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Ahmad Baba e os 1.600 livros levados de Timbuktu

Jurista de Timbuktu, ele chegou acorrentado ao Marrocos em 1594 e escreveu que a biblioteca confiscada era a menor da família.

Jurista acorrentado chegando a Marraquexe com uma caravana no fim do século 16.

Marraquexe, 1594: a chegada dos presos

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Aos 37 anos, o jurista Ahmad Baba entrou em Marraquexe em 1594 com uma corrente nos pés. Vinha de Timbuktu, do outro lado do Saara, escoltado por soldados do sultão marroquino Ahmad al-Mansur.

A travessia tinha levado meses. No caminho, ele caiu do camelo e quebrou a perna, e seguiu viagem assim mesmo, preso, com a família e outros sábios da cidade.

Em Timbuktu, ninguém o tratava como prisioneiro. Era o homem que as pessoas procuravam para resolver herança, casamento, dívida e briga de vizinho, consultado por mercadores e por juízes mais velhos que ele.

A família dele, os Aqit, dava juízes à cidade havia gerações. O avô e o bisavô tinham ocupado o cargo de cádi (o juiz que aplica a lei islâmica) da Grande Mesquita de Timbuktu.

Dois anos antes, o exército saadiano (da dinastia Saadi, que governava o Marrocos) tinha atravessado o deserto com armas de fogo e derrotado o Império Songai, dono de Timbuktu.

Os soldados ocuparam a cidade, mas os sábios continuaram a falar. Pregavam nas mesquitas, escreviam pareceres e não reconheciam a autoridade dos invasores.

Em outubro de 1593, o paxá (o governador militar) Mahmud ibn Zarqun mandou reunir os letrados na mesquita de Sankoré e prendeu todos. As casas foram revistadas e os livros, recolhidos.

Os de Ahmad Baba saíram de casa em fardos. Ele contaria depois o número exato dos volumes perdidos e faria questão de acrescentar um detalhe: entre os parentes, era ele quem tinha menos livros.

Num tempo em que cada manuscrito era copiado à mão, letra por letra, uma estante assim custava fortunas. A dele, com 1.600 volumes, era a mais modesta de uma casa inteira de leitores.

Em Marraquexe, o sultão esperava um grupo de rebeldes. Recebeu um professor com a perna quebrada, que começou a ensinar ainda dentro da cadeia.

A história de como um menino de um oásis do Saara virou o jurista que o Marrocos quis calar começa num povoado de areia e sal, ao norte de Timbuktu.

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I  A Vida de Hoje

O neto dos juízes de Timbuktu

Ahmad Baba al-Massufi al-Tinbukti nasceu em outubro de 1556 em Araouane, um oásis de caravanas de sal a um dia e meio de camelo ao norte de Timbuktu. A família se mudou para a cidade quando ele ainda era menino.

Timbuktu ficava na curva do rio Níger, na beira sul do Saara. Por ali passavam o ouro, o sal e os escravizados que as caravanas levavam ao norte, e também os livros que elas traziam de volta do Cairo e de Fez.

Os Aqit eram berberes da tribo Massufa, gente do deserto que se fixou na cidade e trocou o comércio pela lei. O pai de Ahmad Baba, Ahmad ibn al-Hajj Ahmad, era professor e juntou uma biblioteca grande em casa.

O menino aprendeu a ler no Corão e passou cedo à gramática árabe e ao fiqh (o direito islâmico, que regula da oração ao contrato). Os pais e os tios eram os primeiros professores.

O mestre que ele mais citou foi Mohammed Baghayogho, um jurista de origem mandinga que ensinava em Timbuktu. Ahmad Baba estudou com ele por mais de dez anos e escreveu que o mestre emprestava os próprios livros aos alunos sem pedir de volta.

Na casa dos Aqit, a riqueza da família se media em manuscritos, e cada geração copiava e comprava mais.

Os livros vinham em cadernos soltos, embrulhados em capas de couro. Um copista levava semanas para reproduzir uma obra de direito, e as famílias de letrados trocavam exemplares entre si para fazer cópias.

Aos 30 anos, Ahmad Baba já dava aulas e escrevia pareceres. Seguia a escola malikita (a corrente do direito islâmico dominante no norte da África), a mesma dos juízes da família.

Os temas que chegavam à mesa dele eram do dia a dia da cidade: quem herda a loja do mercador que morreu sem filho, se o tabaco pode ser vendido, como se reparte a água de um poço.

Timbuktu tinha então três grandes mesquitas, Djinguereber, Sidi Yahya e Sankoré, e em volta delas se ensinava direito, gramática, astronomia e medicina. Os alunos vinham de todo o Sahel (a faixa semiárida ao sul do Saara).

O Império Songai, que governava a cidade, deixava os sábios em paz. O ásquia (o título do imperador songai) consultava os juízes e respeitava a autonomia deles.

Esse equilíbrio acabou em 1591. Ahmad Baba tinha 34 anos quando chegou a notícia de que um exército vindo do Marrocos tinha cruzado o deserto.

 
 

II  O Momento que Virou

O paxá da mesquita de Sankoré

O sultão Ahmad al-Mansur queria o ouro do Sudão Ocidental. Em 1590, mandou o general Judar Paxá atravessar o Saara com alguns milhares de soldados armados de arcabuzes (as espingardas de pavio da época).

Em março de 1591, na batalha de Tondibi, perto de Gao, os arcabuzes venceram a cavalaria songai. O império, que tinha a maior extensão da África Ocidental, desmoronou em poucos meses.

Timbuktu foi ocupada sem cerco. Os mercadores negociaram, mas os sábios resistiram com o que tinham: sermões, pareceres e a recusa de rezar em nome do sultão marroquino.

O cronista Abd al-Rahman al-Sa'di, nascido em Timbuktu em 1594, descreveu os anos seguintes no Tarikh al-Sudan (a Crônica do Sudão), escrito por volta de 1655. Ele lista os presos e as casas saqueadas nome por nome.

Segundo a crônica, o paxá Mahmud ibn Zarqun convocou os letrados à mesquita de Sankoré em outubro de 1593, sob o pretexto de um juramento de lealdade. Quando entraram, os soldados fecharam as portas.

Alguns morreram na confusão. Os outros foram acorrentados, e as casas deles, esvaziadas: ouro, roupa, móveis e livros.

Ahmad Baba saiu da mesquita como prisioneiro e nunca mais viu os 1.600 volumes que tinha juntado em casa.

A viagem até Marraquexe começou no início de 1594. Os presos atravessaram o Saara em fila, com as famílias, e Ahmad Baba fez boa parte do caminho com a perna quebrada pela queda do camelo.

Chegaram ao Marrocos em maio. O sultão mandou pôr os sábios na prisão, e Ahmad Baba ficou ali por dois anos, ainda acorrentado.

Na cadeia, outros presos e guardas começaram a pedir lições. Ele ensinava de memória, sem os livros, e recitava passagens inteiras dos juristas que tinha copiado em Timbuktu.

Em 1596, os sábios saíram da prisão para a prisão domiciliar. Ahmad Baba foi chamado ao palácio, e al-Mansur, como era costume, falou com ele de trás de uma cortina.

O jurista recusou a conversa assim. Disse ao sultão que, pela tradição, só Deus fala aos homens por trás de um véu, e que um homem que imita esse gesto se põe no lugar de Deus. Al-Mansur saiu de trás da cortina.

Então Ahmad Baba perguntou por que tinha sido preso, roubado e trazido acorrentado. O sultão respondeu que queria unir os muçulmanos sob um só governo. O jurista rebateu que Timbuktu já era muçulmana e que ninguém ali tinha pedido proteção.

 

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III  O Que Ficou

A biblioteca que ficou em Marraquexe

Ahmad Baba passou mais de dez anos no Marrocos. Proibido de voltar, ensinou direito na mesquita dos Xerifes, em Marraquexe, e juntou alunos que depois viraram juízes em Fez e no Magrebe.

Ainda em 1596, terminou o Nayl al-Ibtihaj, um dicionário biográfico dos juristas malikitas, com mais de 800 nomes. Escreveu boa parte dele sem a biblioteca que tinha perdido, de memória e com livros emprestados.

No livro, ele incluiu os sábios de Timbuktu que ninguém fora do Sahel conhecia. Foi o que garantiu que nomes como Mohammed Baghayogho entrassem nos registros do mundo islâmico.

Al-Mansur faleceu em 1603. O filho dele, Zaydan, deixou o jurista ir embora, e Ahmad Baba voltou a Timbuktu em 1607, depois de 14 anos longe de casa.

Em 1615, escreveu o Mi'raj al-Su'ud (algo como "A escada da ascensão"), resposta a perguntas vindas de Tuat, no sul da Argélia. O tema era quem podia ser escravizado.

Ahmad Baba escreveu que a cor da pele não tornava ninguém escravizável e que os muçulmanos dos povos do Sahel, como os songais e os fulas, eram livres.

O texto não condenava a escravidão em si. Mesmo assim, virou referência para juristas que contestavam a captura de africanos muçulmanos pelas caravanas do Saara.

Ahmad Baba faleceu em Timbuktu em 1627, aos 70 anos. Os 1.600 volumes nunca voltaram. O que se sabe é que entraram nas bibliotecas de Marraquexe; nenhum catálogo da época registrou em que estantes, e a pista se perde ali.

Em 1973, o governo do Mali abriu em Timbuktu, com apoio da Unesco, um centro de documentação para guardar os manuscritos da região. Ele recebeu o nome de Instituto Ahmed Baba.

Em 2013, grupos armados que ocupavam o norte do Mali queimaram parte do acervo no prédio novo do instituto. Bibliotecários como Abdel Kader Haidara já tinham levado a maior parte dos manuscritos para Bamako, a capital, escondidos em baús e sacos de arroz.

O instituto segue catalogando os cadernos de família que os Aqit e outros letrados de Timbuktu guardaram por séculos em baús de madeira e couro.

“Qual livro da sua estante você conseguiria reescrever de memória, se alguém levasse todos embora?”

Ahmad Baba deixou o prejuízo anotado com precisão de jurista: “Eu era quem tinha menos livros entre os meus parentes, e deles me tomaram 1.600 volumes.”

 
 
Quiz da edição

Em outubro de 1593, o paxá Mahmud ibn Zarqun reuniu os letrados de Timbuktu numa mesquita sob pretexto de juramento de lealdade e os prendeu ali. Qual mesquita?

ADjinguereber
BSidi Yahya
CSankoré
DMesquita dos Xerifes, em Marraquexe

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