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Anita Malfatti e os 53 quadros de 1917

Canhota desde criança, ela voltou de Berlim e Nova York com uma pintura que São Paulo ainda não sabia olhar.

Anita Malfatti diante dos quadros da exposição de 1917, numa sala do centro de São Paulo.

São Paulo, 1917: a exposição de Anita Malfatti

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Aos 28 anos, a pintora paulistana Anita Malfatti pendurou 53 trabalhos numa sala alugada da rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, e abriu a porta ao público no dia 12 daquele dezembro de 1917.

O conjunto misturava óleos, desenhos, gravuras e aquarelas. Havia rosto com sombra verde, um homem de pele amarela, uma moça de cabelo pintado em mechas verdes e paisagens de praia com o céu feito em pinceladas grossas, quase em relevo.

As telas tinham títulos simples: A Estudante Russa, O Japonês, A Boba, O Homem Amarelo, A Mulher de Cabelos Verdes, Tropical. Parte vinha dos anos de estudo em Berlim, parte das temporadas em Nova York.

A cidade tinha perto de meio milhão de habitantes e um gosto preso à pintura acadêmica (a das escolas oficiais, com desenho exato e cor fiel ao modelo). Retrato bom, para o comprador paulistano, era retrato parecido.

Mesmo assim, o público apareceu. A família Malfatti tinha amigos na colônia italiana e entre os fazendeiros de café, e nos primeiros dias várias obras ganharam a etiqueta de vendida.

Quem comprava era, em boa parte, conhecido da casa: gente que tinha visto a moça partir para a Europa e queria pendurar na sala um quadro da filha do engenheiro Malfatti.

Na noite de 20 de dezembro, a edição vespertina do jornal O Estado de S. Paulo trouxe um artigo de Monteiro Lobato, então fazendeiro, contista e o crítico mais lido da cidade. O título era “A propósito da exposição Malfatti”.

Lobato reconhecia o talento da pintora e condenava o caminho escolhido. Tratava a arte moderna como moda passageira e aproximava aqueles quadros dos desenhos feitos por internos de hospício.

Nos dias seguintes, compradores voltaram à Líbero Badaró e devolveram telas já acertadas. A sala, que tinha começado cheia de curiosos, passou a receber visitante disposto a rir diante das paredes.

A mostra fechou em janeiro de 1918. A pintora guardou de volta, no próprio ateliê, quase todas as telas trazidas de fora.

Para entender por que uma moça de família pintava daquele jeito, é preciso voltar a um braço direito que nunca obedeceu e a uma viagem de navio até a Alemanha.

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I  A Vida de Hoje

A mão esquerda de Anita

A resposta de ontem

Qual país venceu por equipes no Pershing em 1922?

A Grã-Bretanha venceu a classificação por equipes, com a França em segundo. A estrela foi a britânica Mary Lines, que ganhou os 60 metros, os 300 metros, o salto em distância e o revezamento. A americana Camille Sabie levou as barreiras e o salto sem impulso, e a francesa Lucie Bréard venceu os 1.000 metros.

Anita Catarina Malfatti nasceu em São Paulo, em 1889, num 2 de dezembro. O pai, Samuel Malfatti, era engenheiro italiano; a mãe, Eleonora Elizabeth Krug, era americana de família alemã e pintava por gosto.

A menina veio ao mundo com uma atrofia no braço e na mão direita. Aos 3 anos, os pais a levaram à Itália para uma cirurgia que não resolveu o problema.

Ela aprendeu a escrever, desenhar e pintar com a mão esquerda. A governanta inglesa da casa, Miss Browne, ajudou no treino diário, com lápis e caderno de caligrafia.

O pai faleceu em 1901, quando Anita tinha 11 anos. Eleonora passou a dar aulas de pintura e de línguas para sustentar os filhos, e a casa virou também um pequeno ateliê.

Anita estudou no Mackenzie College, escola protestante de São Paulo, e se formou professora. Dava aula de desenho, mas queria a pintura como ofício.

Em 1910, o tio e padrinho Jorge Krug, engenheiro, pagou a viagem dela para a Alemanha. Ela tinha 20 anos e desembarcou em Berlim sem falar bem o alemão.

Passou pela Academia Imperial de Belas Artes e depois estudou com Lovis Corinth, pintor alemão de pincelada solta e cor forte. Em 1912, viu em Colônia a grande mostra do Sonderbund (a “liga separada”, associação de artistas), com telas de Van Gogh, Cézanne, Munch e dos expressionistas, pintores que deformavam a forma para mostrar emoção.

Em Colônia, Anita viu de perto a pintura que usava a cor para dizer o que o contorno não dizia.

A Primeira Guerra começou em 1914, e ela voltou para São Paulo. Em maio daquele ano fez uma primeira exposição individual, pequena, que a imprensa local registrou sem escândalo.

No ano seguinte, a família a mandou para os Estados Unidos. Em Nova York, ela entrou na Independent School of Art (Escola Independente de Arte), dirigida pelo pintor Homer Boss.

Boss não dava nota nem cobrava cópia de gesso. Os alunos pintavam modelo vivo pelo tempo que quisessem e discutiam cor e composição em roda.

No verão, a turma foi para a ilha de Monhegan, no estado do Maine, na costa atlântica. Anita pintou ali o farol, as rochas e as ondas em azuis e amarelos que ninguém usava em São Paulo.

De volta a Nova York, fez os retratos que levaria para a Líbero Badaró: o operário de rosto cansado que virou O Homem Amarelo, a moça de olhos fundos de A Estudante Russa.

Em 1916, aos 26 anos, ela embarcou de volta para o Brasil com as telas enroladas na bagagem. Tinha seis anos de estudo fora e nenhum colega em São Paulo pintando daquele modo.

 
 

II  O Momento que Virou

O artigo da edição da noite

Os amigos insistiram para que Anita mostrasse o trabalho. Ela alugou a sala no número 111 da Líbero Badaró e pendurou ali os 53 trabalhos.

Monteiro Lobato tinha 35 anos e escrevia sobre arte no Estado. Já tinha atacado o pintor acadêmico que copiava paisagem europeia e pedia uma pintura do caboclo e do mato brasileiro.

O artigo de 20 de dezembro abria dividindo os artistas em dois grupos: os que veem a natureza com olho normal e os que a deformam por teoria de escola estrangeira.

Lobato escreveu no Estado, em 1917: “Seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e pôs todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.”

No mesmo texto, ele comparou as escolas modernas a “furúnculos da cultura excessiva”. Para o leitor do jornal, a pintora era uma moça talentosa que tinha se perdido no exterior.

A crítica de um homem só esvaziou as paredes e juntou em volta da pintora os rapazes que fariam a Semana de Arte Moderna.

As devoluções vieram logo. Telas vendidas voltaram para a sala, e parentes e amigos da família pediram que a moça pintasse de um jeito mais comportado.

Anita sentiu o golpe. Nos anos seguintes, foi tomar aulas com o pintor acadêmico Pedro Alexandrino e com o alemão Georg Elpons, e começou a pintar natureza-morta e retrato mais contidos.

Entre os visitantes estava um estudante de 24 anos chamado Mário de Andrade. Ele riu na primeira visita, voltou outras vezes e saiu convencido de que tinha visto pintura moderna feita por brasileira.

Mário escreveu a Anita, tornou-se amigo dela e guardou O Homem Amarelo na própria coleção. A tela está hoje no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, que recebeu o acervo dele.

Oswald de Andrade, jornalista e poeta, respondeu a Lobato no Jornal do Commercio, em janeiro de 1918, defendendo a coragem da pintora.

Em 1919, Lobato reuniu o artigo no livro Ideias de Jeca Tatu e trocou o título por uma pergunta: “Paranoia ou mistificação?”. A versão em livro espalhou o ataque para muito além do leitor do Estado.

Ele nunca se retratou por escrito. A resposta veio da própria pintura: os moços que leram o ataque passaram a citar a exposição de 1917 como o marco de partida do modernismo em São Paulo.

 

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III  O Que Ficou

Da sala alugada ao Theatro Municipal

Em fevereiro de 1922, Mário, Oswald e o grupo de jovens escritores e artistas ocuparam o Theatro Municipal de São Paulo com a Semana de Arte Moderna, três noites de palestra, música e poesia.

No saguão, Anita expôs cerca de vinte trabalhos, entre eles O Homem Amarelo e A Estudante Russa. As telas recusadas em 1917 viraram cartão de visita do movimento.

No mesmo ano formou-se o Grupo dos Cinco: Anita, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e o poeta Menotti del Picchia. Eles se encontravam no ateliê de Tarsila e saíam juntos de carro pela cidade.

Em 1923, o Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, bolsa do governo paulista para artistas estudarem fora, mandou Anita para Paris. Ela ficou cinco anos na França e voltou em 1928.

A pintura de Paris saiu mais calma: interiores, igrejas, figuras religiosas, cores sem o choque de 1917. Parte da crítica modernista lamentou a mudança.

A partir dos anos 1930, Anita trocou a deformação expressionista por cenas de festa popular, procissão e vida de interior.

Ela deu aulas de desenho no Mackenzie, na Escola Normal e no próprio ateliê por décadas. Muitos alunos eram crianças, e ela ensinava com a mão esquerda, apoiando o braço direito no colo.

Nos anos 1940, presidiu o Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo. Em 1963, a Bienal de São Paulo dedicou a ela uma sala especial, com obras de todas as fases.

Anita Malfatti faleceu em 1964, num 6 de novembro, em Diadema, na Grande São Paulo, aos 74 anos. Nunca se casou e passou os últimos anos numa chácara, pintando quadros pequenos.

Os quadros de 1917 subiram de preço com as décadas. A Boba pertence hoje ao Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, e A Estudante Russa está no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros.

Os livros escolares contam a exposição da Líbero Badaró como o primeiro choque da pintura moderna no Brasil, cinco anos antes da Semana de 22.

Lobato seguiu como escritor de sucesso, criou o Sítio do Picapau Amarelo e virou o autor infantil mais lido do país. O artigo sobre Anita ficou como a página dele que os modernistas nunca perdoaram.

Lobato abriu aquele texto com a frase que dividiu a pintura brasileira em dois lados: “Há duas espécies de artistas.”

 
 
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Quantas obras Anita Malfatti exibiu na mostra da rua Líbero Badaró em dezembro de 1917?

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