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As mãos que Semmelweis mandou lavar
Em 1847 ele ligou a febre das parturientes de Viena ao corte de bisturi na mão do amigo, mandou lavar as mãos em cloro e perdeu o cargo.
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A bacia de cal clorada na porta da ala
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O Hospital Geral de Viena fez da autópsia o centro do ensino de medicina nos anos 1840. O instituto de anatomia patológica da casa abria corpos aos milhares por ano, e o aluno aprendia a doença pela lesão que via na mesa, não pelo livro.
A manhã do estudante seguia sempre a mesma ordem. Primeiro a sala de dissecção, depois a visita às internadas. Entre uma coisa e outra, a mão passava num pano ou numa bacia de água comum, quando passava. Luva de borracha ainda levaria meio século para entrar em sala.
A febre que atacava as recém-paridas tinha explicação oficial e nenhuma controvérsia. Falava-se em influência atmosférica, em miasma do ar da enfermaria, na constituição frágil da mulher, no aperto das camas, no susto que o sino do padre causava na parturiente.
Todas as explicações tinham uma coisa em comum: colocavam a causa no ar, no clima ou no corpo da paciente. Nenhuma delas passava pela mão de quem examinava.
E não havia teoria disponível para propor outra coisa. Louis Pasteur só demonstraria o papel dos micro-organismos nos anos 1860, e Joseph Lister só publicaria a cirurgia antisséptica em 1867.
Quem dissesse, em 1847, que o médico levava a doença no próprio dedo não estava propondo hipótese, estava acusando a profissão inteira sem microscópio para provar nada.
O tamanho do problema era conhecido e tolerado. Em mês ruim, uma em cada cinco mulheres internadas numa ala de ensino não voltava para casa. A perda da mãe poucos dias depois do parto tinha nome próprio, capítulo em manual e nenhuma pergunta em aberto.
A vida de hoje é a de um húngaro de 28 anos que assumiu, em julho de 1846, a assistência da primeira ala de partos de Viena. Ele recebeu junto o emprego menos disputado da casa e os livros de registro, com a contagem de partos e de óbitos coluna por coluna, mês a mês.
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I A Vida de Hoje
As duas alas do mesmo corredor
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O amigo se cortou numa autópsia e apareceu na mesa com o mesmo quadro das parturientes da ala. Ele mandou lavar as mãos em água clorada e viu a mortalidade cair de 18% para 2%. Veja o preço de acertar antes da hora.
Em 1846, o Hospital Geral de Viena mantinha duas alas de parto no mesmo prédio, e uma delas perdia três vezes mais mulheres que a outra. A divisão era de 1840: a primeira ficou com os médicos e os estudantes, a segunda com as alunas de parteira.
Os registros de 1841 a 1846 dão o tamanho da diferença. A primeira ala teve 1.989 óbitos em 20.042 partos, quase 10%. A segunda teve 691 em 17.791, perto de 3,9%. Mesma comida, mesmo prédio, mesma fila de mulheres pobres, alternada por dia de admissão.
As pacientes sabiam de cor. Chegavam implorando para ser mandadas à segunda ala, e havia quem preferisse ter o filho na rua e entrar com a criança já no colo. Quem parava na rua saía viva com mais frequência do que quem era admitida na primeira.
Ignác Fülöp Semmelweis nasceu em Buda, em 1º de julho de 1818, quinto filho de um comerciante de secos e molhados. Foi mandado a Viena em 1837 para estudar direito, trocou de curso e se formou médico em 1844.
Ele queria clínica e cirurgia. Sobrou a obstetrícia, a especialidade de menos prestígio da casa: em julho de 1846 virou assistente do professor Johann Klein, responsável pela primeira ala.
Examinar as internadas, ensinar os alunos, anotar tudo. Foi anotando que ele passou a tratar a diferença entre as duas alas como problema a resolver, e não como fatalidade do serviço.
Ele foi eliminando as explicações uma por uma. O aperto das camas não explicava, porque a segunda ala era mais cheia. O ar da enfermaria não explicava, porque as duas alas dividiam o mesmo corredor e a mesma janela.
O sino do padre também caiu. Contava-se que a passagem do sacerdote com a campainha, a caminho da extrema-unção, assustava as parturientes e desencadeava a febre. Ele pediu ao padre que entrasse em silêncio e por outro caminho. A mortalidade não se moveu.
Faltou a posição do parto. Na segunda ala a mulher paria de lado, na primeira paria de costas. Ele mandou a primeira adotar a posição da segunda, mediu de novo e não achou diferença nenhuma.
Depois de riscar tudo, sobrou uma variável só: quem encostava a mão na mulher.
Na segunda ala, as alunas de parteira nunca punham o pé na sala de dissecção. Na primeira, o estudante saía do corpo aberto e ia direto examinar a próxima internada, com a mesma mão e a mesma manga.
Faltava a prova de que o que ficava na mão derrubava até gente saudável. Ela chegou em março de 1847, e não veio de uma parturiente.
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II O Momento que Virou
A bacia de cloro na porta da ala
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O momento que virou não aconteceu numa sala de parto. Foi a autópsia de um professor de medicina legal, cortado pelo bisturi de um aluno, que apareceu na mesa com exatamente o mesmo quadro das mulheres da primeira ala.
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Jakob Kolletschka era professor de medicina legal em Viena, colega e amigo de Semmelweis. Numa autópsia de rotina com estudantes, a lâmina de um aluno abriu o dedo dele. Kolletschka partiu em 13 de março de 1847.
O laudo listou o que a infecção atingiu: veias, vasos linfáticos, peritônio, pleura e meninges. Semmelweis leu e reconheceu cada item. Era a mesma lista que ele vinha escrevendo, manhã após manhã, nas autópsias das mulheres da própria ala.
A conclusão veio na hora e era simples demais para o gosto da época. O que entrou em Kolletschka veio do cadáver, pela lâmina. O que entrava nas parturientes vinha do cadáver também, pela mão de quem saía da sala de dissecção.
Ele chamou aquilo de partículas cadavéricas. Não sabia o que eram e não tinha microscópio para mostrá-las. Descreveu o transporte, não o transportado.
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"Dia e noite a imagem da doença de Kolletschka me perseguia, e fui obrigado a reconhecer, com convicção cada vez maior, que a doença que levou Kolletschka era idêntica à que levava tantas parturientes."
Ignaz Semmelweis, Die Ätiologie, der Begriff und die Prophylaxis des Kindbettfiebers, 1861
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Em meados de maio de 1847 ele mandou pôr uma bacia com solução de cal clorada na entrada da ala. Lavar as mãos ali virou obrigatório antes de cada exame, sem exceção para professor ou aluno.
A escolha do cloro não veio de teoria nenhuma. Era a única coisa que tirava da pele o cheiro do necrotério, e ele usou o cheiro como medidor: enquanto a mão cheirasse a cadáver, havia cadáver na mão.
Os números responderam em um mês. Em abril de 1847, antes da bacia, a primeira ala perdeu 18,3% das internadas. Em junho, com a regra valendo, foram 2,2%. Em julho, 1,2%.
Em 1848, primeiro ano inteiro com a bacia na porta, a ala fechou em 1,27%, com dois meses sem nenhum óbito. A ala das parteiras deixou de ser o lugar mais seguro do hospital.
No fim de 1847 um caso esticou a regra. Uma internada com câncer de colo em supuração passou pela fila de exames, e quase toda a fila atrás dela adoeceu. Ele estendeu a lavagem aos instrumentos e aos curativos: matéria em decomposição de gente viva também transportava.
Aceitar a bacia era aceitar uma frase impossível de dizer em voz alta: durante anos, a mão do médico levou para dentro da ala aquilo que o médico dizia combater.
Johann Klein, chefe da ala, tratou a ordem como insubordinação e a explicação como ofensa pessoal. Boa parte da medicina de Viena reagiu igual, e a tabela limpa de 1848 não teve peso contra a acusação embutida nela.
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