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As trinta e seis vistas do Monte Fuji que um gravador de setenta anos entregou ao editor

Em 1831, na Edo dos Tokugawa, um velho pobre e sem nome fixo desenhou a montanha que faria a paisagem japonesa dar a volta no mundo.

Gravura de Katsushika Hokusai com uma onda alta e o Monte Fuji ao fundo, por volta de 1831.

Edo, 1831: o Fuji visto de trinta e seis pontos

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Por volta de 1831, aos setenta e um anos, o gravador Katsushika Hokusai levou ao editor Nishimuraya Yohachi, na Edo dos xoguns Tokugawa, os desenhos de uma série de paisagens que ele batizou de Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji.

Ele assinava aquelas pranchas como Iitsu, e fazia questão de acrescentar embaixo que era o antigo Hokusai. O nome com que ficou conhecido no mundo inteiro já tinha sido descartado por ele mesmo, como dezenas de outros ao longo de meio século de trabalho.

A cidade em que a série apareceu tinha mais de um milhão de habitantes, casas de madeira coladas umas nas outras e um mercado editorial popular que vendia estampas coloridas a preço de comida de rua. As gravuras em madeira, as ukiyo-e, eram impressas aos milhares e circulavam entre comerciantes, artesãos e camponeses, gente que nunca entraria num salão de pintura.

O que se vendia bem naquele mercado era retrato de atriz de kabuki, cortesã do bairro de Yoshiwara e lutador de sumô. Paisagem era assunto secundário, cenário de fundo para figura humana, e ninguém tinha construído uma série inteira em cima de uma montanha.

Hokusai construiu. Escolheu o Monte Fuji, que os moradores de Edo enxergavam de dentro da própria cidade em dia claro, e resolveu mostrá-lo de trinta e seis pontos diferentes: de trás de um andaime de carpinteiros, entre as pernas de uma ponte, atrás de um barco de pesca, por cima de um telhado, refletido num lago, coberto de neve ao amanhecer.

A montanha aparece pequena em quase todas as pranchas. Quem ocupa o primeiro plano é gente trabalhando, tanoeiro dentro do barril que fabrica, carregador de lenha, lavadeira, pescador que segura o remo enquanto a onda cresce.

Ele tinha idade para estar aposentado e não tinha dinheiro para isso. Vivia em quartos alugados, mudava de endereço com frequência, e um neto endividado consumia o que entrava. A série que o tornaria o artista japonês mais reconhecível do planeta nasceu de um homem que precisava do pagamento do editor para comer naquele mês.

Ainda faltavam dezoito anos de vida e uma quantidade absurda de desenhos pela frente, e a história começa numa oficina de polidor de espelhos.

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I  A Vida de Hoje

O menino de Honjō que nunca ficou com o mesmo nome

Ele nasceu em Edo por volta de outubro de 1760, no bairro de Katsushika, na margem leste do rio Sumida, e foi criado por um artesão que polia espelhos para a casa do xogum. Cresceu vendo trabalho de precisão feito com a mão, e não herdou a oficina: o pai adotivo passou o ofício a outro filho.

Aos doze anos foi trabalhar numa livraria de aluguel, dessas que emprestavam livros ilustrados por moedas. Aos catorze entrou como aprendiz numa oficina de entalhe, aprendendo a cortar na madeira de cerejeira as linhas que outro artista tinha desenhado.

Em 1778, aos dezoito, foi aceito no ateliê de Katsukawa Shunshō, o maior fabricante de retratos de atores de kabuki da cidade. No ano seguinte publicou as primeiras gravuras assinadas com o nome que o mestre lhe deu, Shunrō.

Ficou quinze anos na casa Katsukawa. Foi expulso pouco depois da morte do mestre, em 1793, por ter ido estudar pintura na escola rival Kanō, e ele mesmo contou depois que a humilhação daquela expulsão foi o que melhorou o trabalho dele.

O que veio a seguir foi uma sequência de reinvenções assinadas com nomes diferentes. Sōri, herdado de outra escola e depois vendido a um discípulo. Hokusai, adotado por volta de 1798, que quer dizer estúdio do norte, referência à estrela polar do culto budista de Nichiren que ele seguia. Taito. Iitsu, adotado aos sessenta, que significa um de novo, o retorno ao início do ciclo.

Os historiadores de arte japonesa contam mais de trinta nomes de trabalho ao longo da carreira dele, quantidade sem paralelo entre os artistas do período Edo. Cada troca marcava mudança de fase, de estilo ou de escola, e algumas ele vendeu literalmente, repassando o nome a um aluno em troca de dinheiro.

O endereço mudava na mesma velocidade. Hokusai trocou de casa dezenas de vezes ao longo da vida, e a versão mais repetida pelos biógrafos fala em noventa e três mudanças, sempre pelo mesmo motivo: sujeira acumulada, aluguel atrasado, ou simples recusa a limpar o cômodo onde desenhava.

Enquanto isso, produzia num ritmo industrial. Ilustrou romances populares, fez cartões de ano-novo por encomenda, pintou biombos, e a partir de 1814 começou a publicar a Manga, quinze volumes de cadernos de esboço com milhares de figuras soltas: caretas, lutadores, fantasmas, andaimes, peixes, gente espirrando, gente dormindo torto.

Aquilo era material de estudo vendido em banca. Virou o livro de desenho mais popular do Japão e, meio século depois, foi um dos primeiros pacotes de imagem japonesa a chegar às mãos de artistas europeus.

Em 1827, aos sessenta e sete anos, ele teve o que os relatos descrevem como um derrame e perdeu por um tempo o controle da mão. Recuperou-se, segundo a própria correspondência, com um remédio caseiro à base de casca de cítrico, e voltou a desenhar.

Três anos depois começou a série da montanha.

 
 

II  O Momento que Virou

A tinta azul importada e as quarenta e seis pranchas do Fuji

As Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji foram publicadas por Nishimuraya Yohachi entre 1830 e 1832, e venderam tão bem que o editor encomendou mais dez pranchas: a série de trinta e seis terminou com quarenta e seis estampas, e o nome ficou como estava.

A cor foi parte do sucesso. Hokusai usou em larga escala o azul da Prússia, pigmento sintético fabricado na Europa que chegava ao Japão pelo porto de Nagasaki, único ponto de contato comercial autorizado durante o isolamento do xogunato. O azul japonês tradicional, feito de planta, desbotava ao sol; o importado não.

Aquele azul deu à série uma assinatura visual que nenhuma outra tinha. É ele que faz o céu do Fuji vermelho ao amanhecer, na prancha conhecida como Vento Sul, Céu Claro, e é ele que forma a água da estampa mais reproduzida da história japonesa.

A produção de cada estampa passava por quatro mãos, nesta ordem:

O desenhista  entregava o desenho a nanquim em papel fino, que seria colado de face na madeira e destruído no processo
O entalhador  cortava o bloco de cerejeira seguindo o traço, um bloco para o contorno e um bloco separado para cada cor
O impressor  passava a tinta com pincel, apoiava o papel úmido e esfregava por trás com um disco de bambu, cor por cor, registrando cada bloco no mesmo milímetro
O editor  financiava tudo, escolhia a tiragem, fixava o preço e ficava com a propriedade dos blocos

A prancha que ficou conhecida como A Grande Onda de Kanagawa mostra três barcos de transporte de peixe descendo o vale de uma onda que se fecha sobre eles, com o Fuji ao fundo, pequeno, do tamanho de uma das garras de espuma. Os remadores estão deitados sobre o casco, agarrados, e nenhum rosto aparece.

O barco desenhado ali é um oshiokuri-bune, embarcação rápida que levava peixe vivo das vilas da baía para o mercado de Edo. Era um dia de trabalho comum na rota costeira daquela baía.

Sobre a técnica que sustentava tudo aquilo, Hokusai deixou escrito o balanço da própria carreira no posfácio de Cem Vistas do Monte Fuji, publicado em 1834, quando tinha setenta e cinco anos.

"Desde os seis anos eu tinha a mania de desenhar a forma dos objetos. Por volta dos cinquenta publiquei muitos desenhos, mas nada do que fiz antes dos setenta merece ser contado."

Katsushika Hokusai, Cem Vistas do Monte Fuji, 1834

O mesmo texto segue com um plano de trabalho para as décadas seguintes, escrito por um homem de setenta e cinco anos: aos oitenta faria mais progresso, aos noventa penetraria o mistério das coisas, aos cem chegaria a um estágio maravilhoso, e aos cento e dez cada ponto e cada linha teriam vida própria.

Nada daquilo enriqueceu o autor. A propriedade dos blocos era do editor, o pagamento era por encomenda entregue, e Hokusai continuou pobre enquanto a montanha dele era impressa aos milhares.

 

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III  O Que Ficou

O incêndio, o velho louco por desenho e os cinco anos que ele pediu

Em 1839, um incêndio destruiu o ateliê dele e o estoque de trabalho guardado ali. Hokusai tinha setenta e nove anos, perdeu esboços de décadas, e continuou desenhando de aluguel em aluguel, agora com a filha Ōi ao lado.

Katsushika Ōi era pintora e trabalhava com o pai havia anos, cuidando das encomendas e assinando pinturas próprias, algumas atribuídas a ele durante muito tempo. Os relatos da época descrevem os dois no mesmo cômodo desarrumado, sem cozinhar, comendo comida comprada pronta.

Na última década de vida, ele passou a assinar como Gakyō Rōjin Manji, que significa o velho louco por desenho. Nessa fase pintou sobre seda os trabalhos que muitos consideram os melhores da carreira, entre eles um tigre sob a chuva datado de 1849, no ano em que completou oitenta e oito anos.

Hokusai morreu em Edo, em 10 de maio de 1849. O epitáfio escrito pelo círculo dele registra a frase que disse no fim, um pedido de prazo para terminar o que achava que ainda não tinha começado direito.

A viagem das estampas para fora do Japão começou pouco depois. Com a reabertura dos portos, gravuras japonesas passaram a chegar à Europa como embalagem de mercadoria e como item de loja, e caíram nas mãos de uma geração de artistas que nunca tinha visto aquele tipo de composição.

Vincent van Gogh escreveu ao irmão Theo, em 1888, sobre as ondas de Hokusai, dizendo que aquelas garras de água causavam medo e que o desenho ficava na memória. Claude Debussy manteve uma cópia da Grande Onda na parede do escritório e pediu a imagem para a capa da primeira edição de La Mer, publicada em 1905.

A prancha continua circulando. Cópias originais da tiragem do período Edo estão em museus da Europa, dos Estados Unidos e do Japão, e uma delas foi arrematada em leilão da Christie's, em março de 2023, por 2,76 milhões de dólares.

Um gravador pobre, que trocou de nome mais de trinta vezes e mudou de casa quase cem, publicou aos setenta anos uma série de paisagens de banca e produziu com ela a imagem japonesa mais reconhecida do planeta.

"Quantos anos de trabalho você acha que ainda vai precisar para chegar onde quer chegar?"

Sobre o fim, o discípulo que registrou a cena atribui a Hokusai a última frase: "Se o céu me desse mais dez anos, ou mesmo mais cinco, eu poderia ter me tornado um verdadeiro pintor."

 
 

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Depois que a série de Hokusai fez tanto sucesso, o editor Nishimuraya Yohachi encomendou mais pranchas. Com quantas estampas a série "Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji" terminou?

A36, o editor não pediu nada além do combinado
B40 estampas
C46 estampas
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