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Alice Milliat e os 20 mil do estádio Pershing

Tradutora e remadora em Paris, ela juntou atletas de cinco países num domingo de 1922, depois de o COI fechar o atletismo às mulheres.

Corredoras de 1922 na largada de uma prova no estádio Pershing, em Paris, diante de arquibancadas cheias.

Paris, 1922: a largada no estádio Pershing

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Aos 38 anos, a tradutora e remadora francesa Alice Milliat abriu, num domingo de agosto de 1922, os portões do estádio Pershing, em Paris, para uma competição barrada dos Jogos Olímpicos: atletismo só de mulheres.

O estádio ficava no bosque de Vincennes, na borda leste da cidade. Soldados americanos o ergueram em 1919 para os Jogos Interaliados, disputa entre militares dos países vencedores da Primeira Guerra, e a homenagem ia para o general John Pershing, comandante das tropas americanas na França.

Naquele 20 de agosto, as arquibancadas receberam perto de vinte mil pessoas, segundo a imprensa esportiva de Paris da época. Muita gente pagou ingresso para ver, pela primeira vez na vida, mulheres correndo atrás de um cronômetro.

Na pista entraram atletas de cinco países: França, Grã-Bretanha, Estados Unidos, Tchecoslováquia e Suíça. Havia datilógrafas, operárias, estudantes e professoras, com treino feito depois do expediente.

O programa cabia num dia só. Eram onze provas, dos 60 aos 1.000 metros rasos, com revezamento, barreiras, salto em altura, salto em distância, arremesso de peso e lançamento de dardo.

As americanas tinham cruzado o Atlântico de navio, semanas antes, e treinado no convés. As tchecas vieram de trem, com uniforme costurado pelo próprio clube.

Juízes, cronometristas e súmula seguiam as regras do atletismo masculino da época. Milliat queria cada marca do dia registrada de um jeito que ninguém pudesse contestar na semana seguinte.

O cartaz anunciava Jogos Olímpicos Femininos. A palavra olímpico incomodava o Comitê Olímpico Internacional, o COI, que guardava o título para as próprias disputas e mantinha as mulheres longe da pista de atletismo.

Milliat tinha pedido essa vaga ao comitê três anos antes e ouvira um não. Montou então uma federação, juntou países, alugou o estádio e marcou a data por conta própria.

Para entender como uma viúva de Nantes chegou a enfrentar o COI, é preciso voltar a um clube de remo de Paris e a um casamento curto.

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I  A Vida de Hoje

A remadora de Nantes

Alice Joséphine Marie Million nasceu em 5 de maio de 1884, em Nantes, cidade portuária do oeste da França, na beira do rio Loire. O sobrenome Milliat, que a fez conhecida, veio do casamento.

Ela estudou para dar aula. Formou-se professora primária, numa época em que o magistério era um dos poucos ofícios abertos à moça de classe média na França.

Em 1904, aos 20 anos, casou-se com Joseph Milliat, comerciante, e foi morar com ele em Londres. Quatro anos depois, Joseph morreu. Alice ficou viúva aos 24, sem filhos.

Ficou na Inglaterra mais algum tempo, dando aula e traduzindo do inglês. Ali viu moças inglesas jogando hóquei, remando no Tâmisa e correndo em escolas, cena rara na França da época.

De volta a Paris, entrou para o Femina Sport, clube feminino fundado em 1912. Escolheu o remo de longa distância, praticado no Sena, em barcos de madeira, por horas seguidas.

Em 1915, virou presidente do clube. A Primeira Guerra tinha mandado os homens para a frente de batalha, e as mulheres ocupavam fábricas, escritórios e bondes. Muitas operárias passaram a jogar futebol e a correr nos fins de semana.

Em abril de 1920, Milliat levou uma seleção de francesas à Inglaterra para enfrentar o Dick, Kerr Ladies, time de futebol das operárias de uma fábrica de munição de Preston. Os jogos encheram estádios ingleses de torcedores pagantes.

Em 1917 nasceu a Federação das Sociedades Femininas Esportivas da França (FSFSF, sigla em francês), primeira entidade nacional de esporte feminino do país. Milliat entrou como tesoureira.

Em 1919, Milliat assumiu a presidência da federação e escreveu ao COI pedindo atletismo feminino nos Jogos.

O pedido mirava Antuérpia, na Bélgica, sede dos Jogos de 1920. O comitê respondeu com a recusa. Mulheres podiam disputar tênis, natação, saltos ornamentais e patinação artística, e só.

O presidente do COI era o barão Pierre de Coubertin, o francês que tinha refundado os Jogos em 1896. A opinião dele estava impressa havia anos.

Coubertin escreveu na Revista Olímpica (Revue Olympique, a publicação oficial do COI), em 1912: “Uma Olimpíada de fêmeas seria impraticável, desinteressante, antiestética e incorreta.”

Milliat procurou outra porta. Em 1921, o diretor do cassino de Monte Carlo, Camille Blanc, organizou um encontro de atletismo feminino no principado de Mônaco, e a equipe francesa dela competiu ao lado das inglesas. As arquibancadas lotaram.

No outono de 1921, em Paris, ela fundou a Federação Esportiva Feminina Internacional (FSFI, sigla em francês). Na mesa estavam França, Grã-Bretanha, Estados Unidos, Tchecoslováquia, Itália e Espanha.

A federação nova tinha estatuto, presidente e calendário. Faltava uma competição própria, à altura dos Jogos que fechavam a porta.

Ela tinha 37 anos, falava inglês fluente e conhecia os dirigentes britânicos do tempo de Londres. Usou as duas vantagens para fechar cada convite pessoalmente.

 
 

II  O Momento que Virou

Um domingo em Vincennes

Milliat escolheu agosto de 1922 e o estádio Pershing. A pista era boa, o bosque de Vincennes tinha bonde da cidade, e o aluguel cabia no caixa de uma federação sem patrocinador oficial.

Os convites seguiram por carta às federações filiadas. Itália e Espanha não mandaram equipe. Suíça, que não estava entre as fundadoras, aceitou e embarcou atletas para Paris.

A equipe americana tinha sido montada às pressas, com seletiva em Nova York. O médico Harry Eaton Stewart, que treinava universitárias, levou o grupo de navio até a França.

A francesa precisava de pistas de treino. Milliat conseguiu horários em clubes de Paris e pediu às empresas que liberassem as atletas mais cedo nos dias de treino.

No dia, as provas correram da manhã ao anoitecer. Os jornais esportivos mandaram repórteres e fotógrafos, e as fotos de mulheres de short e camiseta saíram nas primeiras páginas da semana.

Várias marcas mundiais caíram naquele domingo. Era a primeira vez que muitas daquelas provas femininas eram medidas e registradas por uma federação internacional, com juízes e cronômetro oficiais.

Depois do evento, a federação publicou as marcas de cada prova e mandou cópia às entidades filiadas. O papel virou prova de que a mulher corria, saltava e lançava com regra e com medida.

No programa havia ainda o salto em distância sem impulso, prova comum na época: a atleta saltava parada, com os dois pés juntos, sem corrida de aproximação.

O sucesso do Pershing obrigou os cartolas a sentar à mesa com Milliat.

A Federação Internacional de Atletismo Amador (IAAF, sigla em inglês, a entidade que regia o atletismo masculino) reagiu primeiro. Queria controlar o atletismo feminino e cobrou de Milliat o abandono da palavra olímpico.

Milliat negociou. Em 1926, a segunda edição, em Gotemburgo, na Suécia, já saiu com o título de Jogos Mundiais Femininos. Em troca, a IAAF prometeu pressionar o COI.

A pressão funcionou pela metade. O COI aceitou cinco provas femininas de atletismo para os Jogos de Amsterdã, em 1928: 100 metros, 800 metros, salto em altura, lançamento de disco e revezamento 4 por 100.

Milliat tinha pedido um programa completo, com dez provas ou mais. Recebeu cinco. Aceitou, contando com a pista para provar o resto.

 

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III  O Que Ficou

As cinco provas de Amsterdã

As britânicas boicotaram os Jogos de Amsterdã. A federação feminina inglesa considerou cinco provas pouco demais e ficou em casa, em apoio ao programa completo que Milliat defendia.

As outras foram. A canadense Ethel Catherwood ganhou o salto em altura, e a americana Betty Robinson, de 16 anos, venceu os 100 metros.

A prova dos 800 metros virou munição. A alemã Lina Radke venceu com recorde mundial, em 2 minutos, 16 segundos e 8 décimos, e várias corredoras se jogaram na grama depois da chegada, exaustas. Jornais escreveram que as mulheres desabavam na pista.

O COI tirou os 800 metros femininos do programa. A prova só voltou nos Jogos de Roma, em 1960, 32 anos depois.

Milliat seguiu com os próprios jogos. Houve edição em Praga, em 1930, e em Londres, em 1934, cada uma maior que a anterior, com mais países e mais provas.

Em 1936, a IAAF assumiu de vez o atletismo feminino internacional e a FSFI foi dissolvida. Milliat, doente, já tinha deixado a presidência.

Alice Milliat morreu em 19 de maio de 1957, em Paris, aos 73 anos, quase esquecida. Nenhum jornal grande deu destaque. Durante décadas, o túmulo da família em Nantes não trouxe gravado o sobrenome dela.

A lembrança voltou devagar. Ginásios, ruas e escolas na França ganharam o sobrenome dela a partir dos anos 2000, e uma fundação criada em Paris para promover o esporte feminino também leva o sobrenome de Milliat.

Em 26 de julho de 2024, na abertura dos Jogos de Paris, dez estátuas douradas de mulheres francesas subiram das águas do Sena. Uma delas era Alice Milliat.

Naqueles Jogos, o COI distribuiu pela primeira vez o mesmo número de vagas para homens e mulheres. O atletismo feminino teve programa igual ao masculino, inclusive os 800 metros.

Segundo o próprio COI, as 10.500 vagas de atleta foram divididas meio a meio. No estádio de Saint-Denis, ao norte de Paris, as finais femininas lotaram as mesmas arquibancadas das masculinas.

Milliat deixou a defesa da causa escrita: “O esporte feminino tem o seu lugar na vida social, tanto quanto o esporte masculino.”

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual país venceu a disputa por equipes no estádio Pershing, naquele domingo de agosto de 1922?

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o texto, quais modalidades o COI liberava para as mulheres nos Jogos de 1920, ano em que recusou o pedido de atletismo feminino de Milliat?

AAtletismo, tênis, esgrima e vela
BTênis, natação, saltos ornamentais e patinação artística
CRemo, hóquei, futebol e ciclismo
DAtletismo, natação, ginástica e vôlei

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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