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Alice Joséphine Marie Million nasceu em 5 de maio de 1884, em Nantes, cidade portuária do oeste da França, na beira do rio Loire. O sobrenome Milliat, que a fez conhecida, veio do casamento.
Ela estudou para dar aula. Formou-se professora primária, numa época em que o magistério era um dos poucos ofícios abertos à moça de classe média na França.
Em 1904, aos 20 anos, casou-se com Joseph Milliat, comerciante, e foi morar com ele em Londres. Quatro anos depois, Joseph morreu. Alice ficou viúva aos 24, sem filhos.
Ficou na Inglaterra mais algum tempo, dando aula e traduzindo do inglês. Ali viu moças inglesas jogando hóquei, remando no Tâmisa e correndo em escolas, cena rara na França da época.
De volta a Paris, entrou para o Femina Sport, clube feminino fundado em 1912. Escolheu o remo de longa distância, praticado no Sena, em barcos de madeira, por horas seguidas.
Em 1915, virou presidente do clube. A Primeira Guerra tinha mandado os homens para a frente de batalha, e as mulheres ocupavam fábricas, escritórios e bondes. Muitas operárias passaram a jogar futebol e a correr nos fins de semana.
Em abril de 1920, Milliat levou uma seleção de francesas à Inglaterra para enfrentar o Dick, Kerr Ladies, time de futebol das operárias de uma fábrica de munição de Preston. Os jogos encheram estádios ingleses de torcedores pagantes.
Em 1917 nasceu a Federação das Sociedades Femininas Esportivas da França (FSFSF, sigla em francês), primeira entidade nacional de esporte feminino do país. Milliat entrou como tesoureira.
Em 1919, Milliat assumiu a presidência da federação e escreveu ao COI pedindo atletismo feminino nos Jogos.
O pedido mirava Antuérpia, na Bélgica, sede dos Jogos de 1920. O comitê respondeu com a recusa. Mulheres podiam disputar tênis, natação, saltos ornamentais e patinação artística, e só.
O presidente do COI era o barão Pierre de Coubertin, o francês que tinha refundado os Jogos em 1896. A opinião dele estava impressa havia anos.
Coubertin escreveu na Revista Olímpica (Revue Olympique, a publicação oficial do COI), em 1912: “Uma Olimpíada de fêmeas seria impraticável, desinteressante, antiestética e incorreta.”
Milliat procurou outra porta. Em 1921, o diretor do cassino de Monte Carlo, Camille Blanc, organizou um encontro de atletismo feminino no principado de Mônaco, e a equipe francesa dela competiu ao lado das inglesas. As arquibancadas lotaram.
No outono de 1921, em Paris, ela fundou a Federação Esportiva Feminina Internacional (FSFI, sigla em francês). Na mesa estavam França, Grã-Bretanha, Estados Unidos, Tchecoslováquia, Itália e Espanha.
A federação nova tinha estatuto, presidente e calendário. Faltava uma competição própria, à altura dos Jogos que fechavam a porta.
Ela tinha 37 anos, falava inglês fluente e conhecia os dirigentes britânicos do tempo de Londres. Usou as duas vantagens para fechar cada convite pessoalmente.
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