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Łukasiewicz e a lamparina da cirurgia de 1853

Farmacêutico em Lviv, ele destilou querosene do óleo cru dos Cárpatos e iluminou uma sala de operação numa madrugada de verão.

Farmacêutico do século 19 segurando uma lamparina de querosene acesa numa sala de cirurgia de hospital.

Lviv, 1853: a lamparina de querosene no hospital

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Aos 31 anos, o farmacêutico Ignacy Łukasiewicz atravessou Lviv de madrugada carregando lamparinas de lata e vidro, na noite de 31 de julho de 1853.

Lviv se chamava então Lemberg e pertencia ao Império Austríaco, na província da Galícia. Hoje a cidade fica no oeste da Ucrânia.

O chamado veio do Hospital Geral. Um paciente precisava de cirurgia urgente, e o cirurgião Jan Zaorski não queria esperar o dia clarear para abrir o corpo de um homem.

O problema era a luz. Velas de sebo tremiam e soltavam fumaça. As lamparinas de óleo de colza (óleo tirado da semente de uma planta parente da mostarda) davam chama fraca e amarela, ruim para enxergar um vaso sangrando.

Semanas antes, gente do hospital tinha visto uma luz diferente na vitrine da farmácia de Piotr Mikolasch, no centro da cidade. Mandaram buscar o empregado responsável por ela.

Łukasiewicz chegou com as lamparinas e um frasco de líquido claro, destilado por ele do óleo preto que brotava do chão nas colinas dos Cárpatos. Encheu os reservatórios, acertou os pavios, e a sala acendeu.

A chama era firme, branca, quase sem fumaça. Durante horas, Zaorski operou sob ela. O paciente, lembrado pela tradição do hospital como Władysław Holobek, sobreviveu.

Dias depois, o hospital encomendou lamparinas e querosene para as enfermarias. A primeira freguesia grande do combustível novo nasceu numa sala de cirurgia.

Naquela madrugada não existia poço de petróleo na Galícia. O óleo vinha de buracos rasos cavados à pá por camponeses, que o vendiam como graxa de carroça e remédio para o gado.

O poço de Bóbrka, aberto por Łukasiewicz e dois sócios no ano seguinte, ainda era um morro coberto de mato.

Para saber como um aprendiz de botica foi parar numa sala de operação com lamparinas inventadas por ele, é preciso voltar a uma aldeia perto de Mielec e a uma cela de prisão austríaca.

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I  A Vida de Hoje

O aprendiz que saiu da cela

A resposta de ontem

Quem descobriu que as aquarelas eram de Tupaia?

Foi o historiador Harold Carter, biógrafo de Joseph Banks. Ele achou uma carta de 1812 em que Banks conta ao botânico Dawson Turner que Tupaia aprendeu a desenhar a bordo e fez a caricatura do inglês trocando pano por lagosta com um maori. O desenho está na British Library.

Ignacy Łukasiewicz nasceu em 8 de março de 1822, em Zaduszniki, aldeia perto de Mielec, no sul da Polônia de hoje. A família vinha da pequena nobreza empobrecida, com raízes armênias, e tinha cinco filhos para criar.

Estudou no colégio dos padres piaristas em Rzeszów, mas o dinheiro acabou antes do diploma. Aos 14 anos, para ajudar em casa, virou aprendiz de farmácia em Łańcut, cidade vizinha.

A botica do século 19 era meio laboratório. O aprendiz moía raízes, destilava águas de flores, preparava pomadas e aprendia a pesar grãos de pó numa balança de latão.

Em 1840, Łukasiewicz foi trabalhar numa farmácia de Rzeszów. Lá entrou num grupo clandestino de patriotas poloneses, ligado a uma rede maior, que preparava um levante contra o domínio austríaco.

A Polônia tinha sumido do mapa em 1795, repartida entre Rússia, Prússia e Áustria. Os conspiradores da Galícia escondiam panfletos e planos de revolta em casas de confiança.

Em 1846, o levante fracassou antes de começar direito, e a polícia austríaca prendeu Łukasiewicz. Ele passou perto de dois anos numa prisão de Lviv, interrogado, à espera de um processo.

Saiu da cela em 1848 sem condenação, mas fichado: só podia deixar Lviv com autorização da polícia.

Preso à cidade, voltou ao único ofício que sabia. Empregou-se na farmácia de Piotr Mikolasch, uma das mais respeitadas de Lviv, conhecida pelo laboratório bem equipado.

Mikolasch apostou no empregado e o ajudou a conseguir licença para estudar. Łukasiewicz cursou farmácia na Universidade Jaguelônica, em Cracóvia, e terminou na Universidade de Viena, onde recebeu o título de mestre em farmácia em 1852.

Em Viena aprendeu química de laboratório moderno, com termômetro e alambique de vidro. Aprendeu sobretudo a destilação fracionada (separar uma mistura de líquidos pela temperatura em que cada um ferve).

De volta a Lviv, encontrou na farmácia um pedido antigo. Comerciantes de Borysław, cidade ao sul, nas encostas dos Cárpatos, traziam barris de ropa (o petróleo cru, na fala dos camponeses da Galícia) e queriam saber se o líquido servia de remédio.

O óleo era conhecido havia séculos na região. Brotava em poças, sujava os riachos e cheirava forte. Os camponeses passavam nas rodas de carroça e nas feridas dos cavalos.

Mikolasch entregou o pedido a dois funcionários: Łukasiewicz e o colega Jan Zeh, também farmacêutico. A ideia inicial era tirar do óleo alguma substância medicinal para vender no balcão.

Os dois trabalhavam à noite, depois de fechar a loja. O laboratório dos fundos ficava cheirando a piche, e o patrão pagava os barris.

 
 

II  O Momento que Virou

A chama na vitrine da farmácia

Zeh e Łukasiewicz puseram a ropa nos alambiques de cobre nos últimos meses de 1852. Aquecido devagar, o óleo cru se separava em partes: gases, um líquido leve, um líquido médio, uma graxa pesada e um resíduo grosso de piche.

O remédio não apareceu. O líquido leve pegava fogo depressa demais e estourava. A graxa nem acendia. A parte do meio, lavada com ácido sulfúrico e depois com soda cáustica (o hidróxido de sódio, usado em sabão), saía clara e queimava com chama limpa.

Era o querosene. Na mesma década, o médico canadense Abraham Gesner refinava um combustível parecido a partir de carvão, e o químico escocês James Young tirava óleo do xisto (rocha que guarda óleo entre as camadas). Os dois de Lviv chegaram ao líquido pelo petróleo cru.

Faltava onde queimar. As lamparinas de óleo vegetal não serviam: o querosene subia rápido pelo pavio redondo e a chama fumegava e pulava.

Łukasiewicz levou o problema a Adam Bratkowski, funileiro da cidade. Juntos, desenharam um reservatório de lata, um pavio chato com rosca para subir e descer e uma chaminé de vidro para puxar ar por baixo da chama.

A chama ficou estável e alta. Em março de 1853, a farmácia de Mikolasch pôs uma lamparina acesa na vitrine. À noite, gente parava na calçada para olhar.

A vitrine fez o anúncio sozinha: quem passava via uma luz branca, sem fumaça, sem igual em nenhuma vela da cidade.

O farmacêutico vendia o querosene em frascos e explicava como regular o pavio. Os primeiros fregueses eram comerciantes e famílias que podiam pagar por uma noite mais clara.

Na madrugada de 31 de julho, a fama da vitrine chegou ao Hospital Geral. Zaorski operou à luz das lamparinas trazidas por Łukasiewicz, e a direção do hospital fez dele fornecedor das enfermarias.

O passo seguinte foi garantir a invenção. Em 2 de dezembro de 1853, Łukasiewicz e Zeh receberam em Viena um privilégio imperial (a patente da época, no Império Austríaco) para o refino do querosene.

A parceria durou pouco. Zeh ficou em Lviv e abriu negócio próprio de querosene. Łukasiewicz quis ir aonde o óleo nascia e, em 1854, mudou-se para Gorlice, cidade nos Cárpatos, onde arrendou uma farmácia.

Gorlice ainda guarda a memória daquele ano. Numa esquina da cidade, ele pendurou uma lamparina de querosene num poste, e hoje uma réplica dela marca o lugar.

No mesmo ano, entrou em sociedade com o proprietário de terras Tytus Trzecieski e o investidor Karol Klobassa-Zrencki. Os três abriram, no bosque de Bóbrka, perto de Krosno, uma mina de petróleo.

Os poços eram cavados à mão, com pá e balde, e escorados com madeira. Os mais fundos passavam de 30 metros. Do fundo subia a ropa que antes só escorria nas poças.

 

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III  O Que Ficou

O museu no bosque de Bóbrka

A mina de Bóbrka é considerada a primeira exploração industrial de petróleo do mundo ainda de pé. Começou a produzir cinco anos antes do poço do coronel Edwin Drake, na Pensilvânia, em 1859.

Em 1856, Łukasiewicz montou uma refinaria em Ulaszowice, perto de Jasło. Ela pegou fogo pouco depois, e ele reconstruiu o negócio em outro lugar, primeiro em Polanka e depois em Chorkówka, onde fixou casa.

A refinaria de Chorkówka produzia querosene, graxa para máquinas e asfalto. Os camponeses que cavavam a terra para ele viraram operários de um ramo novo, com salário fixo.

Łukasiewicz criou para eles uma caixa de socorro mútuo (um fundo pago pelos operários e pela empresa). O fundo cobria doença, acidente e pensão para a viúva quando um poço desabava.

Pagou também escola para os filhos dos mineiros, abriu estradas entre as aldeias e emprestou dinheiro sem juros a camponeses endividados. Na região, passaram a chamá-lo de “pai Ignacy”.

Em 1877, ajudou a fundar a associação dos produtores de petróleo da Galícia e virou o primeiro presidente dela. Foi eleito deputado na Dieta da Galícia (a assembleia regional da província), onde defendeu leis para o setor.

O aprendiz que tinha saído fichado da prisão terminou a vida como dono de refinaria, deputado e patrono de escolas na mesma província que o tinha prendido.

Łukasiewicz morreu de pneumonia em 7 de janeiro de 1882, em Chorkówka, aos 59 anos. Foi enterrado no cemitério da igreja de Zręcin, aldeia vizinha, numa capela paga por ele mesmo.

O privilégio de Viena caducou antes da morte dele, e o querosene virou produto de todos. Nas décadas seguintes, a lamparina com pavio chato e chaminé de vidro chegou às casas da Europa inteira.

Bóbrka virou museu em 1961, ao ar livre, no meio do bosque. Os poços antigos seguem abertos, com torres de madeira e bombas de época, e alguns deles ainda soltam óleo.

O museu leva o nome de Ignacy Łukasiewicz. Em 2022, para os 200 anos do nascimento dele, o Parlamento da Polônia declarou aquele o Ano de Ignacy Łukasiewicz.

A noite do hospital de Lviv entrou nos livros de escola poloneses como a primeira cirurgia feita sob luz de querosene. Os papéis originais do hospital não sobreviveram às guerras do século 20, e a cena chega aos dias de hoje pela memória da cidade e pelos biógrafos do farmacêutico.

Quando os sócios duvidavam do óleo preto de Bóbrka, Łukasiewicz respondia com a frase guardada pelos biógrafos: “Este líquido é a riqueza futura do país.”

 
 
Quiz da edição

Na madrugada de 31 de julho de 1853, quem operou o paciente à luz das lamparinas de Łukasiewicz no Hospital Geral de Lviv?

APiotr Mikolasch, farmacêutico dono da loja
BJan Zaorski, cirurgião do hospital
CJan Zeh, colega farmacêutico
DAdam Bratkowski, funileiro da cidade

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