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Elizabeth Jennings e os 225 dólares do bonde

Organista de igreja em Nova York, ela foi arrancada de um bonde em 1854, processou a companhia e ganhou no tribunal em 1855.

Mulher negra de chapéu sendo retirada de um bonde puxado a cavalos em Nova York, 1854.

Nova York, 1854: o bonde da Terceira Avenida

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Aos 27 anos, a professora e organista Elizabeth Jennings saiu de casa num domingo de julho de 1854 para tocar no culto da tarde. Estava atrasada.

Ela era a organista da Primeira Igreja Congregacional Negra de Nova York, na esquina das ruas Pearl e Chatham, no sul de Manhattan. Ia com a amiga Sarah Adams.

As duas fizeram sinal para um bonde da Companhia Ferroviária da Terceira Avenida. Era um carro puxado por cavalos sobre trilhos, o transporte coletivo da cidade naquela década.

A companhia não tinha regra escrita contra passageiro negro. Na prática, cada condutor decidia, e alguns carros levavam uma placa avisando que pessoas negras podiam embarcar.

O condutor daquele carro mandou as duas descerem e esperarem o próximo. Disse que o próximo levaria gente como elas.

Elizabeth respondeu que não tinha tempo, que o culto começava e que ela tocava no culto. Disse também que tinha nascido e crescido em Nova York.

O condutor tentou empurrá-la para fora. Ela se agarrou à moldura da janela. O condutor chamou o cocheiro, e os dois a arrancaram do carro à força.

Ela voltou a subir. O bonde seguiu até encontrar um policial, que terminou o serviço e a jogou na rua. O chapéu ficou amassado, o vestido sujo, e as costas doeram por dias.

Sarah Adams viu tudo da calçada. Mais tarde, ela seria a testemunha que confirmaria cada detalhe diante de um juiz, do primeiro empurrão ao policial na esquina.

Na manhã seguinte, a igreja leu em voz alta o relato que ela tinha escrito sobre o episódio. O texto saiu nos jornais da cidade poucos dias depois.

O pai dela leu o relato e decidiu procurar um advogado. Thomas Jennings era um alfaiate conhecido em Manhattan e um homem que já tinha brigado com a lei americana antes, e vencido.

Para entender por que uma família negra de Nova York, em 1854, acreditou que podia processar uma companhia de bondes e ganhar, é preciso voltar à alfaiataria do pai.

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I  A Vida de Hoje

A filha do alfaiate da Church Street

Elizabeth Jennings nasceu em Nova York em 1827, segundo a maior parte das fontes. Algumas registram 1830, e a certidão de nascimento dela nunca foi localizada.

O pai, Thomas L. Jennings, tinha uma alfaiataria na Church Street e era um homem livre desde o nascimento. A mãe, também chamada Elizabeth, participava das sociedades de mulheres negras da cidade.

Em 1821, Thomas recebeu do governo dos Estados Unidos uma patente (o registro que dá ao inventor o direito exclusivo sobre a invenção) por um método de limpeza a seco de tecidos.

Thomas Jennings foi o primeiro homem negro a receber uma patente nos Estados Unidos, e usou o dinheiro da invenção para comprar a liberdade da esposa e de parentes escravizados.

A patente pesava mais do que parecia. Na época, a lei americana não garantia que um negro, livre ou escravizado, pudesse ser dono de uma invenção. Thomas registrou a dele assim mesmo, e o registro valeu.

A família morava numa cidade em transição. O estado de Nova York aboliu a escravidão por completo em 1827, o ano provável do nascimento de Elizabeth.

Abolir a escravidão não acabou com a separação. Escola, igreja, teatro e transporte seguiam divididos, quase sempre por costume e não por lei, o que deixava cada porteiro e cada condutor com o poder de decidir.

Elizabeth estudou e virou professora das escolas para crianças negras da cidade. Também aprendeu órgão e passou a tocar na igreja congregacional da família.

Em 1837, aos dez anos, ela já aparecia na vida pública. Discursou numa reunião da Sociedade Literária Feminina de Nova York sobre o dever de estudar.

A casa dos Jennings recebia abolicionistas (os militantes pelo fim da escravidão) e reuniões da comunidade. Thomas ajudou a fundar organizações negras de Manhattan e escrevia cartas aos jornais.

Foi nesse ambiente que a filha cresceu, entre a agulha da alfaiataria e as atas das reuniões. Aprendeu cedo que uma reclamação escrita, com data e testemunha, valia mais do que uma reclamação gritada.

Aos 20 e poucos anos, Elizabeth dava aulas durante a semana e tocava órgão aos domingos. A rotina passava pelos bondes da Terceira Avenida, que cortavam Manhattan de norte a sul e eram o caminho mais curto até a igreja.

Ela conhecia as placas dos carros e os condutores que recusavam passageiros. Naquele domingo de 1854, o atraso a fez subir no primeiro carro que parou, sem olhar a placa.

 
 

II  O Momento que Virou

O júri do Brooklyn

O relato que Elizabeth escreveu saiu no New York Daily Tribune e no Frederick Douglass’ Paper, o jornal do abolicionista Frederick Douglass, em julho de 1854.

No texto, ela reproduziu a discussão com o condutor. Escreveu: “Eu respondi de novo e disse a ele que era uma pessoa respeitável, nascida e criada em Nova York.”

Thomas Jennings contratou o escritório Culver, Parker e Arthur. O caso caiu nas mãos do sócio mais novo, Chester Alan Arthur, de 24 anos, recém-formado em direito.

Arthur era filho de um pastor batista abolicionista e tinha entrado no escritório pouco antes. O caso Jennings foi um dos primeiros que ele levou ao tribunal sozinho.

O processo, Jennings contra a Companhia Ferroviária da Terceira Avenida, foi julgado no Brooklyn em fevereiro de 1855, diante do juiz William Rockwell.

A defesa de Arthur se apoiou numa figura do direito: a transportadora comum (a empresa que vende passagem ao público e, por vender ao público, não pode escolher passageiro sem motivo).

Rockwell aceitou o argumento. Na instrução ao júri (as orientações que o juiz dá antes da votação), disse que pessoas negras, se sóbrias, bem comportadas e livres de doença, tinham o mesmo direito de viajar que qualquer outra.

O juiz acrescentou que nenhuma companhia podia expulsar um passageiro por causa da cor da pele, e que, se o fizesse, respondia pelo dano.

O júri, formado só por homens brancos, deu razão a Elizabeth. Ela tinha pedido 500 dólares de indenização e recebeu 225, mais as custas do processo.

O New York Daily Tribune publicou a decisão com destaque. A companhia da Terceira Avenida mandou, logo depois do julgamento, que os condutores aceitassem passageiros negros.

As outras companhias de bonde da cidade não seguiram a ordem. A decisão valia para aquela empresa, e cada linha precisou ser enfrentada por novas recusas e novos processos.

Thomas Jennings fundou com outros líderes a Associação de Direitos Legais, que passou a juntar dinheiro e advogados para os passageiros expulsos. A associação levou outros casos à Justiça na década seguinte.

Chester Arthur seguiu na advocacia e na política. Em 1881, virou o 21º presidente dos Estados Unidos, depois que James Garfield foi baleado.

 

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III  O Que Ficou

A rua com o nome dela

Em 1860, Elizabeth casou com Charles Graham e passou a assinar Elizabeth Jennings Graham. O casal teve um filho, Thomas.

Charles Graham trabalhava na cidade e acompanhou a mulher nas reuniões da comunidade. Elizabeth seguiu dando aulas depois do casamento, nas escolas para crianças negras onde tinha começado.

Em julho de 1863, Nova York explodiu nos Motins do Alistamento (a revolta contra o recrutamento obrigatório para a Guerra Civil). Multidões brancas caçaram moradores negros pelas ruas durante quatro dias.

Thomas, o filho de Elizabeth, de um ano, adoeceu e não resistiu naqueles dias. O enterro atravessou uma cidade em revolta, e o pastor episcopal Morgan Dix aceitou conduzir a cerimônia.

Depois dos motins, a família saiu de Manhattan por um tempo, como muitas famílias negras, e só voltou à ilha anos mais tarde.

A luta nos bondes continuou sem ela no centro. Em 1864, Ellen Anderson, viúva de um soldado negro da União, foi expulsa de um bonde da Oitava Avenida e fez a denúncia na delegacia.

O comissário de polícia da cidade mandou que nenhum condutor recusasse passageiro negro. Em 1865, a separação nos bondes de Nova York tinha acabado na prática.

O caso de Elizabeth ficou na base desse desfecho. Foi a primeira vitória no tribunal, com júri e juiz dizendo em público que a companhia não podia escolher passageiro pela cor.

Em 1895, já viúva e de volta a Manhattan, ela abriu na casa onde morava, na Rua 41 Oeste, o primeiro jardim de infância para crianças negras da cidade.

Elizabeth Jennings Graham viveu até junho de 1901 e foi enterrada no Cemitério dos Ciprestes, no Brooklyn. Os jornais da época quase não registraram a despedida.

A história voltou à cidade por meio de crianças. Em 2007, alunos de uma escola primária de Manhattan pesquisaram o caso e pediram à prefeitura uma homenagem.

O pedido virou placa. A esquina da Park Row com a Spruce Street, perto do lugar onde ela foi arrancada do bonde, ganhou o nome de Elizabeth Jennings Place.

Em 2019, a prefeitura de Nova York escolheu Elizabeth para o programa She Built NYC (Ela Construiu Nova York), que encomenda monumentos a mulheres da história da cidade.

“Quem você conhece que transformou uma humilhação num papel assinado?”

No relato de julho de 1854, Elizabeth Jennings deixou registrado o que disse ao condutor antes de ser arrancada do carro: “Ele era um sujeito insolente por insultar pessoas decentes a caminho da igreja.”

 
 
Quiz da edição

No julgamento de fevereiro de 1855 no Brooklyn, quanto o júri concedeu de indenização a Elizabeth Jennings?

A100 dólares
B500 dólares
C225 dólares, mais as custas do processo
D1.000 dólares

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