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A carta de alforria foi lavrada no fim de 1753 e registrada no livro de notas do Tejuco. Júnia Ferreira Furtado a localizou no arquivo de Diamantina mais de dois séculos depois.
O documento fez de Francisca uma mulher forra. Nas Minas do século XVIII, a liberdade não apagava a origem: leis e costumes ainda limitavam a roupa, as joias e o lugar na igreja de quem tinha sido escravizado.
Francisca e João Fernandes nunca se casaram, e viveram em concubinato (união sem casamento na Igreja) por dezessete anos.
Um desembargador branco não se casava com uma ex-escravizada sem perder posição na Coroa. A união seguiu às claras mesmo assim, e o arraial inteiro sabia de quem eram as crianças.
A primeira filha do casal, Francisca de Paula, nasceu em 1755. Até 1770 vieram mais doze, segundo os registros de batismo que Furtado levantou: treze filhos, nove mulheres e quatro homens.
João Fernandes reconheceu todos. Os batismos traziam o nome dele como pai, numa sociedade em que muitos senhores deixavam os filhos de escravizadas sem nome paterno.
A família morava num sobrado no centro do arraial, com capela própria. A casa ainda existe em Diamantina, é conhecida como Casa de Chica da Silva e pertence ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
O contratador também tinha uma chácara nos arredores, a da Palha. A lenda pôs ali o lago artificial com um barco para Chica ver o mar, mas Furtado não achou documento sobre ele.
A história do lago aparece pela primeira vez nas Memórias do Distrito Diamantino, livro que o advogado Joaquim Felício dos Santos publicou em 1868, quase um século depois, a partir do que ouvia contar no Tejuco.
Chica usou os meios do contratador para dar aos filhos o que a sociedade do arraial reconhecia. As meninas estudaram no Recolhimento de Macaúbas (uma casa religiosa que educava moças), perto de Santa Luzia, e várias receberam dote para casar.
Ela também comprou escravizados em nome próprio, como faziam as forras com recursos. Nas Minas, ter escravizados era um dos sinais de posição social, e Chica, nascida no cativeiro, tornou-se senhora de cativos. Os inventários do Tejuco registram essas compras com o nome dela como proprietária.
Em 1770, o pai de João Fernandes faleceu em Portugal, e o filho foi chamado a Lisboa para disputar a herança com a madrasta. Levou os quatro meninos. Chica e as filhas ficaram no Tejuco.
O desembargador nunca voltou. Viveu em Portugal até 1779 e, no testamento, reconheceu os filhos que teve com Francisca e deixou bens para eles.
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