|
Eddie Koiki Mabo nasceu em 29 de junho de 1936, na ilha de Mer, com o nome de Edward Koiki Sambo. A mãe, Poipe, morreu logo depois do parto.
O tio materno, Benny Mabo, e a mulher dele, Maiga, criaram o menino. Na ilha, a adoção seguia o costume meriam, sem cartório nem papel: a família assumia a criança diante da comunidade, e o sobrenome Mabo veio dessa troca.
Com o nome veio a herança. Pelo costume, o filho adotado recebia os lotes do pai adotivo, e Benny ensinou ao menino cada divisa da terra da família, caminhando pela ilha com ele.
Na escola da missão, Eddie aprendeu inglês com o professor Robert Miles, que o tratava como aluno promissor. Em casa, falava meriam mir, a língua do povo de Mer.
A ilha vivia sob a Lei de Proteção de Queensland, que dava ao governo estadual poder sobre casamento, trabalho, salário e viagem dos ilhéus. Para sair de Mer, era preciso licença.
Aos 16 anos, Eddie foi expulso de Mer por um ano, castigo do conselho da ilha por ter bebido álcool com amigos.
A bebida era proibida aos ilhéus pela lei estadual. O conselho aplicou a pena, e o rapaz embarcou para trabalhar no mar.
Ele mergulhou atrás de conchas nos barcos de pérola, cortou cana-de-açúcar no interior de Queensland e foi assentador de trilhos na ferrovia. Nunca mais morou em Mer.
Em 1959, casou-se com Bonita Neehow, filha de ilhéus do Pacífico, em Townsville. O casal teve dez filhos e adotou outros, à moda meriam.
Mabo virou sindicalista e militante. Em 1962, ajudou a organizar o Conselho de Avanço dos Aborígenes e Ilhéus do Estreito de Torres, em Townsville. Em 1973, fundou com Bonita a Escola Comunitária Negra, a primeira escola independente para crianças aborígenes do país.
Em 1967, conseguiu emprego de jardineiro na Universidade James Cook. Nos intervalos, entrava na biblioteca e lia antropologia, história e direito.
Ali fez amizade com os historiadores Henry Reynolds e Noel Loos. Numa conversa no escritório de Reynolds, nos anos 1970, Mabo falou da terra que um dia herdaria em Mer.
Os dois explicaram a regra. Para a lei australiana, a ilha inteira pertencia à Coroa, e a família dele morava ali por tolerância do governo.
Mabo ficou em silêncio por um momento e depois negou com a cabeça. A terra era da família, disse, e todo mundo em Mer sabia de quem era cada horta.
Em 1974, quis visitar o pai adotivo, que estava doente. O governo de Queensland negou a licença para desembarcar em Mer, por causa da militância dele. Benny Mabo morreu sem rever o filho.
|