumiu a cadeira em 1989 e chefiou o terreiro até a própria morte, em 1998.

A cadeira passou então para a outra filha, Carmen Oliveira da Silva, que assumiu em 2002. Ela é a quinta mulher da mesma família a chefiar o Gantois desde 1849.

Desde a fundação, o Terreiro do Gantois só teve mulheres da família Nazaré na cadeira mais alta.

O terreiro ganhou reconhecimento oficial como patrimônio. Foi tombado pelo Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o que protege por lei o terreno, o barracão e as árvores sagradas.

Dentro da casa funciona o Memorial Mãe Menininha do Gantois. Lá estão a cadeira em que ela recebia os visitantes, roupas de festa, fotos e os presentes que ganhou de artistas e políticos.

Fora do terreiro, o nome dela ficou em ruas, escolas e na canção de Caymmi, que segue nos discos de Gal Costa e Maria Bethânia.

O fim da licença também ficou. Desde 1976, as casas de candomblé da Bahia marcam suas festas sem passar pela delegacia, e os tambores tocam até a hora que o ritual pede.

A festa mais esperada do calendário da casa continua sendo a de Oxum, a orixá de Menininha. Filhas de santo vestidas de amarelo, a cor de Oxum, dançam no barracão ao som dos atabaques, agora sem licença a pedir.

Os visitantes também continuam subindo a ladeira da Federação. Turistas, estudantes e devotos de outras religiões entram no terreiro nos dias de festa pública, como Menininha fazia questão de permitir.

Cada festa de Oxum no Gantois ainda começa sob o retrato dela, pendurado no barracão.

“Que tradição da sua família alguém precisou defender para ela chegar até você?”

Mãe Menininha costumava responder a quem perguntava quem ela era: “Eu sou mãe de todos.”

 
 

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Quem assinou o decreto de 1976 que dispensou os terreiros de candomblé do registro na Delegacia de Jogos e Costumes, na Bahia?

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