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Lotfia El Nadi e o brevê pago com salário de secretária

Em 1933, uma moça do Cairo atendia o telefone do aeroclube de manhã e aprendia a voar à tarde, sem o pai saber.

Jovem egípcia de capacete de couro na cabine aberta de um biplano, em 1933.

Cairo, 1933: Lotfia El Nadi no Moth

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Aos 25 anos, a secretária Lotfia El Nadi decolou sozinha do aeroporto de Almaza, no Cairo, em setembro de 1933, e voltou ao chão com um brevê (a licença oficial de piloto) no nome dela.

Era a primeira mulher do Egito a tirar essa licença. Também foi a primeira do mundo árabe e da África inteira, segundo os registros da escola onde ela estudou.

O aeroclube ficava longe da cidade, num campo de areia batida a nordeste do centro. Os alunos eram rapazes de família rica, oficiais do exército e alguns estrangeiros a serviço da companhia aérea.

Lotfia não tinha dinheiro para as aulas. Arrumou um emprego dentro da própria escola: atendia o telefone, datilografava cartas e anotava os horários dos voos.

Com o salário, pagava as horas de instrução. Cada hora no ar custava mais do que uma semana de trabalho no escritório, e ela juntava o dinheiro aos poucos, voo por voo, sem pedir um tostão em casa. Entre um telefonema e outro, ia para a pista aprender a decolar num biplano de dois lugares, com o instrutor sentado atrás.

Em casa, ninguém sabia. O pai achava que a filha trabalhava num escritório comum. A mãe sabia do emprego e ajudava a guardar o segredo, inventando desculpas para os atrasos da filha na volta do trabalho.

O resto da família descobriu meses depois, e do pior jeito possível para quem esconde alguma tarefa: pela primeira página dos jornais do Cairo.

Em dezembro de 1933, Lotfia pilotou sozinha entre o Cairo e Alexandria numa corrida aérea internacional. O nome dela saiu impresso, com foto, e o pai leu a notícia junto com o resto do país.

A reação dele, e o que a corrida rendeu à filha, só fazem sentido depois de conhecer a casa onde ela cresceu e a cidade que tinha acabado de ganhar um aeroporto.

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I  A Vida de Hoje

A filha do tipógrafo

Lotfia El Nadi nasceu no Cairo em 29 de outubro de 1907, numa família de classe média. O pai, Mohamed El Nadi, trabalhava na Imprensa Nacional de Bulaq, a gráfica do governo egípcio.

O Egito daquele tempo vivia sob ocupação britânica, formal até 1922 e de fato por muitos anos depois. A independência nominal veio com um rei, Fuad I, e com um Parlamento que ainda não deixava mulher votar.

Em casa, o pai tinha planos claros para a filha. Queria uma educação básica, um casamento cedo e uma vida dentro de casa, como a da maioria das moças da vizinhança.

A mãe pensava diferente. Foi ela quem insistiu para Lotfia estudar no American College for Girls, a escola americana para moças do Cairo, onde as aulas eram dadas em inglês.

Lá, Lotfia aprendeu línguas, datilografia e o hábito de ler jornal estrangeiro. Leu sobre Amelia Earhart, a americana que tinha cruzado o Atlântico sozinha num avião em 1932.

No mesmo ano, o Egito abriu a primeira escola civil de aviação do país, em Almaza. A escola pertencia à Misr Airwork, companhia criada pelo Banco Misr, o banco nacional fundado pelo economista Talaat Harb.

Talaat Harb queria uma aviação egípcia, com pilotos egípcios. A propaganda da escola aparecia nos jornais e falava em servir a pátria pelo ar.

Lotfia leu o anúncio e decidiu que ia voar, antes mesmo de ver um avião de perto.

A primeira barreira era o preço. As aulas custavam mais do que a família gastava em meses, e o pai jamais pagaria por aquilo.

A segunda era o próprio pai. Pedir permissão para voar seria ouvir um não e perder qualquer chance de tentar escondido.

Lotfia foi até Almaza e pediu uma vaga de trabalho. O diretor inglês da escola aceitou contratá-la como secretária e telefonista.

O acordo era simples. Ela trabalhava no escritório do aeroclube e usava o salário para pagar as horas de voo, uma por vez.

O emprego tinha uma vantagem extra. Quem atendia o telefone sabia quando um avião ficava livre e quando um instrutor tinha a tarde vaga, e Lotfia encaixava as aulas nesses buracos da agenda.

Para o pai, ela trabalhava como secretária numa empresa do Cairo. Era verdade, só faltava dizer qual empresa e o que ela fazia depois do expediente.

 
 

II  O Momento que Virou

Sessenta e sete dias de pista

As aulas começaram em 1933. O avião de instrução era um de Havilland Moth, biplano inglês de madeira e lona, com dois assentos abertos, um atrás do outro.

O aluno ia no banco da frente, de óculos de couro e capacete. O instrutor ia atrás e falava por um tubo de borracha, porque o ronco do motor abafava qualquer voz.

Lotfia aprendeu a taxiar, decolar, fazer curvas e pousar. Os colegas homens olhavam a novidade com desconfiança, e alguns apostavam que ela desistiria na primeira semana.

Ela não desistiu. Chegava cedo, ficava até o fim da tarde e decorava os manuais em inglês nas horas paradas do escritório. Segundo o relato que ela mesma deu décadas depois, em entrevista à revista Al-Ahram Weekly, levou 67 dias de treino para estar pronta para o exame.

No dia 27 de setembro de 1933, passou na prova e recebeu o brevê número 34 emitido no Egito. As 33 licenças anteriores estavam no nome de homens.

A secretária que atendia o telefone do aeroclube virou piloto com licença oficial, paga do próprio bolso.

A notícia correu na imprensa estrangeira antes de virar assunto em casa. Jornais de Londres e de Paris publicaram notas sobre a moça egípcia que tinha aprendido a voar.

Em dezembro de 1933, o Egito sediou a primeira corrida aérea internacional do país, com pilotos de vários lugares da Europa. Um dos trechos ia de Almaza até Alexandria, na costa do Mediterrâneo.

Lotfia se inscreveu e voou sozinha, num Moth, os cerca de 180 quilômetros da rota. Pilotava sem rádio, guiada pela linha do Nilo e pelos canais do delta.

O delta do Nilo, visto de cima, é um tabuleiro verde cortado por canais quase iguais. Errar um canal significava perder minutos preciosos, ou pousar num campo de algodão com o tanque vazio.

Os outros pilotos eram homens com mais horas de voo, alguns com aviões mais rápidos. Ela tinha poucos meses de licença.

Chegou à frente dos outros concorrentes, numa média perto de 160 quilômetros por hora. A banca, porém, tirou o primeiro lugar dela por um detalhe do regulamento: ela teria deixado de contornar um dos marcos da rota.

O resultado oficial pouco importou para o público. No dia seguinte, os jornais do Cairo deram a moça do Moth em destaque, e o rei Fuad mandou cumprimentos.

Foi assim que Mohamed El Nadi soube. Leu o nome da filha impresso, ao lado da palavra piloto, e entendeu onde ela passava as tardes. A mentira de meses tinha virado manchete.

Segundo a própria Lotfia, a raiva dele durou pouco. Quando viu a filha elogiada pelo país inteiro, o pai passou a se gabar dela para os vizinhos.

 

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III  O Que Ficou

A pista que ela não deixou

A fama de Lotfia chegou a quem lutava pelo direito das mulheres no Egito. Para esse movimento, a moça do Moth valia como prova pública de que uma egípcia podia fazer o trabalho que os homens guardavam para si.

Nos anos seguintes, ela voou em exibições, deu entrevistas e virou exemplo citado em discursos. Outras moças do Cairo seguiram o caminho dela até Almaza.

Lotfia também trabalhou na própria escola de aviação como secretária-geral do aeroclube, cargo que mantinha a ligação dela com a pista mesmo nos dias sem voo.

Entre elas estavam Zahra Ragab, Leila Massoud e Aziza Moharram, que também tiraram brevê ainda nos anos 1930. Lotfia tinha aberto a porta, e a escola passou a aceitar alunas.

A carreira de piloto terminou cedo. Um acidente, que os relatos situam no fim da década de 1930, feriu a coluna de Lotfia e a afastou dos comandos de vez.

Para tratar das costas, ela foi para a Suíça e se instalou em Genebra. Passou décadas fora do Egito, com temporadas também no Canadá, perto de parentes.

Longe de casa, o nome dela foi sumindo dos livros escolares egípcios. A aviação egípcia cresceu, virou companhia estatal e esqueceu a secretária que tinha voado antes de quase todos. Durante anos, poucos no Cairo sabiam quem tinha sido a primeira piloto do país.

Em 1989, o Egito convidou Lotfia El Nadi para os 56 anos da aviação civil do país e a recebeu como pioneira.

Ela voltou de vez. Em 1996, contou a própria história no documentário egípcio Decolagem da Areia, filmado com ela já idosa, em Almaza.

Lotfia morreu no Cairo em 2002, aos 94 anos. Em 2017, o Google pôs o rosto dela na página inicial do buscador egípcio, no aniversário de 110 anos do nascimento.

Nas entrevistas da velhice, ela explicou o motivo de tudo com uma palavra só. Disse a quem perguntou por que tinha arriscado o emprego e a casa: “Eu queria ser livre.”

Logo depois da corrida, a liberdade dela ganhou asas próprias: alguém do Cairo resolveu que a moça do Moth não podia depender de avião emprestado.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem juntou o dinheiro para comprar um avião só para Lotfia El Nadi depois da corrida de Alexandria?

★ RARO

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Segundo a entrevista que Lotfia El Nadi deu décadas depois à revista Al-Ahram Weekly, quantos dias de treino ela precisou até estar pronta para o exame de piloto?

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Resultado da última edição: 100% acertaram.

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