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João Cândido e os 4 dias no comando da esquadra

Marinheiro gaúcho, filho de escravizados, ele apontou os canhões para o Rio em 1910 e exigiu o fim do chicote na Marinha.

O encouraçado Minas Geraes na baía de Guanabara, em 1910, com a cidade do Rio ao fundo.

Rio, 1910: o Minas Geraes na baía de Guanabara

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Aos 30 anos, o marinheiro gaúcho João Cândido Felisberto assumiu, na noite de 22 de novembro de 1910, o comando do encouraçado (navio de guerra blindado) Minas Geraes, ancorado na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

Era o navio mais poderoso da Marinha brasileira, recém-chegado da Inglaterra. Levava doze canhões de 305 milímetros, capazes de alcançar o centro da capital a partir do meio da baía.

Perto das dez da noite, os marujos tomaram o convés. Na luta, morreram o comandante do navio, João Batista das Neves, e outros oficiais. Os que sobraram desceram para os escaleres (barcos pequenos de apoio) e remaram até o cais.

Em poucas horas, mais três navios aderiram: o encouraçado São Paulo, o cruzador Bahia e o Deodoro, navio menor de defesa da costa. Os quatro hastearam bandeiras vermelhas e apontaram os canhões para a cidade.

Do Minas Geraes saiu, pelo rádio, uma mensagem ao presidente Hermes da Fonseca, empossado havia oito dias. Os amotinados pediam o fim dos castigos físicos, comida melhor, jornada menor e perdão para quem tinha se rebelado.

O castigo mais temido era a chibata, chicote de couro trançado, às vezes com agulhas na ponta. Um decreto do governo republicano tinha proibido a pena em 1889, mas a Marinha seguia aplicando o chicote no convés, diante da tripulação formada.

Na véspera, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes tinha levado 250 chibatadas no Minas Geraes, por ferir um cabo com uma navalha. Desmaiou antes do último golpe, e o castigo continuou.

A cidade acordou sob a mira. Famílias deixaram os bairros da orla, e os jornais imprimiram edições extras. Um disparo de aviso atingiu o morro do Castelo e matou duas crianças.

Quem dava as ordens na esquadra rebelde era um homem negro, filho de pais escravizados, que tinha entrado na Marinha aos 14 anos. A imprensa carioca logo o apelidou de Almirante Negro.

Para entender por que tantos marinheiros obedeceram a um timoneiro (o marujo que conduz o leme), é preciso voltar a uma fazenda do Rio Grande do Sul.

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I  A Vida de Hoje

O timoneiro de Rio Pardo

A resposta de ontem

Quem calculou as abóbadas de concreto da igreja da Pampulha?

O engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo, também poeta, calculou a estrutura das abóbadas da Pampulha. A parceria seguiu em Brasília, onde ele fez os cálculos do Palácio da Alvorada, do Congresso Nacional e da Catedral. Niemeyer repetia que, sem Cardozo, muitas das curvas dele não teriam saído do papel.

João Cândido Felisberto nasceu em 24 de junho de 1880, em Encruzilhada, então distrito de Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. Os pais, João Felisberto e Ignácia Cândido, tinham sido escravizados.

Cresceu no campo, lidando com cavalos e gado, numa província onde a escravidão só acabou oficialmente com a Lei Áurea, em 1888. O menino tinha 7 anos.

Aos 13, foi levado a Porto Alegre e entrou para a Escola de Aprendizes-Marinheiros. Em 1895, já estava no Rio de Janeiro, alistado como grumete (o posto mais baixo da tripulação).

A Marinha da época completava as tripulações à força. A polícia recolhia nas ruas rapazes pobres, ex-escravizados e presos, e os mandava para os navios. A maioria dos marujos era negra ou parda; a maioria dos oficiais, branca e de família rica.

O soldo (salário militar) era baixo, a comida chegava estragada e a jornada não tinha limite. Por falta grave ou leve, o marinheiro podia ir para a solitária, ficar a pão e água ou apanhar de chibata.

João Cândido aprendeu o ofício depressa. Virou timoneiro, sabia ler cartas náuticas e ganhou o respeito dos colegas mais novos, que o procuravam para apartar brigas a bordo.

Viajou muito. Esteve em portos da América do Sul, da Europa e da África, e acompanhou missões de instrução em navios-escola, que levavam aprendizes para treinar em alto-mar.

Em 1909, foi mandado com centenas de marinheiros a Newcastle, na Inglaterra, onde os estaleiros Armstrong construíam o Minas Geraes. A tripulação passou meses no país, aprendendo a operar o navio novo.

Na Inglaterra, os marujos brasileiros viram uma Marinha moderna funcionar sem chicote.

Os marinheiros ingleses tinham folga, soldo melhor e comida decente. Nos portos britânicos, os brasileiros ouviram também a história da revolta de 1905 no encouraçado russo Potemkin, quando a tripulação tomou o navio depois de receber carne podre.

Em Newcastle, segundo o depoimento dado pelo próprio João Cândido décadas depois, começaram as reuniões secretas. Os marujos montaram comitês por navio e escolheram quem falaria por cada um.

O Minas Geraes chegou ao Rio em abril de 1910, recebido com festa no cais. A bordo, a disciplina antiga voltou no primeiro dia.

Os comitês seguiram trabalhando em casas alugadas nos subúrbios do Rio. Marcaram uma data, adiaram e esperaram a hora certa.

A hora veio com Marcelino desmaiado no convés. Os líderes concluíram que nenhum marujo aceitaria outra cena igual e marcaram o levante para a noite seguinte, com João Cândido à frente.

 
 

II  O Momento que Virou

Quatro dias na baía

Na manhã de 23 de novembro, a esquadra rebelde manobrou pela baía de Guanabara em fila, com João Cândido no passadiço (a ponte de comando) do Minas Geraes.

Os oficiais da Marinha apostavam que os marujos não saberiam conduzir navios tão modernos. Conduziram. Os quatro entravam e saíam da baía, desviavam dos fortes e voltavam à posição.

Mais de dois mil marinheiros participavam. A bordo, João Cândido proibiu bebida, guardou intacto o cofre dos oficiais e mandou varrer o convés todos os dias.

No governo, houve quem defendesse afundar os navios com torpedos. Faltavam meios: os torpedeiros leais eram poucos, e os encouraçados rebeldes estavam entre os maiores do mundo naquele ano.

No Senado, Rui Barbosa defendeu o perdão. O projeto de anistia passou no Congresso, e o presidente Hermes da Fonseca assinou a lei em 25 de novembro.

Na noite de 26, os marujos baixaram as bandeiras vermelhas e devolveram os navios. A chibata saiu de cena nos conveses.

Dois dias depois, um decreto autorizou a Marinha a expulsar, sem processo, qualquer marinheiro considerado inconveniente à disciplina. Centenas foram desligados.

A anistia valeu por duas semanas.

Em 9 de dezembro, estourou outra revolta, desta vez no Batalhão Naval, na Ilha das Cobras, e no navio Rio Grande do Sul. João Cândido não participou e ficou do lado do governo, a bordo do Minas Geraes.

O governo bombardeou a ilha, decretou estado de sítio e prendeu os líderes do levante de novembro, mesmo sem ligação com o de dezembro. João Cândido foi preso em 13 de dezembro.

Na véspera do Natal, 18 presos foram trancados numa cela subterrânea da Ilha das Cobras. Antes de fechar a porta, os guardas lavaram o chão com água e cal virgem (pó branco que esquenta e solta vapor ao contato com a água).

O calor ficou sufocante, o ar irrespirável, e não havia ventilação. Os presos gritaram por água durante a noite. A porta só abriu na manhã do dia 26, por ordem do comandante do batalhão, o capitão de fragata Francisco José Marques da Rocha.

Dezesseis estavam mortos. Saíram vivos João Cândido e o soldado naval João Avelino Lira, conhecido como Pau de Lira.

O laudo oficial registrou insolação. Um inquérito interno não puniu ninguém, e Marques da Rocha seguiu na carreira.

 

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III  O Que Ficou

O peixeiro da Praça XV

Depois da cela, João Cândido passou a ter alucinações com os companheiros mortos. Em abril de 1911, foi internado no Hospital Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, como louco e indigente.

Os médicos o liberaram meses depois. Voltou à prisão na Ilha das Cobras e esperou o julgamento.

Em dezembro de 1912, um Conselho de Guerra (tribunal militar) absolveu João Cândido e os outros acusados da revolta de novembro. Absolvido, ele foi expulso da Marinha. Tinha 32 anos e nenhum outro ofício além do mar.

Tentou a marinha mercante, mas era barrado nos navios assim que o reconheciam. Foi trabalhar no entreposto de pesca da Praça XV, no centro do Rio, descarregando e vendendo peixe.

Casou-se, ficou viúvo, casou-se de novo e criou filhos. A família viveu com pouco, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

Nos anos 1930, a polícia política do governo Getúlio Vargas o vigiou, desconfiada de qualquer líder popular. Chegou a ser preso outra vez, por pouco tempo.

Em 1959, o jornalista Edmar Morel publicou A Revolta da Chibata, primeira obra a contar o episódio pelo olhar dos marujos. Morel entrevistou João Cândido longamente, e o livro tirou o marinheiro do esquecimento.

Em 1968, aos 88 anos, ele gravou um depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, contando a revolta em detalhe, do comitê de Newcastle à cela da ilha.

João Cândido morreu em 6 de dezembro de 1969, no Rio, aos 89 anos, de câncer. Foi enterrado no cemitério de Inhaúma, na zona norte da cidade.

A memória dele enfrentou censura mesmo depois do enterro.

Em 1975, João Bosco e Aldir Blanc gravaram O Mestre-Sala dos Mares, canção feita em homenagem a ele. A censura da ditadura militar vetou a primeira versão. Na letra, almirante virou navegante, e outros versos sobre a Marinha saíram.

Em 23 de julho de 2008, a Lei 11.756 concedeu anistia póstuma a João Cândido e aos marujos de 1910, quase um século depois da anistia que durou duas semanas.

Em novembro do mesmo ano, uma estátua de bronze do marinheiro foi inaugurada na Praça XV, a poucos metros do entreposto onde ele vendeu peixe por décadas.

Na mensagem enviada a Hermes da Fonseca em 22 de novembro de 1910, João Cândido e os companheiros escreveram: “Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha brasileira.”

 
 
Quiz da edição

De acordo com o texto, quantas chibatadas o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes recebeu na véspera da revolta, por ferir um cabo com uma navalha?

A100 chibatadas
B150 chibatadas
C250 chibatadas
D300 chibatadas

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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