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Alice Guy, a secretária que pediu a câmera emprestada

Ela datilografava cartas para Léon Gaumont em Paris, inventou o filme de ficção e dirigiu um estúdio inteiro nos Estados Unidos.

A secretária Alice Guy diante de uma câmera de manivela no quintal da Gaumont, em Paris, 1896.

Paris, 1896: a câmera emprestada de Alice Guy

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Aos 22 anos, a secretária Alice Guy bateu à porta do escritório do patrão, Léon Gaumont, em Paris, e pediu a câmera da empresa emprestada. Queria filmar uma história que ela mesma tinha inventado.

O pedido soava estranho em 1896. O cinema tinha poucos meses de vida. Os irmãos Lumière tinham mostrado ao público as primeiras projeções pagas em dezembro de 1895, num café do Boulevard des Capucines, e o que se via na tela era a vida real: operários saindo da fábrica, um trem entrando na estação, um bebê comendo.

Gaumont vendia câmeras e projetores. Para ele, o filme servia para demonstrar a máquina ao comprador. Ninguém na empresa pensava em contar histórias com ela.

Alice achava que o público se cansaria logo de ver trens chegando. Queria pôr na tela algo que nunca tinha acontecido: personagens, figurino, cenário pintado, um enredo com começo e fim.

Gaumont aceitou com uma condição, que ela registrou nas próprias memórias: as cartas do escritório não podiam atrasar. Ela filmaria nas horas livres, sem salário extra.

No quintal da casa de Gaumont, em Belleville, Alice montou um jardim de mentira com repolhos de papelão. Vestiu uma amiga de fada. A fada tirava bebês de dentro dos repolhos, como na história que os pais franceses contavam às crianças para explicar de onde vinham os irmãos.

O filme se chamou La Fée aux choux (A Fada dos Repolhos) e durava menos de um minuto. A data exata ainda divide os historiadores: Alice dizia 1896, e parte dos pesquisadores defende que a versão que sobreviveu foi refilmada por ela em 1900.

A fada vendeu cópias. Gaumont tirou a secretária da máquina de escrever e a pôs no comando de toda a produção de filmes da empresa.

Alice ficou no posto até 1907. Dirigiu comédias, dramas, filmes de dança e um épico sobre a vida de Cristo, com centenas de figurantes. Testou cor pintada à mão e som gravado em disco.

Nada daquilo entrou nos primeiros livros de história do cinema com o nome dela. Para entender como uma datilógrafa chegou àquela câmera, a vida dela precisa começar do outro lado do oceano.

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I  A Vida de Hoje

A menina da livraria de Valparaíso

Alice Ida Antoinette Guy nasceu em 1º de julho de 1873, em Saint-Mandé, nos arredores de Paris. Era a caçula de cinco filhos de Emile Guy e Marie Clotilde Franck.

O pai era dono de uma rede de livrarias e editoras em Santiago e em Valparaíso, no Chile. A mãe atravessou o oceano para ter a filha na França e voltou logo depois. Alice ficou com a avó materna na Suíça, em Carouge, até os 3 anos.

Depois foi levada para o Chile e passou a primeira infância entre os livros do pai. Ouvia histórias contadas pela babá chilena e aprendeu espanhol antes de ler francês.

Aos 6 anos, voltou à Europa para estudar num colégio de freiras do Sagrado Coração, na fronteira franco-suíça. A família seguia em Valparaíso.

O dinheiro acabou cedo. As livrarias do pai foram destruídas por incêndios e saqueadas durante a crise política chilena. Emile Guy perdeu quase tudo e voltou para a França. Morreu em 1891, quando Alice tinha 17 anos.

A mãe arrumou emprego como diretora de uma cooperativa de costureiras. A filha precisava de um ofício que pagasse o aluguel.

A escolha de Alice para sobreviver foi a mesma que a pôs, anos depois, dentro de uma sala com a primeira câmera de cinema de Paris.

Ela estudou estenografia (a escrita abreviada por sinais, usada para anotar ditados na velocidade da fala) e datilografia, a máquina de escrever ainda novidade nos escritórios.

Em 1894, foi contratada como secretária pelo Comptoir Général de Photographie, uma loja de equipamento fotográfico em Paris. Quem a entrevistou foi o gerente, Léon Gaumont, 9 anos mais velho que ela.

Gaumont avisou que a vaga talvez fosse jovem demais para uma moça. Alice respondeu que a juventude passaria. Ele a contratou.

No ano seguinte, a loja faliu e Gaumont a comprou com sócios, entre eles o engenheiro Gustave Eiffel. A nova empresa, L. Gaumont et Cie., fabricava câmeras e aparelhos de projeção.

Em 22 de março de 1895, Gaumont levou a secretária a uma reunião da Sociedade de Incentivo à Indústria Nacional, em Paris. Ali os irmãos Louis e Auguste Lumière mostraram a uma plateia de cientistas o primeiro filme que projetaram: operários saindo da fábrica deles em Lyon.

A sala viu ciência. Alice viu uma máquina de contar histórias.

 
 

II  O Momento que Virou

A placa pendurada em Fort Lee

Em 1906, ainda na Gaumont, Alice dirigiu La Vie du Christ (A Vida de Cristo), com 25 cenas, cenários construídos no estúdio de Buttes-Chaumont e mais de 300 figurantes. Era um dos filmes mais longos e caros que a França tinha produzido até ali.

Ela também comandou as phonoscènes (cenas filmadas com som gravado em disco e tocado junto com a imagem) para o Chronophone, o aparelho que Gaumont inventou para sincronizar som e filme. Cantores de ópera e de cabaré gravavam primeiro a música, depois dublavam a si mesmos diante da câmera.

Em 1907, contratou para a Gaumont o cinegrafista inglês Herbert Blaché. Casou com ele no mesmo ano e deixou a empresa: a Gaumont mandou o marido abrir o escritório americano em Cleveland, e Alice foi junto, com o sobrenome Guy-Blaché.

Nos Estados Unidos, passou dois anos em casa, cuidando da filha Simone, nascida em 1908.

Em 1910, voltou ao trabalho e fundou a própria produtora, a Solax Company, em Flushing, Nova York. Herbert cuidava da distribuição da Gaumont; ela era presidente e diretora artística da Solax.

Em 1912, Alice Guy-Blaché inaugurou em Fort Lee, Nova Jersey, um estúdio próprio, com laboratório, cenários e teto de vidro para filmar com luz do sol.

Fort Lee era então a capital do cinema americano, antes de Hollywood. Na parede do estúdio novo, Alice pendurou uma placa grande, para o elenco ler antes de cada cena: "Be Natural" (seja natural). Ela queria atuação contida, sem os gestos exagerados que o teatro levava para a tela.

A Solax lançava um ou dois filmes por semana. Alice dirigiu faroestes, comédias, dramas e filmes de aventura com explosões e leões de verdade.

Em 1912, fez A Fool and His Money (Um Tolo e Seu Dinheiro), com elenco inteiro de atores negros, num tempo em que o cinema americano punha atores brancos de rosto pintado nos papéis de negros. Uma cópia foi achada num leilão em 1996 e hoje está na Biblioteca do Congresso, em Washington.

Fez também Falling Leaves (Folhas que Caem), de 1912: uma menina amarra de volta nos galhos as folhas de uma árvore porque ouviu o médico dizer que a irmã doente partiria antes da última folha cair.

Em 1914, Herbert assumiu a direção da Solax e abriu a própria empresa. O mercado mudou: os estúdios se mudaram para a Califórnia e o filme longo passou a exigir capital que produtoras pequenas não tinham.

Alice dirigiu para outras companhias até 1920. O último filme foi Tarnished Reputations, daquele ano.

Em 1918, Herbert foi para Hollywood com uma atriz. O casamento terminou em divórcio em 1922.

 

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III  O Que Ficou

O nome que voltou à placa

Em 1922, Alice leiloou o estúdio de Fort Lee para pagar dívidas e voltou à França com os dois filhos, Simone e Reginald. Tinha 49 anos e nunca mais dirigiu um filme.

Tentou recomeçar em Paris. Nenhum estúdio francês a contratou. Passou a escrever contos e artigos para revistas e a dar palestras sobre cinema, que muitas vezes começavam com a lista de filmes que ela fez e que outros assinavam.

Quando os primeiros historiadores do cinema francês escreveram as obras de referência, entre os anos 1930 e 1950, deram a Gaumont os filmes que ela dirigiu. Alguns creditaram A Fada dos Repolhos a homens que trabalharam para ela, como os diretores Victorin Jasset e Louis Feuillade, este contratado pela própria Alice.

Nas primeiras histórias da Gaumont, publicadas pela empresa, o nome dela também não aparecia. As cópias dos filmes da Solax tinham se perdido em incêndios, depósitos fechados e coleções particulares.

Alice passou as últimas décadas da vida corrigindo os livros à mão: riscava o nome errado e escrevia o dela por cima.

Escreveu cartas a historiadores e montou listas de títulos. Em 1953, o governo francês lhe deu a Legião de Honra, a mais alta condecoração do país.

Nos anos 1940 começou a escrever as memórias. O livro só saiu em 1976, oito anos depois que ela morreu, com o título Autobiographie d'une pionnière du cinéma (Autobiografia de uma pioneira do cinema). Nele, Alice calcula ter dirigido, produzido ou supervisionado cerca de 1.000 filmes.

Morreu em 24 de março de 1968, aos 94 anos, numa casa de repouso em Mahwah, Nova Jersey, perto da filha. Nenhum de seus filmes era exibido em lugar algum naquela data.

O que não se sabe também pesa. A conta exata de filmes não existe, porque a maior parte se perdeu e muitos nunca tiveram crédito na tela. A data da Fada dos Repolhos segue em disputa porque nenhum documento de 1896 sobreviveu.

O resgate veio de pesquisadores. A historiadora americana Alison McMahan publicou em 2002 Alice Guy Blaché: Lost Visionary of the Cinema, com a filmografia levantada em arquivos dos dois lados do oceano.

Em 2018, a diretora Pamela B. Green lançou o documentário Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché, com o nome da placa de Fort Lee no título. Arquivos de cinema da Europa e dos Estados Unidos passaram a restaurar e exibir os filmes que reapareceram.

A Fada dos Repolhos hoje abre retrospectivas sobre a origem do cinema, com o nome dela nos créditos.

"Que trabalho seu ainda leva o nome de outra pessoa?"

Alice Guy-Blaché, na placa que pendurou para o elenco de Fort Lee: "Be Natural."

 
 
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Que frase Alice Guy-Blaché pendurou na parede do estúdio de Fort Lee para o elenco ler antes de cada cena?

AQuiet on the set
BKeep it simple
CBe Natural
DLight is money

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