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As aulas começaram em 1933. O avião de instrução era um de Havilland Moth, biplano inglês de madeira e lona, com dois assentos abertos, um atrás do outro.
O aluno ia no banco da frente, de óculos de couro e capacete. O instrutor ia atrás e falava por um tubo de borracha, porque o ronco do motor abafava qualquer voz.
Lotfia aprendeu a taxiar, decolar, fazer curvas e pousar. Os colegas homens olhavam a novidade com desconfiança, e alguns apostavam que ela desistiria na primeira semana.
Ela não desistiu. Chegava cedo, ficava até o fim da tarde e decorava os manuais em inglês nas horas paradas do escritório. Segundo o relato que ela mesma deu décadas depois, em entrevista à revista Al-Ahram Weekly, levou 67 dias de treino para estar pronta para o exame.
No dia 27 de setembro de 1933, passou na prova e recebeu o brevê número 34 emitido no Egito. As 33 licenças anteriores estavam no nome de homens.
A secretária que atendia o telefone do aeroclube virou piloto com licença oficial, paga do próprio bolso.
A notícia correu na imprensa estrangeira antes de virar assunto em casa. Jornais de Londres e de Paris publicaram notas sobre a moça egípcia que tinha aprendido a voar.
Em dezembro de 1933, o Egito sediou a primeira corrida aérea internacional do país, com pilotos de vários lugares da Europa. Um dos trechos ia de Almaza até Alexandria, na costa do Mediterrâneo.
Lotfia se inscreveu e voou sozinha, num Moth, os cerca de 180 quilômetros da rota. Pilotava sem rádio, guiada pela linha do Nilo e pelos canais do delta.
O delta do Nilo, visto de cima, é um tabuleiro verde cortado por canais quase iguais. Errar um canal significava perder minutos preciosos, ou pousar num campo de algodão com o tanque vazio.
Os outros pilotos eram homens com mais horas de voo, alguns com aviões mais rápidos. Ela tinha poucos meses de licença.
Chegou à frente dos outros concorrentes, numa média perto de 160 quilômetros por hora. A banca, porém, tirou o primeiro lugar dela por um detalhe do regulamento: ela teria deixado de contornar um dos marcos da rota.
O resultado oficial pouco importou para o público. No dia seguinte, os jornais do Cairo deram a moça do Moth em destaque, e o rei Fuad mandou cumprimentos.
Foi assim que Mohamed El Nadi soube. Leu o nome da filha impresso, ao lado da palavra piloto, e entendeu onde ela passava as tardes. A mentira de meses tinha virado manchete.
Segundo a própria Lotfia, a raiva dele durou pouco. Quando viu a filha elogiada pelo país inteiro, o pai passou a se gabar dela para os vizinhos.
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