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Bass Reeves, o delegado que decorava os mandados
Nascido escravizado no Arkansas, ele virou delegado federal em 1875 e atravessou 32 anos de estrada sem saber ler.
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Território Indígena, 1875: a estrela de Reeves
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Aos 37 anos, o lavrador Bass Reeves entrou no tribunal federal de Fort Smith, no Arkansas, em maio de 1875 e saiu de lá com uma estrela de delegado no peito. Ele não sabia ler uma linha.
O tribunal cuidava de um pedaço enorme do mapa. A oeste de Fort Smith ficava o Território Indígena, a terra para onde o governo americano tinha empurrado os povos Cherokee, Creek, Seminole, Choctaw e Chickasaw. As nações indígenas tinham polícia e juízes próprios, mas só podiam julgar os seus.
Um branco que roubasse, ferisse ou matasse ali dentro não respondia a juiz nenhum da região. O território virou esconderijo de quem fugia da lei em Kansas, Texas e Missouri.
O juiz Isaac Parker, recém-chegado a Fort Smith, mandou contratar 200 delegados para cruzar aquela terra a cavalo. Reeves estava entre os primeiros homens negros a receber o posto a oeste do rio Mississippi.
O trabalho funcionava assim: o tribunal emitia um mandado (a ordem escrita do juiz para prender alguém), o delegado levava o papel, achava o procurado e o trazia de volta, vivo de preferência. Recebia por prisão e por quilômetro rodado.
Reeves carregava um maço desses papéis no alforje. Antes de partir, pedia que alguém lesse cada um em voz alta. Guardava o nome, o crime e o desenho das letras. Na estrada, quando encontrava o homem, tirava do maço o papel certo sem errar.
Ficou 32 anos no serviço. Quem conta é o historiador Art T. Burton, no livro Black Gun, Silver Star, de 2006: Reeves dizia ter prendido mais de 3.000 pessoas.
Um desses mandados, em 1902, trazia o nome de Bennie Reeves, filho dele.
Para chegar àquela estrela, o homem que não lia tinha atravessado a Guerra Civil como fugitivo e aprendido a língua de três povos.
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I A Vida de Hoje
O fugitivo que aprendeu três línguas
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Bass Reeves nasceu em julho de 1838, no condado de Crawford, no Arkansas, propriedade de William Steele Reeves, fazendeiro e político local. O sobrenome do menino era o do dono, como acontecia com quase todo escravizado no Sul americano.
Ainda criança, foi levado com a família do senhor para o condado de Grayson, no norte do Texas. Cresceu trabalhando na lavoura e cuidando dos cavalos da casa.
Na adolescência, o filho do dono, George Reeves, tomou o rapaz como criado pessoal. A posição o pôs perto de armas e de cavalos, e ele aprendeu a usar os dois melhor que a maioria dos homens livres da região.
Em 1861 começou a Guerra Civil, o conflito entre o Norte e os estados do Sul que queriam manter a escravidão. George Reeves virou coronel do exército confederado (o lado do Sul) e levou Bass para o front como serviçal.
Em algum ponto da guerra, os dois brigaram. A tradição da família diz que foi por causa de um jogo de cartas e que Bass derrubou o senhor com um soco. Bater num dono era crime que podia custar a vida de um escravizado. Nenhum documento confirma a data nem o motivo exato da briga; o que se sabe vem de relatos orais registrados décadas depois.
Bass fugiu para o norte, cruzou o rio Red e entrou no Território Indígena.
Escondido entre os povos que o próprio governo tinha expulsado, o fugitivo ganhou a ferramenta que mais tarde o faria delegado.
Viveu entre os Cherokee, os Creek e os Seminole. Aprendeu a falar a língua de cada um, aprendeu as trilhas, os vaus dos rios (os trechos rasos onde se cruza a cavalo) e o nome das famílias. Conheceu o território como poucos brancos conheciam.
Passou ali o resto da guerra, sem dono e sem papel que provasse a liberdade. Se fosse capturado por uma patrulha confederada, seria devolvido ou enforcado.
Em 1865, a 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos aboliu a escravidão. Reeves deixou de ser fugitivo. Voltou para o Arkansas e comprou terra perto de Van Buren, a poucos quilômetros de Fort Smith.
Casou com Nellie Jennie, também ex-escravizada, e teve com ela 11 filhos. Plantava, criava cavalos e, de vez em quando, servia de guia e rastreador para delegados federais que precisavam entrar no território e não sabiam por onde andar.
Foi nesse trabalho que o tribunal reparou nele. Um homem que falava as línguas indígenas, atirava bem com as duas mãos e conhecia as trilhas valia mais que dez delegados vindos do Leste.
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II O Momento que Virou
O mandado com o nome do filho
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O posto era perigoso. Dezenas de delegados do tribunal de Fort Smith foram mortos em serviço nas décadas em que Parker julgou ali, e o nome de cada um está gravado no memorial do Serviço de Marshals dos Estados Unidos.
Reeves saía em viagens de semanas, às vezes meses, com uma carroça de presos, um cozinheiro e um ajudante. Os procurados eram acorrentados à carroça durante a noite.
Usava disfarce quando precisava. No caso mais contado, se vestiu de andarilho, com sapato furado e chapéu cheio de buracos de bala, e bateu à porta da mãe de dois irmãos procurados. Pediu comida e abrigo. Os irmãos chegaram à noite, aceitaram o forasteiro e dormiram. Ele os algemou na cama. Levou os dois a pé, acorrentados, por quase 50 quilômetros até o acampamento, e recebeu a recompensa de 5.000 dólares.
A estrela de Reeves dependia da memória dele: cada mandado errado podia soltar um culpado ou prender um inocente.
Em 1884, foi ele quem sentou no banco dos réus. Era acusado de ter matado o próprio cozinheiro da expedição, William Leach. Reeves dizia que o rifle disparou por acidente quando limpava a arma. Ficou preso, perdeu o dinheiro que tinha juntado com os advogados e foi absolvido em 1886, voltando ao serviço.
Em 1902, a família desabou. Bennie Reeves, um dos filhos, matou a mulher por ciúme, em Muskogee, e fugiu. O mandado de prisão chegou à mesa do chefe dos delegados.
Os colegas hesitaram em entregar o papel ao pai. Reeves pediu o mandado e saiu sozinho.
Levou cerca de duas semanas. Encontrou Bennie e o trouxe de volta à cidade para ser julgado. O filho foi condenado à prisão perpétua e mandado para a penitenciária federal de Leavenworth, no Kansas.
Bennie não morreu na cadeia. Depois de anos de bom comportamento, recebeu perdão, saiu da prisão e, segundo os registros da família, foi viver como barbeiro em Muskogee.
Em 1907, Oklahoma virou estado americano e absorveu o Território Indígena. Com o novo estado, a polícia local substituiu a federal, e Reeves perdeu o posto aos 69 anos.
Não parou. Entrou para a polícia de Muskogee como patrulheiro e fez ronda a pé pelas ruas da cidade por mais dois anos.
O novo estado trouxe também as leis de segregação racial, que separavam negros e brancos em trens, escolas e repartições. O homem que tinha prendido brancos armados em nome do governo federal passou a trabalhar numa cidade onde não podia sentar no mesmo vagão que eles.
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