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Chico Mendes e o asfalto da BR-364

O seringueiro de Xapuri aprendeu a ler aos 18 anos e, em 1987, levou a floresta do Acre aos banqueiros do BID.

O seringueiro Chico Mendes fala a banqueiros num salão de hotel em Miami.

Miami, 1987: o seringueiro diante do BID

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Aos 42 anos, o seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, conhecido como Chico Mendes, entrou num hotel de Miami com um terno emprestado e um inglês que não passava de cumprimento. Era março de 1987, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, fazia ali a sua reunião anual.

Na pauta dos banqueiros estava um empréstimo ao governo brasileiro para asfaltar a BR-364 entre Porto Velho, em Rondônia, e Rio Branco, no Acre. A estrada de terra já cortava a floresta. Com asfalto, chegariam mais caminhões, mais madeireiras e mais fazendas de gado.

Chico não tinha diploma, cargo público nem mandato. Tinha o sindicato dos trabalhadores rurais de Xapuri, uma cidade de poucos milhares de habitantes na fronteira com a Bolívia, e vinte anos cortando seringa (a árvore da qual se tira o látex, matéria-prima da borracha).

A viagem foi armada por dois aliados. A antropóloga Mary Allegretti, que conhecia os seringais desde os anos 1970, e o antropólogo americano Stephan Schwartzman, da organização Environmental Defense Fund (Fundo de Defesa Ambiental), conseguiram passagem, hospedagem e intérprete.

Em Miami, Chico falou a diretores do banco e a jornalistas. Explicou que milhares de famílias viviam dentro da mata sem derrubar a mata, tirando látex e castanha. Contou que o asfalto trazia gente armada, cerca e queimada.

Depois seguiu para Washington. No Congresso americano, conversou com assessores do Senado, que votava a parte dos Estados Unidos no dinheiro do BID. A pergunta que levava era simples: quem ia pagar pela floresta derrubada com o dinheiro do banco?

O BID suspendeu os repasses da obra ainda em 1987 e exigiu do governo brasileiro um plano de proteção para os índios e os seringueiros da região. O asfalto parou.

Em Brasília, a notícia caiu mal. Ministros e deputados do Acre acusaram o seringueiro de falar mal do Brasil no estrangeiro. Em Xapuri, os fazendeiros passaram a vê-lo como inimigo direto.

Para entender como um homem que aprendeu as letras já adulto chegou à mesa de um banco internacional, é preciso voltar ao seringal onde ele nasceu.

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I  A Vida de Hoje

As letras de Euclides Távora

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em 15 de dezembro de 1944, no Seringal Porto Rico, em Xapuri, no Acre. O pai, Francisco Mendes, era um cearense que tinha subido o rio atrás do trabalho da borracha.

A mãe, Iracy, teve mais filhos do que a casa conseguia alimentar com folga. Chico era o mais velho dos que sobreviveram à infância e cedo dividiu com o pai o peso do sustento.

A família morava numa colocação, o pedaço de mata onde cada seringueiro mora e trabalha. Dali saíam as estradas de seringa, trilhas que ligam uma árvore a outra, percorridas antes de o sol nascer.

Aos nove anos, Chico já cortava seringa ao lado do pai. Usava a poronga, uma lamparina presa na testa, para enxergar a casca no escuro. Na volta, recolhia o látex das tigelinhas e defumava a borracha no fogo.

O dono do seringal, o seringalista, comprava a borracha e vendia comida, querosene e munição no barracão, o armazém da propriedade. Os preços eram dele, as contas eram dele, e quase todo seringueiro vivia devendo.

Escola não havia. Os seringalistas não queriam seringueiro alfabetizado, porque quem sabia ler sabia conferir a conta do barracão.

A mudança veio de um desconhecido. Por volta de 1962, apareceu na região Euclides Fernandes Távora, um militar que tinha participado de levantes comunistas, fugira da prisão e se escondia na fronteira com a Bolívia.

Távora passou a ensinar o rapaz de 18 anos a ler, usando jornais velhos e as notícias que pegava num rádio de pilha. Nas noites de sábado, os dois ouviam a Voz da América e a Rádio Moscou e discutiam o que tinham ouvido.

Chico aprendeu as letras e aprendeu política ao mesmo tempo. Entendeu que a dívida no barracão não era destino, e sim regra criada por alguém.

Távora foi embora alguns anos depois, por motivo de saúde, e Chico não voltou a vê-lo. O rapaz passou a ensinar outros seringueiros a ler e virou o primeiro da família a assinar o próprio nome.

Nos anos 1970, o governo militar ofereceu terras do Acre a fazendeiros do Sul. Os novos donos compravam seringais inteiros e derrubavam a mata para plantar capim. As famílias que moravam ali recebiam ordem de sair.

Em 1975, Chico entrou no recém-criado sindicato dos trabalhadores rurais de Brasiléia, cidade vizinha, presidido por Wilson Pinheiro. Ali aprendeu o empate.

 
 

II  O Momento que Virou

O empate diante da motosserra

O empate era um mutirão de resistência. Quando os peões de uma fazenda chegavam para derrubar um trecho de mata, dezenas de seringueiros, com mulheres e crianças, se punham de pé entre as árvores e os homens das motosserras.

Ninguém levava arma. Os seringueiros conversavam com os peões, muitos deles trabalhadores pobres vindos de fora, e pediam que largassem o serviço. Muitas vezes, os peões iam embora.

Quando não iam, a polícia chegava para retirar os seringueiros. Chico chegou a ser detido em empates e foi processado com base na Lei de Segurança Nacional, a lei da ditadura contra quem o governo via como subversivo.

O primeiro empate registrado aconteceu em Brasiléia, em 1976. Nos anos seguintes, os sindicatos do Acre fizeram dezenas deles, alguns com centenas de pessoas acampadas na mata durante dias.

Em julho de 1980, Wilson Pinheiro foi assassinado a tiros dentro da sede do sindicato de Brasiléia. Chico assumiu a liderança do movimento e, pouco depois, fundou o sindicato de Xapuri.

O empate segurava uma fazenda por vez. Chico percebeu que a resistência precisava de uma saída legal, que garantisse a floresta aos seringueiros sem transformar cada colocação num lote de terra para ser vendido.

Em outubro de 1985, cerca de 130 seringueiros de vários estados se reuniram em Brasília, no Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros. Saíram de lá com o Conselho Nacional dos Seringueiros e uma proposta nova.

A proposta era a reserva extrativista: uma área de floresta que pertence ao governo, entregue em uso às famílias que vivem de tirar dela látex, castanha e frutos, sem derrubar a mata.

A ideia copiava o modelo das terras indígenas. A floresta não seria dividida nem vendida. Quem morasse ali poderia ficar, trabalhar e passar a colocação aos filhos.

Chico também mudou o discurso do movimento. Procurou os povos indígenas, antigos rivais dos seringueiros desde o tempo da borracha, e fundou com eles a Aliança dos Povos da Floresta.

Foi esse acúmulo, o empate, o conselho e a proposta da reserva, que Chico levou a Miami e a Washington em 1987. Os banqueiros ouviram de um seringueiro uma alternativa concreta ao asfalto.

No mesmo ano, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente deu a Chico o prêmio Global 500, concedido a quem defende o ambiente. Ele foi a Londres recebê-lo.

Em casa, a fama não protegia. Em 1988, um empate no Seringal Cachoeira, em Xapuri, impediu o fazendeiro Darly Alves da Silva de tomar a área. As ameaças contra Chico ficaram públicas.

 

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III  O Que Ficou

A casa de madeira em Xapuri

Chico pediu proteção policial e denunciou nominalmente os fazendeiros que o ameaçavam. Recebeu dois policiais militares, que se revezavam na casa de madeira onde morava com a mulher, Ilzamar, e os filhos pequenos.

Em 22 de dezembro de 1988, uma semana depois de completar 44 anos, Chico abriu a porta dos fundos da casa para ir ao banheiro do quintal. Foi atingido por um tiro de escopeta e não resistiu.

O atirador era Darci Alves Pereira, filho de Darly. Em dezembro de 1990, o tribunal do júri de Xapuri condenou pai e filho a 19 anos de prisão, pelo crime planejado e pelo crime executado.

Ilzamar Mendes acompanhou o julgamento com os filhos, Elenira e Sandino. Em 1993, Darly e Darci fugiram da cadeia de Rio Branco; foram recapturados anos depois e cumpriram o resto da pena.

A reação veio de fora antes de vir de Brasília. Jornais da Europa e dos Estados Unidos publicaram o caso na primeira página, e a pressão internacional caiu sobre o governo brasileiro.

Um decreto federal assinado em 12 de março de 1990 criou a Reserva Extrativista Chico Mendes, perto de um milhão de hectares de floresta em Xapuri, Brasiléia e outros municípios do Acre.

Era a primeira reserva extrativista grande do país. Nos anos seguintes, o governo federal criou dezenas de outras, na Amazônia e no litoral, onde pescadores passaram a usar o mesmo modelo para o mar.

A BR-364 acabou asfaltada até Rio Branco anos depois, com novas exigências ambientais no projeto. O asfalto chegou, e a reserva ficou de pé ao lado dele.

A floresta guardada pela reserva não ficou intocada. Ao longo dos anos, parte dos moradores trocou o látex pelo gado, e o desmatamento dentro da área virou tema de briga entre governo, sindicato e famílias.

A casa de madeira de Xapuri virou museu. A mesa, as roupas penduradas e a toalha manchada estão lá, mantidas pela família e pela fundação que leva o nome de Chico.

“Quem hoje decide sobre a floresta que você nunca viu?”

Pouco antes do crime, Chico Mendes resumiu a própria trajetória: “No começo, pensei que estava lutando para salvar as seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica. Agora percebo que estou lutando pela humanidade.”

 
 
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Depois de Chico Mendes falar aos banqueiros do BID em Miami, em 1987, qual foi a resposta do banco diante do empréstimo pra asfaltar a BR-364?

AAprovou o empréstimo com uma verba extra pra fiscalização ambiental
BSuspendeu os repasses da obra e exigiu um plano de proteção pra índios e seringueiros
CTransferiu a decisão final pro Senado americano
DFinanciou uma rota alternativa que evitava a floresta do Acre

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