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Burle Marx e a estufa tropical de Berlim

Aos 19 anos, numa estufa alemã, ele viu a flora do próprio país; em 1935, levou essas plantas para uma praça do Recife.

Estufa de vidro do jardim botânico de Dahlem, em Berlim, cheia de folhagem tropical.

Berlim, 1928: a estufa tropical de Dahlem

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Aos 19 anos, o estudante de pintura Roberto Burle Marx entrou, no inverno de 1928, numa estufa de vidro do Jardim Botânico de Dahlem, bairro do sudoeste de Berlim, e parou diante de plantas que vinham do país onde ele morava.

Do lado de fora, a neve cobria os canteiros. Dentro, caldeiras mantinham o ar quente e úmido de floresta tropical, debaixo de uma cúpula de ferro e vidro erguida em 1907.

Nos vasos havia filodendros (plantas de folha grande e recortada), bromélias, palmeiras e helicônias, as flores em leque vermelho e amarelo que crescem na beira das matas brasileiras. Cada planta trazia uma plaquinha de identificação, em latim, com a região de origem.

No Rio de Janeiro, onde a família vivia desde 1913, quase ninguém punha aquelas espécies num jardim. As praças da capital copiavam a Europa: roseiras, buxos podados em bola, gramado inglês e árvores trazidas de fora.

Os botânicos alemães conheciam a flora brasileira desde o começo do século 19. Entre 1817 e 1820, o naturalista bávaro Carl Friedrich von Martius atravessou o Brasil coletando plantas, e muitas sementes daquela viagem acabaram em estufas da Alemanha.

O rapaz voltou a Dahlem várias vezes naquele inverno, com caderno de desenho. Copiava a folha, a nervura, o jeito como a luz atravessava o verde e deixava manchas no chão de pedra.

Décadas depois, em entrevistas, ele contaria a cena sempre do mesmo jeito: foi em Berlim, a dez mil quilômetros de casa, que enxergou a riqueza das plantas brasileiras.

Sete anos depois daquele inverno, em 1935, ele assinou no Recife a praça de Casa Forte, o primeiro jardim público do Brasil desenhado a partir da flora do próprio país.

Entre a estufa e a praça, Burle Marx largou um caminho seguro na pintura e abraçou um ofício que quase não existia no Brasil: o paisagismo, o desenho de jardins e espaços abertos.

Para chegar ao Recife, a história começa numa casa do Leme, de frente para o mar, com um vizinho arquiteto.

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I  A Vida de Hoje

Um pintor no Leme

Roberto Burle Marx nasceu em 4 de agosto de 1909, em São Paulo. O pai, Wilhelm Marx, era um comerciante de couro nascido em Trier, na Alemanha. A mãe, Cecília Burle, vinha do Recife, de família de origem francesa.

Cecília tocava piano e cantava em casa. Os filhos cresceram entre ópera e partitura, e Roberto chegou a estudar canto como barítono, a voz masculina do meio, entre o tenor e o baixo.

Em 1913, a família se mudou para o Rio de Janeiro e foi morar no Leme, a ponta norte da praia de Copacabana. A casa tinha quintal, e a mãe cuidava de um jardim de roseiras e trepadeiras.

Ainda menino, Roberto ganhou um canteiro só dele. Plantava sementes, mudava vasos de lugar e anotava o que pegava e o que secava. A família guardou o hábito como passatempo de criança.

Em 1928, Wilhelm levou a família para a Alemanha. Havia negócios a tratar, e Roberto precisava de um tratamento de vista, que os médicos alemães faziam melhor que os do Rio.

A família ficou em Berlim até 1929. Roberto entrou no ateliê do pintor Degner Klemm, onde aprendeu desenho de modelo vivo, e passou as noites em teatros de ópera, ouvindo Wagner.

Nas galerias da cidade, viu de perto quadros de Vincent van Gogh, Pablo Picasso e Paul Klee. A pintura moderna, com a cor chapada e a forma livre, mexeu com o rapaz tanto quanto a estufa de Dahlem.

Em Berlim, Burle Marx decidiu ser pintor; na volta ao Rio, em 1930, entrou na Escola Nacional de Belas Artes.

Na escola, estudou com o pintor alemão Leo Putz, que dava aula no Rio naqueles anos, e frequentou também o curso de arquitetura. Pintava paisagens, retratos e naturezas-mortas, com a cor forte que trouxera da Europa.

O vizinho da família no Leme era o arquiteto Lucio Costa, sete anos mais velho. Costa via os desenhos do rapaz e conhecia o canteiro dos Marx desde os tempos de criança de Roberto.

Em 1930, Costa assumiu a direção da Escola Nacional de Belas Artes e tentou abrir as aulas à arquitetura moderna. A reforma durou poucos meses, mas aproximou os dois.

Em 1932, Costa e o arquiteto Gregori Warchavchik desenharam uma casa em Copacabana para a família de Alfredo Schwartz. Faltava o jardim, e Costa chamou o vizinho pintor.

Burle Marx tinha 23 anos. Riscou canteiros curvos e misturou plantas do quintal da mãe com espécies que vira em Berlim. Foi o primeiro jardim assinado por ele.

O trabalho circulou entre arquitetos do Rio e chegou a Pernambuco, terra da família da mãe, onde um engenheiro procurava alguém para cuidar das praças da capital.

 
 

II  O Momento que Virou

Os lagos de Casa Forte

Em 1934, o arquiteto Luiz Nunes, chefe da diretoria de obras do governo de Pernambuco, convidou Burle Marx para dirigir o setor de parques e jardins do Recife. O governador era Carlos de Lima Cavalcanti.

Burle Marx aceitou e se mudou para a cidade da mãe. Tinha 25 anos, salário de funcionário público e um encargo raro: redesenhar as praças de uma capital inteira.

A primeira grande obra foi a praça de Casa Forte, no norte da cidade, diante da igreja do bairro. O lugar guarda a memória de uma batalha de 1645, travada contra os holandeses que ocupavam Pernambuco.

O desenho saiu em 1935. No centro, ele cavou um espelho d'água, um tanque raso de água parada, retangular, e encheu de plantas aquáticas da Amazônia. Dois tanques menores completavam o conjunto.

No tanque central, Burle Marx pôs a vitória-régia, a planta de folha redonda dos rios amazônicos.

A vitória-régia tem folhas que passam de um metro de diâmetro, com a borda dobrada para cima, e uma flor branca que abre à noite e fica rosada no segundo dia. Poucos recifenses tinham visto uma de perto.

Em volta dos tanques, ele plantou palmeiras e árvores de mata brasileira, e deixou gramado aberto para quem quisesse sentar. A praça se lia de qualquer banco, como um quadro.

Na mesma época, desenhou a praça Euclides da Cunha, no bairro da Madalena. Ali montou um cactário, jardim só de cactos e plantas de clima seco, com espécies da caatinga, a vegetação do sertão nordestino.

Entraram mandacaru, xiquexique e facheiro, cactos que o recifense conhecia do interior e nunca imaginara numa praça da capital. A escolha homenageava Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, de 1902.

Parte do público estranhou. Cacto lembrava seca e pobreza, e praça bonita, para muita gente, ainda era praça de roseira. Burle Marx respondeu na imprensa da cidade, em artigos que defendiam a planta do país.

Nos três anos de Recife, ele redesenhou também a praça do Derby e outros largos da cidade. Usava o mesmo método: estudar onde a planta crescia na natureza e repetir no canteiro a companhia que ela tinha no mato.

Em 1937, com o golpe do Estado Novo, Lima Cavalcanti perdeu o governo e a equipe de obras se desfez. Burle Marx voltou ao Rio com o método pronto e uma rede de arquitetos que confiava nele.

 

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III  O Que Ficou

Do terraço do ministério ao sítio de Guaratiba

No Rio, a equipe de Lucio Costa erguia o prédio do Ministério da Educação e Saúde, no centro da cidade, com consultoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. Em 1938, Burle Marx recebeu o desenho dos jardins.

Ele plantou um jardim suspenso no terraço do segundo andar, com canteiros curvos de cor forte, vistos de cima como uma pintura abstrata. Foi um dos primeiros jardins modernos do país sobre laje de concreto.

Em 1942, trabalhou com o arquiteto Oscar Niemeyer no conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, cercando a igreja de São Francisco e o cassino com plantas brasileiras.

Para achar espécies novas, saía em expedições pelo país com botânicos. Subia serras, entrava em mata fechada e trazia mudas no carro. Várias plantas descobertas nessas viagens receberam o sobrenome dele, como o Philodendron burle-marxii, um filodendro.

Em 1949, comprou com o irmão Guilherme Siegfried uma antiga fazenda em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio: o Sítio Santo Antônio da Bica. Ali reuniu milhares de espécies, num viveiro que nenhum jardim botânico do país igualava.

Nos anos 1960, desenhou os jardins do Parque do Flamengo, aberto em 1965 sobre um aterro na baía de Guanabara. Em 1970, refez o calçadão da avenida Atlântica, em Copacabana, com as ondas de pedra portuguesa e mosaicos abstratos.

Burle Marx nunca largou a pintura. Pintava, desenhava joias, tapeçarias e cenários, e dizia tratar o jardim com a mesma paleta do quadro, só que viva.

Em 1985, doou o sítio de Guaratiba ao governo federal, com a coleção inteira. Morreu no Rio em 4 de junho de 1994, aos 84 anos.

Em 2015, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou os jardins dele no Recife, a praça de Casa Forte entre eles. A vitória-régia segue no tanque central.

Em 2021, a Unesco, braço da ONU para a cultura, inscreveu o Sítio Roberto Burle Marx na lista do Patrimônio Mundial, como paisagem cultural.

A praça de Casa Forte continua aberta todos os dias, sem portão, com bancos em volta dos tanques. Os moradores do bairro passeiam ali com filhos e cachorros, debaixo das palmeiras plantadas em 1935.

Burle Marx resumiu o ofício numa das conferências reunidas no livro Arte & Paisagem, de 1987: “O jardim é a natureza organizada pelo homem e para o homem.”

★ RARO

🔒

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Quiz da edição

Na praça de Casa Forte, desenhada por Burle Marx em 1935 no Recife, qual planta ele colocou no tanque central?

AHelicônia
BFilodendro
CVitória-régia
DBromélia

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