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Champollion e os 2 cartuchos de Abu Simbel

Aos 31 anos, o linguista francês ouviu o som escondido nos nomes de Ramsés e Tutmés, gritou a notícia ao irmão e caiu por cinco dias.

Champollion debruçado sobre desenhos de cartuchos com hieróglifos, em Paris, em 1822.

Paris, 1822: os cartuchos de Abu Simbel

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Aos 31 anos, o linguista francês Jean-François Champollion abriu, na manhã de 14 de setembro de 1822, em Paris, um maço de desenhos chegado do sul do Egito e encontrou ali o som escondido dos hieróglifos.

Os desenhos vinham de Abu Simbel, templo cavado na rocha à beira do Nilo, na Núbia. O arquiteto francês Jean-Nicolas Huyot tinha copiado à mão as inscrições das paredes e mandado as folhas para ele.

Champollion procurava os cartuchos, as molduras ovais em que os egípcios escreviam o nome do faraó. Dentro de um deles viu três sinais: um disco de sol, uma figura parecida com um tridente e um traço dobrado.

O disco ele reconheceu pelo copta, a língua dos cristãos do Egito, última fase do egípcio antigo: sol se dizia “ra”. Os dois sinais seguintes ele já lia como “m” e “s”, porque os tinha visto em nomes de reis gregos escritos em hieróglifo. Juntos, davam Ra-mes-s. Ramsés.

No cartucho ao lado, o disco dava lugar a uma íbis, a ave do deus Thoth. Com os mesmos sinais no fim, o nome saía Thot-mes. Tutmés.

Os dois faraós tinham reinado muitos séculos antes da chegada dos gregos ao Egito. Logo, os sinais de som pertenciam à escrita egípcia desde os reis antigos. Ninguém os tinha inventado só para grafar nomes estrangeiros.

Champollion juntou as folhas, saiu à rua e correu até o Instituto da França, onde trabalhava o irmão mais velho, Jacques-Joseph. Abriu a porta da sala, gritou a descoberta e caiu no chão, desacordado.

Segundo o relato da família, passou cinco dias de cama, sem forças para trabalhar. Ao se levantar, escreveu em duas semanas o texto que ia fundar a egiptologia, o estudo do Egito antigo.

Para entender como um rapaz de Figeac chegou àquela mesa com a chave quase pronta, é preciso voltar a uma pedra achada por soldados e a um menino que estudava línguas mortas por teimosia.

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I  A Vida de Hoje

Um menino de muitas línguas

Jean-François Champollion nasceu em 23 de dezembro de 1790, em Figeac, cidade pequena do sudoeste da França. O pai, Jacques Champollion, vendia livros.

O irmão Jacques-Joseph, doze anos mais velho, assumiu a educação do caçula. Em 1801, levou o menino para Grenoble, cidade ao pé dos Alpes franceses, onde trabalhava.

Em Grenoble, Jean-François estudou latim e grego e, aos poucos, hebraico, árabe, siríaco e caldeu, línguas antigas do Oriente Médio. Aos 16 anos, leu na academia da cidade um trabalho sobre a geografia do Egito dos faraós.

Naqueles anos, o Egito virou assunto da Europa inteira. Em 1798, Napoleão Bonaparte invadiu o país com um exército e levou junto uma comissão de engenheiros, desenhistas e cientistas para medir e copiar tudo.

Em julho de 1799, soldados franceses que reforçavam um forte perto de Roseta, no delta do Nilo, acharam um bloco de granito escuro coberto de inscrições. O oficial Pierre-François Bouchard percebeu o valor da peça e avisou os superiores.

A pedra trazia o mesmo decreto, do ano 196 antes de Cristo, em três escritas: hieróglifos no alto, demótico (a escrita cursiva do dia a dia egípcio) no meio e grego antigo embaixo. O grego se lia. As duas escritas egípcias, ninguém lia fazia muitos séculos.

Os ingleses venceram os franceses no Egito e, pelo Tratado de Alexandria, de 1801, ficaram com a pedra. Desde 1802 ela está no Museu Britânico, em Londres. A França guardou cópias em gesso e em tinta.

Champollion decidiu cedo ler aquela pedra, e escolheu o copta como caminho.

O copta se escrevia com letras gregas e seguia vivo na missa das igrejas cristãs do Egito. Champollion apostou nele como o egípcio dos faraós em estágio tardio. Em Paris, a partir de 1807, estudou com padres coptas e chegou a anotar o próprio diário nessa língua.

Aos 19 anos, virou professor de história em Grenoble. A política atrapalhou: apoiou Napoleão na volta do exílio, em 1815, e perdeu o cargo quando o rei Luís XVIII retomou o trono.

Na mesma época, em Londres, o médico e físico inglês Thomas Young atacava a mesma pedra. Em 1819, num verbete da Enciclopédia Britânica, propôs valores de som para alguns sinais do nome do rei Ptolomeu.

Young acertou parte das letras, mas acreditava que o som só aparecia nos nomes estrangeiros, como os dos reis gregos. Para ele, o resto dos hieróglifos era ideia desenhada, sem leitura em voz alta.

Champollion começou com a mesma suspeita. Entre 1821 e 1822, comparou o cartucho de Ptolomeu com o de Cleópatra, gravado num obelisco levado da ilha de Filas para a Inglaterra. As letras comuns aos dois nomes, como o “p”, o “o” e o “l”, caíam no lugar certo.

Faltava provar o som também nos nomes egípcios, de reis anteriores aos gregos. A prova chegou em setembro de 1822, no pacote de Abu Simbel.

 
 

II  O Momento que Virou

A carta ao senhor Dacier

Em 27 de setembro de 1822, treze dias depois do desmaio, Champollion leu diante da Academia de Inscrições e Belas-Letras, em Paris, um texto endereçado ao secretário da casa, Bon-Joseph Dacier. O título ficou famoso: Carta ao senhor Dacier.

Na plateia estava Thomas Young, de passagem por Paris. O inglês ouviu o francês expor o alfabeto de som dos hieróglifos e foi cumprimentá-lo no fim da sessão.

A carta tratava sobretudo dos nomes de reis gregos e de imperadores romanos. Champollion deixou a parte mais ousada, a de Ramsés e Tutmés, para quando tivesse conferido cada sinal em outras inscrições.

Young escreveu depois que o francês tinha usado o trabalho dele sem dar o crédito devido. A briga sobre quem chegou primeiro durou décadas entre estudiosos ingleses e franceses.

Young tinha parado nos nomes estrangeiros. Champollion foi adiante e mostrou que a escrita inteira misturava três tipos de sinal, usados juntos na mesma linha:

1. Sinais de som, que valem uma letra ou uma sílaba, como o “m” e o “s” de Ramsés.

2. Sinais de ideia, que desenham a palavra inteira, como o disco para o sol e para o deus Ra.

3. Determinativos (sinais mudos no fim da palavra, que indicam a categoria dela), como o homem sentado depois de um nome de pessoa.

Em 1824, Champollion publicou a prova completa num livro.

Champollion escreveu no Précis du système hiéroglyphique (Resumo do sistema hieroglífico), de 1824: “É um sistema complexo, uma escrita ao mesmo tempo figurativa, simbólica e fonética, num mesmo texto, numa mesma frase, eu diria quase numa mesma palavra.”

No mesmo ano, viajou para Turim, na Itália. O rei da Sardenha tinha comprado a coleção egípcia de Bernardino Drovetti, ex-cônsul francês no Egito, e Champollion foi ler os papiros com o próprio alfabeto.

Num depósito do museu, achou fragmentos de um papiro com a lista dos reis do Egito, hoje chamado Cânone de Turim. Passou dias juntando os pedaços sobre a mesa, como quem monta um quebra-cabeça rasgado.

Em 1826, o rei Carlos X o nomeou conservador, o curador responsável, da coleção egípcia do Louvre. O filho do livreiro de Figeac ganhava um museu para montar.

 

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III  O Que Ficou

A viagem ao Nilo

Até ali, Champollion nunca tinha pisado no Egito. Em julho de 1828, embarcou em Toulon com o italiano Ippolito Rosellini, aluno dele, numa expedição franco-toscana, paga pelos reis da França e da Toscana.

Subiram o Nilo de barco até a segunda catarata, na Núbia, num percurso de mais de um ano. Pararam em Dendera, Tebas, Karnak e Abu Simbel, o templo de onde tinham saído os desenhos de 1822.

Em cada templo, Champollion lia as paredes em voz alta para a equipe. Em Abu Simbel, mandou tirar a areia acumulada na porta para entrar no salão e copiou inscrições num calor sufocante, segundo as cartas que mandou ao irmão.

Do extremo sul da viagem, perto de Wadi Halfa, escreveu a Dacier em janeiro de 1829: o alfabeto lido em Paris funcionava nas inscrições de todas as épocas, dos primeiros reis aos romanos.

Em Luxor, escolheu um dos dois obeliscos da entrada do templo para levar à França. A peça chegou a Paris em 1833 e foi erguida na praça da Concórdia em 1836, onde está até hoje.

A viagem cobrou caro. Champollion voltou em dezembro de 1829 com a saúde abalada. Em 1831, o Collège de France criou para ele a primeira cadeira de arqueologia egípcia, e ele deu poucas aulas.

Jean-François Champollion faleceu em 4 de março de 1832, em Paris, aos 41 anos, depois de um derrame.

Foi enterrado no cemitério do Père-Lachaise, em Paris, sob um pequeno obelisco de pedra.

O irmão Jacques-Joseph cuidou do resto. Publicou entre 1836 e 1841 a Gramática egípcia que Champollion deixara pronta e, depois, o Dicionário egípcio, tirados dos cadernos do caçula.

A gramática abriu a leitura dos textos longos: contratos, cartas, hinos e o Livro dos Mortos, a coletânea de fórmulas para a viagem da alma. Nas décadas seguintes, egiptólogos da Alemanha, da Inglaterra e da França leram o que o Egito escrevera durante três milênios.

Figeac transformou a casa natal em museu, o Museu Champollion, dedicado às escritas do mundo. Na praça ao lado, uma réplica gigante da Pedra de Roseta, feita pelo artista americano Joseph Kosuth em 1991, cobre o chão.

O original segue em Londres, no Museu Britânico, atrás de um vidro, com as três escritas lidas.

Na porta da sala do irmão, naquela manhã de 1822, Champollion gritou em francês a frase guardada pela família, que em português soa como “Consegui!”: “Je tiens l'affaire!”

★ RARO

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