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Garrincha e o drible que convenceu Nilton Santos

Operário de uma fábrica de tecidos em Pau Grande, ele fez um teste no Botafogo em 1953 e saiu contratado a pedido do lateral que driblou.

Jovem ponta de pernas tortas driblando um lateral num campo de futebol dos anos 1950.

Rio de Janeiro, 1953: o teste no Botafogo

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Aos 19 anos, o operário têxtil Manoel Francisco dos Santos pegou em 1953 o trem que descia de Pau Grande para o Rio de Janeiro. Ia fazer um teste no Botafogo.

Em Pau Grande, distrito de Magé, ninguém o chamava pelo registro. Era Garrincha, apelido que a irmã Rosa tirou de um passarinho miúdo do mato, ligeiro e feio, que ela achava parecido com o menino.

As pernas dele chamavam atenção antes da bola. A espinha era torta, a perna direita curvava para dentro, a esquerda para fora, e uma era mais curta que a outra.

Quem via o rapaz parado duvidava que ele aguentasse uma partida inteira. Quem via o rapaz correndo parava de duvidar.

Na fábrica de tecidos América Fabril, ele tinha fama de faltar ao serviço e de cochilar no expediente. Seguia empregado porque jogava de ponta-direita (o atacante que corre colado à linha lateral direita) no time da empresa, o Esporte Clube Pau Grande.

O time da fábrica ganhava os torneios da região, e a gerência preferia um operário preguiçoso que fizesse gols a um operário exemplar que assistisse do barranco.

O treino daquele dia em General Severiano, o campo do Botafogo na Zona Sul do Rio, juntava titulares e aspirantes. Na lateral esquerda estava Nilton Santos, que tinha ido à Copa de 1950 no grupo da Seleção Brasileira.

Bastaram poucas jogadas. O ponta de pernas tortas parou a bola na frente do lateral, balançou o corpo para um lado, saiu pelo outro e passou. Depois repetiu.

Saiu do gramado com um contrato. Quem pediu aos dirigentes que assinassem com o rapaz foi o próprio Nilton Santos, o jogador que tinha acabado de ser driblado.

Para entender como um operário que faltava ao serviço chegou àquele gramado, é preciso voltar à vila de casas iguais onde ele nasceu, ao pé da serra, entre o rio e o apito da fábrica.

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I  A Vida de Hoje

O passarinho da vila operária

Manoel Francisco dos Santos nasceu em 28 de outubro de 1933 em Pau Grande, um distrito de Magé, no estado do Rio de Janeiro. O pai, Amaro, era um migrante alagoano que trabalhava para a fábrica e bebia muito.

A vila existia por causa da tecelagem (a fábrica que transforma fio em pano). A Companhia América Fabril construiu as casas dos operários, o armazém, a escola e o campo de futebol, e o apito marcava a hora de todo mundo acordar.

O menino nasceu com a coluna desviada e as pernas tortas. No livro Estrela Solitária, publicado em 1995 pela Companhia das Letras, o jornalista Ruy Castro registra que a perna esquerda de Garrincha era 6 centímetros mais curta que a direita.

Ninguém na família tratou a deformidade como doença. O garoto subia em árvore, nadava no rio, caçava passarinho com estilingue e corria pelos morros atrás dos irmãos mais velhos.

Foi nessa infância de mato que ganhou o apelido. A garrincha, também chamada de cambaxirra, é um pássaro pequeno, marrom e rápido, que vive pulando de galho em galho perto das casas.

Aos 14 anos, ele entrou para a fábrica, como quase todo menino da vila. Fez de tudo um pouco no setor de fiação e logo ganhou a fama que o acompanhou na vila: chegava tarde, sumia na hora do serviço e cochilava nos fardos de algodão.

Em Pau Grande, o futebol dividia o domingo com a pescaria, e Garrincha não fazia planos de viver da bola.

O campo do Esporte Clube Pau Grande ficava a poucos passos da fábrica. Ali ele aprendeu a jogada que levaria para a vida inteira: receber a bola parado, encarar o marcador e sair sempre pela direita.

Em 1952, aos 18 anos, casou com Nair Marques, operária da mesma tecelagem. O casal teria oito filhas, e Nair seguiu morando na vila mesmo depois que o marido ficou famoso.

Antes do Botafogo, o ponta-direita passou por outros clubes do Rio sem ficar em nenhum. Ruy Castro conta, em Estrela Solitária, que no Vasco o mandaram voltar outro dia porque ele não tinha levado chuteira, e ele não voltou.

Quem destravou o caminho foi Araty Vianna, ex-jogador do Botafogo que treinava times do interior fluminense. Ele viu Garrincha jogar num amistoso da região e insistiu com o rapaz até levá-lo a General Severiano.

Garrincha foi sem grande expectativa. Contava aos amigos da vila que, se não desse certo, voltava para a pescaria e para o expediente na fiação.

 
 

II  O Momento que Virou

O lateral que pediu a contratação

Nilton dos Santos tinha 28 anos naquele treino de 1953 e jogava no Botafogo desde 1948. Era lateral-esquerdo (o defensor que marca o ataque pelo lado esquerdo do campo) e um dos jogadores mais respeitados do futebol carioca.

A imprensa o chamaria mais tarde de Enciclopédia do Futebol, pela leitura de jogo e pela calma com a bola nos pés. Em 1953, ele já tinha vestido a camisa da Seleção.

No treino, o técnico Gentil Cardoso pôs o aspirante de Pau Grande na ponta direita do time reserva. A escalação punha o novato frente a frente com Nilton Santos.

A primeira bola chegou nos pés de Garrincha perto da linha lateral. Nilton veio fechar o espaço, como fazia com os pontas mais experientes do Rio.

O rapaz de pernas tortas passou a bola entre as pernas do lateral, uma caneta (o drible em que a bola atravessa as pernas do adversário), e seguiu em frente.

Na jogada seguinte, fez a finta (o movimento de corpo que engana o marcador) para um lado e saiu para o outro. Nilton caiu. Os titulares que assistiam da beira do campo começaram a rir.

O lateral não se irritou. Terminado o treino, procurou os dirigentes do clube e pediu que contratassem o rapaz.

Nilton Santos repetiu por décadas, em entrevistas, a razão que deu naquela tarde: “É melhor ele jogar com a gente do que contra a gente.”

O Botafogo assinou com Garrincha. O salário era modesto, e o novo jogador continuou morando em Pau Grande, indo de trem para os treinos.

A estreia em jogo oficial veio em 19 de julho de 1953, pelo Campeonato Carioca, contra o Bonsucesso. Garrincha marcou três gols, e o Botafogo venceu por 6 a 3.

A jogada do teste virou assinatura. Ele parava diante do marcador, ameaçava sair pela esquerda e escapava pela direita. Todo mundo no estádio sabia o que vinha, e quase nenhum lateral conseguia impedir.

Garrincha chamava todos os marcadores de João. Não guardava o nome de quem o marcava, e dizia aos companheiros que o João de hoje era igual ao João da semana anterior.

Nilton Santos e Garrincha jogaram juntos no Botafogo até 1964. O lateral virou amigo, conselheiro e, nas viagens, companheiro de quarto do ponta.

 

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III  O Que Ficou

A Alegria do Povo

Garrincha jogou no Botafogo até 1965. No livro Estrela Solitária (1995), Ruy Castro reproduz a contagem de 612 partidas e 245 gols com a camisa alvinegra, e três títulos cariocas: 1957, 1961 e 1962.

Na Copa da Suécia, em 1958, ele estreou no terceiro jogo, contra a União Soviética, em 15 de junho. O Brasil venceu por 2 a 0 e saiu de lá campeão do mundo pela primeira vez.

Nilton Santos estava no mesmo time. O lateral que tinha pedido a contratação do operário em 1953 levantou a taça ao lado dele em Estocolmo.

Na Copa do Chile, em 1962, Pelé se machucou no segundo jogo, e Garrincha conduziu a Seleção ao bicampeonato, com quatro gols marcados.

Ele foi expulso na semifinal contra o Chile, depois de revidar uma falta. O tribunal da Fifa o absolveu, e ele jogou a final contra a Tchecoslováquia, vencida pelo Brasil por 3 a 1.

Em 1963, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade lançou o documentário Garrincha, Alegria do Povo. O apelido do filme grudou no jogador.

Os joelhos cobraram o preço das pernas tortas. Com artrose (o desgaste da cartilagem das articulações), ele foi vendido ao Corinthians em 1966 e passou por outros clubes sem recuperar o futebol do Botafogo.

Separou-se de Nair e viveu anos com a cantora Elza Soares. Lutou contra o alcoolismo que tinha visto no pai em Pau Grande, e perdeu.

Garrincha faleceu no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos. Foi enterrado em Magé, perto da vila onde nasceu.

Na lápide, os amigos mandaram escrever: “Aqui descansa em paz aquele que foi a Alegria do Povo, Mané Garrincha.”

O estádio nacional de Brasília leva o apelido dele, Mané Garrincha. Em Pau Grande, a fábrica fechou, e o campo do clube da vila continua de pé.

Nilton Santos viveu até 2013 e, em toda entrevista sobre o companheiro, voltava ao treino de 1953 e à caneta que levou de um aspirante que ele mesmo mandou contratar.

“Quem, na sua vida, abriu uma porta para você logo depois de perder uma disputa para você?”

Na Suécia, antes da estreia contra a União Soviética, o técnico Vicente Feola desenhou no quadro a jogada ensaiada para furar a defesa adversária. Na versão que a concentração brasileira espalhou e que acompanha o jogador desde 1958, Garrincha ouviu tudo e perguntou: “Já combinaram com os russos?”

★ RARO

🔒

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